20 agosto 2011

A submissão do PS

 


Ontem, em resposta a uma das minhas impaciências pela morosidade enervante de certos desenvolvimentos, disseram-me que, apesar de tudo, estávamos ali, a conversar e a tentar alinhar as vontades e as acções, enquanto tudo o resto estava de férias.


 


Olhando para a nossa vida política tenho que dar razão a quem assim argumentava. O PS está de sabática desde as eleições legislativas. António José Seguro, aquela fera durante o consulado de Sócrates, que se insurgia contra a política de educação, de saúde, etc., parece ter desaparecido para parte incerta, sem que ninguém possa explicar o que pensa, o que pretende, comentários ao que se vai passando, alternativas, sei lá, uma prova de vida.


 


É claro que o PS está comprometido com muitas das medidas impostas pela Troika, pelo que se espera responsabilidade e não ausência ou omissão. O governo tem tomado medidas no mínimo polémicas. O populismo e a demagogia associados às nomeações para cargos políticos, o novo modelo de avaliação de professores, o plano de emergência social, as privatizações, o TGV, o eventual convite a Mário Crespo, para nomear apenas algumas. Será que o maior partido político na oposição não tem nada a dizer?


 


Tal como as anteriores lideranças do PSD foram um seguro de vida para o governo PS, António José Seguro é o garante de Passos Coelho. O vazio de ideias que se adivinhava está a revelar-se neste silêncio ensurdecedor.

Agosto

 



The wondering artist


 


Agosto ferve em lume brando o céu eléctrico em frenesim ameaça alarde de trovão. Arrasta-se a plebe pela casa pela cama pela rua pelo chumbo sob as cabeças cinzento sujo que nem a água chega para clarear.


 


A contabilidade toma conta da vida quanto custa andar que as solas dos sapatos também se gastam quanto custa telefonar que a conversa já estafa quanto custa a refeição que de fartura estamos parcos.


 


Contam-se moedas e cabeças carapaus e bocas medem-se alturas e pesos calculam-se passos quilómetros e horas ao minuto ou ao segundo pois o futuro não se conhece nem serve de norte.


 


Agosto marina a paciência de quem já não espera. Calam-se as vozes de dentro que nem vale a pena pensar. Sobrevivemos ao desgosto apenas sobra o mole descoser dos dias.

18 agosto 2011

O desfazer da Europa

 


Tenho muita dificuldade em me rever numa Europa em que, sem que os cidadãos os tenham eleito ou mandatado para tal, há dois países que se assumem como os chefes incontestáveis de uma união de Estados que se dizem soberanos, dando conferências de imprensa em que sugerem o que a Constituição de cada país deve conter.


 


A Europa vai-se descaracterizando cada vez mais, tornando supérfluo o acto eleitoral que se cumpre, como um ritual, de 5 em 5 anos, para além da total irrelevância do Presidente da Comissão Europeia e do Presidente do Conselho Europeu. A opinião dos cidadãos não serve para construir ou aprofundar a União, mas apenas para manter uma fachada de democracia europeia.


 


Angela Merkel e Nicolas Sarkozy já nem sequer se preocupam em manter a encenação. O conceito de União Europeia já não existe.

15 agosto 2011

Felicidade

 



Alan Faulds


 


Seremos felizes os dois


dentro da quieta acidez do quotidiano


entre silêncios cúmplices e tristezas repartidas


a grandeza do amor nas duras desistências


entre o sal da resistência e o manso sabor das ondas.


 


Seremos felizes os dois


dessa felicidade rugosa e incerta


que ilumina cada recanto dos corpos seduzidos


pela comunhão sem paz nem tréguas


entre acessórios gestos sem sentido nem chama.

14 agosto 2011

A escrita tem sexo (?)

 


Vai decorrendo um desafio muitíssimo interessante - O sexo da escrita - Prova cega - imaginado por Ana Vidal. Consiste em tentar-se descobrir, através de um pequeno excerto de uma qualquer obra, qual o sexo do autor.


 


Aqui se podem discutir muitos conceitos e opiniões sobre a existência ou não de um género na escrita. Levantam-se ainda as questões das traduções, nomeadamente se o sexo de quem traduz influencia a escrita.


 


Será que há mesmo temas, estilos, sensibilidades, que se definem como femininas ou masculinas? Será que não?


 


Descubra, num blogue perto de si.


 

Mortal loucura

 



 José Miguel Wisnik / Gregório de Matos


Caetano Veloso


Grupo Corpo: Onqotô


 


Na oração que desaterra........................... aterra,


Quer Deus que a quem está o cuidado....... dado


Pregue que a vida é emprestado............... estado,


Mistérios mil que desenterra.................... enterra.


 


Quem não cuida de si que é terra.............. erra,


Que o alto Rei por afamado..................... amado


E quem lhe assiste ao desvelado............... lado


Da morte ao ar não desaferra.................. aferra.


 


Quem do mundo a mortal loucura............ cura,


À vontade de Deus sagrada...................... agrada


Firmar-lhe a vida em atadura................... dura.


 


Ó voz zelosa que dobrada......................... brada,


Já sei que a flor da formosura................... usura


Será no fim desta jornada........................ nada.

13 agosto 2011

Em cerca de 2 meses

 


Este governo, eleito para cumprir uma rigorosa mudança de atitude governativa, com enormes e exuberantes cortes nas despesas do estado, anunciadas, escolhidas e conhecidas pelos estudiosos especialistas, pensadores, opinadores e comentadores da área actualmente no poder, tem anunciado em conferências de imprensa, mais impostos e nenhuma medida para reduzir as despesas (estou a esquecer-me, obviamente, da reduzida dimensão do governo).


 


Desde 5 de Junho, em pouco mais de 2 meses, aqueles que não aprovaram o PEC IV, já introduziram um imposto extraordinário (subsídio de Natal), aumentaram os transportes públicos (em cerca de 12% - média) e aumentaram o IVA para 23% no gás e electricidade.


 


O Estado propõe-se ajudar as IPSS para que elas apoiem os cidadãos com maiores dificuldades (Plano de Emergência Social), mas parece que terá que as salvar primeiro da falência. Para isso nada melhor do que aligeirar as regras de funcionamento, tal como se podem aligeirar as regras de segurança e higiene dos produtos alimentares, tal como se podem aligeirar as regras de segurança para o consumo de medicamentos, para os cidadãos com maiores dificuldades. No entanto o Estado não parece preocupado em salvar os hospitais do SNS pagando-lhes os enormes montantes que lhes deve, colocando em causa o normal funcionamento dos mesmos e o atendimento adequado aos doentes, mas sugere que apertem os cordões à bolsa e que tenham contenção. Temos a vantagem de assistir à criação de um organismo... que já está criado.


 


Confesso que me escapa esta escala de prioridades.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...