03 abril 2010

Justiça parlamentar

O negócio dos submarinos data do governo de Durão Barroso, em que a responsabilidade da pasta da Defesa era de Paulo Portas. Ou seja, de 2002 a 2004. Mais uma vez estamos há cerca de 6 anos embrulhados numa investigação que não se desenrola nunca, mantendo pessoas, independentemente dos cargos mais ou menos públicos que ocupam, no limbo da suspeição. Mais uma vez não há culpados nem absolvidos.


 


São assim as investigações em Portugal. A constituição de uma comissão parlamentar de inquérito ao caso dos submarinos, para além do descrédito em que caíram as comissões parlamentares de inquérito depois do caso TVI/PT, não se percebe muito bem para que servirá. Dá a sensação de, como a justiça não funciona, haver uma tentativa de ultrapassar o impasse com a intervenção do Parlamento.


 


Só que o Parlamento não pode nem deve substituir-se ao Ministério Público nem aos Tribunais. É claro que há responsáveis mas estes deverão ser encontrados pela justiça, o mais depressa possível. Aguardemos a forma como o PS lidará com esta situação pois ela tem contornos semelhantes aos do caso Freeport. Esperemos que a chicana política que se fez contra Sócrates não sirva de desculpa para se fazer o mesmo a Paulo Portas e a Durão Barroso.


 


É, no entanto, de assinalar, a forma comedida e discreta com que a imprensa está a proceder neste caso, nomeadamente com o cuidado em não divulgar os nomes dos políticos envolvidos. Aplaude-se esta discrição, só não se entende o porquê da diferença. É também de aplaudir a ausência de recados e opiniões dos sindicatos dos juízes, dos magistrados, etc. Desta vez deve estar tudo a ser muito bem feito.


 


De tudo isto sobra uma justiça definhada, ou seja uma não justiça, resultante de um acordo tácito entre os dois maiores partidos portugueses que nunca quiseram proceder a uma verdadeira reforma da justiça, sendo este facto uma ameaça à liberdade de cada indivíduo e à própria democracia.

02 abril 2010

Politização da ciência

 



 


Os critérios de exclusão dos homossexuais masculinos de dar sangue não resultam de descriminação assente em preconceitos. Resultam da evidência científica existente até à data, que permite assegurar o menor risco de contaminação do sangue por infecções virais de vários tipos.


 


Como já o ano passado aqui escrevi, por três vezes, o direito a receber sangue com o menor risco possível de transportar doenças é superior ao direito de dar sangue. Este assunto não é político mas científico. O que está em causa não são ideologias mas evidências científicas. O que está em causa é a saúde pública.


 


Vale ainda a pena ler:



Parece-me bastante perigosa esta forma de manter na agenda política um tema que causa sempre muita troca de opiniões, a maior parte delas desinformadas e apenas politicamente correctas. Em ciência no geral, na medicina em particular, o que hoje se considera ser o mais adequado pelos dados e pelos estudos que existem, amanhã pode mudar. Aliás está sempre a mudar. Precisamente porque surgem novos dados científicos que suportam outras conclusões. Decorrem vários estudos sobre o assunto e a verdade é que ainda não há evidência suficiente que permita aos decisores dos vários comités internacionais mudarem as recomendações existentes. Classificar o questionário distribuído aos possíveis dadores de sangue como um bocadinho intrometido, como o faz Nuno Magalhães, é o mesmo que considerar que as perguntas de uma história clínica são demasiado íntimas.


 


Será que o Parlamento não quer votar uma resolução em relação aos critérios a observar na escolha dos doentes que beneficiam de determinadas terapêuticas anticancerosas? Não são todos os doentes com cancro da mama que fazem terapêutica com Trastuzumab. Estamos a ser discriminatórios, sim, mas por razões de segurança para os doentes e por sabermos que nem todos os cancros da mama se comportam da mesma forma e que, portanto, muitas doentes não beneficiarão dessa terapêutica.


