26 junho 2011

Primeira semana

 


Os detractores de Sócrates e do governo anterior, a totalidade dos partidos que não o PS, e mesmo dentro deste, não comentam agora a necessidade de mais PECs, conforme Passos Coelho anunciou, secundado por Miguel Relvas, após o Conselho Europeu. Afinal estes anúncios e estas medidas são mais ditadas pela vontade da União Europeia do que pela dos chefes do governo, como sempre o souberam os partidos políticos, à esquerda e à direita do PS.


 


No PS a luta pela liderança parece estar já decidida. Infelizmente mal decidida, pois António José Seguro vai dando sinais de que não aprendeu nada com os erros da anterior oposição ao seu partido. Pelos vistos para ele fazer oposição é dizer que não, seja lá ao que for: não aceita fazer uma revisão constitucional? Porquê? Não é precisa? Critica os planos de austeridade do governo? E então? Quais são as suas alternativas?


 


Valha-nos (São) Francisco (de) Assis.


 

Concerto de Brandenburgo N º 4 em Sol maior


J. S. Bach & Café Zimmermann

 

25 junho 2011

Trocas

 



Mrinalini Mukherjee: lava


 


Troco as palavras pelos dedos pelos olhos pela boca


troco de língua de roupa de cama


troco os passos pelos dias os atalhos pelos riscos


troco de mãos de sangue de cor de forma de ser.


 


Troco tudo e que se troca


até de mim


mas de ti não.


 

24 junho 2011

Populismo

 


A anunciada medida de trocar os lugares em executiva por lugares em económica, nos voos europeus, de Passos Coelho e de todo o governo, não é mais do que demagogia e populismo. É claro que, mais cedo ou mais tarde, este tipo de propaganda estala nas mãos de quem a incentivou. Neste caso, se isto for verdade, foi bem mais cedo.


 

Irreversível

 



Ronald Rae: Widow Woman 


 


A face enrugada e os lábios engolidos pela falta de dentes, querida face de quem me é tudo e me deu tudo, de quem me olha confiante e eu sem saber se sou de confiar. O abandono do corpo tão grande como a entrega da alma serena e sem reservas, olhos sorridentes e um pouco assustados, a fala da quase criança em que nos transformamos, de tantos os anos, iguais aos nascituros.


 


Querida face enrugada de quem me é tudo e me deu tudo, de quem me olha como se a vida se tornasse reversível.


 

23 junho 2011

Os limites da democracia

 



 


A propósito da Grécia, das dívidas, dos pacotes de austeridade e do afundamento do projecto europeu, assim como da subversão dos princípios democráticos, pela redução das opções de escolha dos cidadãos, vale a pena ouvir Maria João Rodrigues, entrevistada por Paulo Tavares (TSF).


 

Próxima legislatura

 



 


O aparente apaziguamento da sociedade e a boa vontade perante o novo governo revela o enorme alívio perante o resultado das últimas eleições. Alívio que é partilhado pela esquerda, pois penso que todos esperavam um enquadramento parlamentar diferente, sem maiorias, em que a formação de um governo fosse difícil pela incapacidade de se formarem alianças. Penso que o melhor que se esperava era uma reedição do bloco central. Assim, a escolha clara por uma maioria de direita dá estabilidade ao país. Além disso, a coligação soube negociar em tempo recorde, apresentar uma solução governativa inovadora e resolver o imbróglio Fernando Nobre de uma maneira brilhante.


 


O suspiro de alívio é geral e profundo. Mas as opções políticas são claras e o que nos espera serão medidas de redução do Estado Social, de caritatização da sociedade, da transformação daquilo que consideramos direitos como favores do Estado. A solidariedade entre os cidadãos e a sua contribuição para o bem geral, que era mais ou menos assumido que se traduzia no contributo fiscal, em que os que mais ganham mais pagam, para que os serviços prestados fossem universais, parece ter os dias contados. A ideia de que a Educação Pública é um dos agentes mais importantes na democratização da sociedade, em que o investimento na escola tem o retorno garantido na redução das diferenças entre diversas classes económicas e múltiplas culturas, será ultrapassada.


 


A implosão do BE e a renovação ideológica e de praxis no PS são indispensáveis no reposicionamento dos partidos de esquerda para o debate que importa realizar, tendo em conta a globalização, o falhanço das lideranças europeias e a derrocada do projecto europeu. Os valores mantém-se, mas as medidas para que as sociedades se revejam neles, a forma de os abordar e, sobretudo, de os honrar, terá que ser diferente. Francisco Assis abriu o caminho com a hipótese da participação da sociedade na eleição do líder do PS.


 


A próxima legislatura, esperemos, terá a duração de quatro anos. É tempo de renovar e assumir roturas com o passado. A esquerda precisa de romper com a cultura sindical instalada, que é arcaica e anacrónica, precisa de rever os modelos da legislação laboral, das áreas de desenvolvimento económico e de inovação, precisa de manter algumas bandeiras, como as energias renováveis e o investimento na ciência, de propor reformas políticas e administrativas que respeitem a democracia. Acima de tudo, precisa de repor a credibilidade da política e dos políticos, rejeitando sem medo todas as formas de populismo que se mascarem de movimentos apartidários e de cidadãos, que mais não são do que embriões de devaneios totalitários.


 


Não há tempo a perder.


 

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...