27 dezembro 2009

Encolher de ombros

 





Amy Casey: rigging


 


Se nos deslocarmos no espaço e no tempo podemos observar os mesmos jogos políticos, com protagonistas que mudam de lugar e de discurso consoante lhes está acessível o poder ou o anti-poder.


 


Não mudaram as vozes, as gravatas, a seriedade em frente às câmaras televisivas, as actuações medíocres ou fantásticas, os gritos, os sorrisos, os dentes de lobo e o ronronar dos gatos.


 


Por isso todos nós queremos Barak Obama como Presidente e Primeiro-ministro do mundo. Pelo menos há uma sugestão de novidade, de convicção, de realização de anseios e esperanças.


 


Perante a omnipresença dos discursos da crise, da ingovernabilidade, da coligação negativa, da oposição esvaziada e ocupada pelo Presidente da República, pelos despropositados ataques políticos à Presidência com a bênção de um chefe de governo que parece ter optado pela previsibilidade do confronto institucional, já ninguém liga qualquer importância aos diversos casos criados.


 


Lá vamos vivendo a vida, uns cada vez melhor, muitos cada vez pior, desligados dos apóstolos das desgraças e dos eternos sofredores que elegemos para nos governarem. A banalização da desgraça leva à descrença total em quem a anuncia assim como a banalização das queixas as reduz a um colectivo e gigantesco encolher de ombros.


 


(Também aqui)


 

Ávores de Inverno (1)

 





Edith Dora Rey: Winter Trees


 


Ontem viu-o trazer a pistola do pai. Não lhe disse nem lha mostrou. Percebeu pelo silêncio com que a tirou do bolso do casaco, um peso maior que o mundo todo, e a colocou no cimo do roupeiro, bem longe de outros olhos.


 


A completa noção da irremediável finitude, da compreensão da decadência e da dependência, da terrível solidão e tristeza, da casa fria, enorme, túmulo do resto de uma vida decepada pela dor da ausência, fê-lo evitar um previsível gesto de rebeldia e afronta ao destino.


 


Sentou-se ao computador e abriu o martelar das teclas, olhos parados perante o jogo repetitivo e hipnótico.


 

25 dezembro 2009

Vinte e cinco de Dezembro

 



Hung Liu: candles


 


Porque amamos e nos negamos

em todos os dias do ano

porque abrimos e nos dissecamos

em todos os dias do ano

porque odiamos e nos penalizamos

em todos os dias do ano

porque sabemos e nos enganamos

em todos os dias do ano


 


acendemos velas e ramos

neste particular dia do ano.

24 dezembro 2009

Concerto de Branderbourg nº 6, 2

 



Bach - Concerto Brandenbourg nº 6, 2


Claudio Abbado


Orquestra Mozart de Bolonha


 

Os Santos dos nossos Natais

 



Brian Kershisnik - Nativity


 


Nunca percebi porque se deseja um Santo Natal. Mesmo quem é cristão, quem acredite que Jesus é filho de Deus, que veio ao mundo para nos salvar, como santifica o Natal?


 


Que faz um Natal mais santificado que outro? A quantidade ou qualidade das iguarias, o número de presentes que se espalham pelo chão, as horas que se passam na cozinha, o desperdício e a gula frenética que varre todas as almas e, principalmente todos os corpos?


 


O que é um Natal Santo? A pobreza a que não chega a roupa, a comida, o carinho? A solidão, a tristeza, o desespero? Os ódios e os ressentimentos familiares, os velhos que adormecem isolados, as carrinhas das boas vontades, aquelas que têm dias e horas marcadas?


 


Todos os anos me pergunto o que é um Santo Natal, quando as pessoas mo desejam, eu que não sou mesmo nada santa, que vejo esta época como um hino à hipocrisia generalizada, como a festa de tudo o que é contrário aos sentimentos e actos de solidariedade descomprometida, de genuína vontade de abrir os braços e tentar abraçar o mundo.


 


Pois eu desejo que neste Natal todos os que vivem de incertezas práticas e objectivas ou apenas de sentimentos contraditórios, aqueles escuros e pesados que tantas vezes nos assaltam, possam olhar para si e encontrar forças para se animar, ou ao seu amigo, ao seu vizinho, ao seu familiar e, ao acordar no dia seguinte, naquele dia em que já se esqueceram os votos de paz e felicidade, consigam procurar uma solução.


 


Pois eu espero que todos os que todas as noites de todo o ano velam silenciosamente pelo doce articulado da sociedade, tenham alguns momentos de calma e convívio. Eles é que são os Santos dos nossos Natais.

 


(Também aqui)


 

Um dia como os outros (21)

 


(...) "We are now finally poised to deliver on the promise of real, meaningful health insurance reform that will bring additional security and stability to the American people. ... This will be the most important piece of social legislation since Social Security passed in the 1930s." — President Barack Obama. (...)


 


Aqui está uma bela prenda de Natal e uma viragem histórica na política de saúde americana.


 


(Também aqui)


 

Do perú natalício

 



 


Pois no nosso Natal desistimos do peru assado, com ou sem recheio.


 


O problema nem sequer era o peru, que eu despachadamente ia comprar já assado, recheado e enfeitado à casa da esquina, mas dos acompanhamentos.


 


Como já disse, sou um bocado criativa, às vezes em demasia. Como o peru não me dava trabalho, achava que devia caprichar no arroz, nas batatas palha, nas couvinhas de Bruxelas salteadas.


 


No primeiro Natal organizado em minha casa o arroz, sabiamente confeccionado pelo cozinheiro mais apreciado lá de casa, com nozes, pinhões, passas de uva, bem árabe, estava absolutamente delicioso, apenas com o pormenor de não ter um átomo de sal.


 


No segundo Natal resolvi que couves de Bruxelas salteadas eram um toque de requinte saudável nos acompanhamentos do peru. Temperei-as com sal e pimenta e salteei-as em azeite e alho. Esqueci-me porém de um passo preparatório que foi o de cozer as ditas couves, que ficaram salteadas mas cruas.


 


No terceiro Natal arrisquei uma coisa que nunca tinha feito – batata frita palha. Também nunca mais fiz. A verdade é que depois de fritar os fios de batata, penso que através de um utensílio inútil que andava pela cozinha, o resultado foi uma bola gordurenta de fios de batata colados uns aos outros, de tal maneira pouco apetitosos que nem foram à mesa.


 


Desisti de melhorar a ementa. Hoje em dia, para além da aletria e das rabanadas, do bacalhau cozido com batatas e grão, o dia 25 é palco de várias tentativas peruanas ou outras, mas com os acompanhamentos habituais, testados em casas seculares. As filhoses e os sonhos são contributos anuais indispensáveis, a cargo das gerações anteriores.

 

Os pacotes

Sábado Há sempre uma forma mais ou menos enviesada de falar de coisas pouco simpáticas. Além disso, hoje em dia privilegiam-se epítetos mais...