 


Será que este é um bom serviço que os deputados estão a prestar a todos os cidadãos?


 

Tenha piedade










J.S. Bach - Paixão segundo S. Mateus

Andreas School


31 março 2010

Sem palavras

(...) O presidente executivo da EDP recebeu um total de 3,3 milhões de euros no ano passado, valor que inclui um montante de 1,8 milhões de euros, referentes ao pagamento de um prémio plurianual afecto aos anos 2006 a 2008. (...)




(...) Do montante de 1,3 milhões de euros auferido por António Mexia, 703 mil euros correspondem à remuneração fixa e 600 mil euros referem-se à componente variável anual. Os restantes 1,8 milhões de euros do bolo total repartem-se em montantes anuais de 600 mil euros, correspondentes aos anos de 2006, 2007 e 2008. (...)


 


O que é que justifica este tipo de remunerações nas empresas do estado? Como é possível alguém, em Portugal, numa empresa pública, ter uma remuneração média de 93.000 euros por mês, acrescido de um prémio mensal médio de 42.000 euros (calculando 14 meses por ano), o que perfaz um total, em média, de 135.000 euros por mês? Que competências e que produtividade têm António Mexia, Ferreira de Oliveira ou Zeinal Bava, comparadas com as de outros profissionais que ganham menos metade num ano que este senhores por mês?

Anos-luz

 



Entre a luz que vemos a realidade dessa luz podem passar milhões de anos-luz. Mas a luz que vemos não é menos real. Apenas nos aparece com uma constância inversamente proporcional à distância que as separa.


 


Entre a vida que temos e a que conhecemos, em nós e naqueles que abraçamos, há tantas vidas como segundos de vida, tantos abraços como partículas de luz. Apenas nos sabe ao gosto de uma parcela de felicidade.


 

Na morte da avó

 



poema de Miguel-Manso


pintura de Francisco Oller: el velorio


 


não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se


 


a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem


 


no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de


 


Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
─ é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida ─


 


depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante


 


o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia


 


como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia


 


a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez


da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota


 


(a partir daqui)


 

30 março 2010

Greve dos Enfermeiros

 


Começo por dizer que considero, este ano, por razões que se prendem com a grave crise que atravessamos, as greves decretadas por aumentos salariais uma irresponsabilidade, para além de mostrarem falta de solidariedade para quem, pura e simplesmente, não tem emprego.


 


Em segundo lugar, qualquer greve que se cole a um fim-de-semana, nomeadamente nesta semana em que há um feriado à 6ª feira e tolerância de ponto na 5ª feira à tarde, aumenta exponencialmente o número de dias efectivamente fora do trabalho, transformando uma greve de 3 dias numa paragem de 1 semana. Isso descredibiliza de imediato as razões de quem faz greve.


 


Os Enfermeiros, assim como os Técnicos de Diagnóstico e Terapêutica (TDT), têm uma licenciatura exactamente como os Biólogos, os Psicólogos e os Assistentes Sociais, por exemplo, contratados como Técnicos Superiores de Saúde (TSS). No entanto a remuneração que auferem nos serviços públicos, no início da carreira, é diferente, pelo que os Enfermeiros e os TDT reivindicam, e com toda a razão, a equiparação dos seus ordenados aos dos TSS.


 


Esta é uma reivindicação antiga, desde que os respectivos cursos passaram a ser considerados licenciaturas. É claro que todos compreendemos que é incomportável um aumento imediato de 200€ a cerca de 6.000 Enfermeiros mas a verdade é que este problema já deveria ter sido resolvido há muito tempo.


 


Não concordo com esta greve mas penso que o governo deve tentar encontrar uma forma de, faseadamente, pagar aos Enfermeiros, TDT e TSS a mesma remuneração inicial, pois não há licenciaturas de primeira e licenciaturas de segunda, como parece ser a opinião de Henrique Raposo, cujos artigos denota a ignorância atrevida de quem fala do que desconhece.

Os pacotes

Sábado Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais...