20 outubro 2009

Salário mínimo

 



 


Eu até posso aceitar que haja contenção salarial, mas nunca do salário mínimo. O salário mínimo é mesmo aquele cujo aumento nunca deveria ser congelado.


 


Em 2009 o salário mínimo subiu para 450€. Para 2010 foi acordado um aumento para 475€. O que será viver com 450 ou 475€ por mês?


 

Saramago

 



 


Ouvi as declarações de José Saramago e achei-as tristes. Não pelo assomo de blasfémia ou provocação. Mas pela infantilidade da prosa, pelos argumentos sem nexo, pelo disparate de tudo o que disse.


 


Saramago, um excelentíssimo escritor, não reconhece que a Bíblia, para além de um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana é também um manual de bons costumes, um catálogo de bondade e do melhor da natureza humana.


 


Está lá exactamente a essência do que é o homem, da sua relação consigo, com os outros, com a natureza e com a divindade. Estão o terror e a obediência cega, o amor e o altruísmo, o egoísmo e a generosidade, a intolerância e a aceitação, o heroísmo e o erotismo, as perversões, o belo, o místico e o sonho.


 


Estão a luta de um povo, a luta de homens e mulheres diferentes, pactos e diplomacia, guerra e regras, códigos laborais, está a raiz da forma como encaramos o mundo.


 


Não tem rigorosamente nada a ver com religião, nem com a fé. Isso pertence ao foro privado de cada um. Tem tudo a ver com a forma de nos pensarmos, no que há de razoável e extraordinário, até ao que de mais horrível podemos ser.


 


Nota 1: ler também Luís Naves.


 


Nota 2: o disparate é verdadeiramente livre e parece crescer exponencialmente.

 

18 outubro 2009

Quand on n'a que l'amour

 



Jacques Brel


 


 


Quand on n'a que l'amour

A s'offrir en partage

Au jour du grand voyage

Qu'est notre grand amour


 


Quand on n'a que l'amour

Mon amour toi et moi

Pour qu'éclatent de joie

Chaque heure et chaque jour


 


Quand on n'a que l'amour

Pour vivre nos promesses

Sans nulle autre richesse

Que d'y croire toujours


 


Quand on n'a que l'amour

Pour meubler de merveilles

Et couvrir de soleil

La laideur des faubourgs


 


Quand on n'a que l'amour

Pour unique raison

Pour unique chanson

Et unique secours


 


Quand on n'a que l'amour

Pour habiller matin

Pauvres et malandrins

De manteaux de velours


 


Quand on n'a que l'amour

A offrir en prière

Pour les maux de la terre

En simple troubadour


 


Quand on n'a que l'amour

A offrir à ceux-là

Dont l'unique combat

Est de chercher le jour


 


Quand on n'a que l'amour

Pour tracer un chemin

Et forcer le destin

A chaque carrefour


 


Quand on n'a que l'amour

Pour parler aux canons

Et rien qu'une chanson

Pour convaincre un tambour


 


Alors sans avoir rien

Que la force d'aimer

Nous aurons dans nos mains

Amis, le monde entier

 

Un homme et une femme

 


Un homme et une femme é um filme de Claude Lelouch, de 1966. Nunca o tinha visto embora conhecesse bem a música de Francis Lai.


 


Não sei se é um filme inocente, cândido, ingénuo ou romântico. Provavelmente é isso tudo. É um filme que se passa em viagem, entre as viagens de duas pessoas que se encontram no caminho. É um filme de silêncios e olhares, de uma ternura imensa, simples.


 


Se calhar está datado, porque a nossa relação com as coisas simples não está na moda. E por isso mesmo é também intemporal.

 


Das memórias

 



(Paul Cézanne - a autópsia)


 


Sem tempo para pensar, o sono transforma-se na cadeira do psicólogo, que nunca consultei.


 


O rapaz que morreu com cancro no fígado apareceu-me cinzento e verde, só barriga e esqueleto. É muito doloroso quando se vêem evoluir os corpos da fase saudável para a fase terminal. É assim que se chama: terminal. Não sei se o que ilumina o olhar e que faz com que surjam pessoas dentro de nós, aqueles olhares que nos acusam, não pela doença mas pelo reconhecimento dela, já terminaram ou ainda lá estão.


 


Então o volume do abdómen passou do dele para o meu, de repente era eu que estava esqueleto e barriga, verde, com a certeza de que a morte estava a dar-me a mão. Só que acordei. Acordo sempre em fases definitivas, deixando as decisões inadiáveis para depois.


 


Não sei se os sonhos recarregam baterias ou memórias, ou se as memórias são a energia de que necessitamos para aguentarmos os dias mecanicamente, sem pensar. Quando me apareceu alguém que estava morta, a quem eu perguntei porque tinha encenado a sua morte, a quem eu insultei pela dor, pela solidão, pela inexplicável tecedura de morrer, assim, sem deixar espaço para recorrer, refazer, remodelar, esfumou-se e acordou-me sem respostas.


 


Talvez porque a morte seja uma presença infinita, na mesa estendida, bem identificada, homem, mulher, tantos anos, com idade aparente igual ou superior à real, identificações sem identidades, invólucros de matéria orgânica, aqueles que já adormeceram na finitude das moléculas, que já aceitaram a não existência.


 


É precisamente quando olhamos para as células, para a fotografia que delas fizemos imediatamente após a sua despedida, bem conservadas e pintadas, aqueles pequenos fragmentos de alguém, que obsessivamente tentamos descodificar, é nesse preciso momento que se começa a morrer. Antes disso a morte é silenciosa, esconde-se, é em pequeno número e disfarçada, ceifa um núcleo aqui, um lóbulo acolá, uma pontada, um fraquejo momentâneo, as enzimas aumentadas, um ritmo arrítmico, até esse segundo em que se revela o indesmentível, o relógio que não encrava e que badala incessante e dolentemente.


 


Depois vem o tempo dos outros, dos que choram, dos que explicam, dos que se afastam. Mesmo em vida há o prenuncio do que já não é. E como não temos tempo para pensar, é no sonho que estamos sempre à beira do abismo ou que nos lembramos de como empurrámos alguém, sem nunca conseguirmos agarrá-lo em sonhos, se já não o pudemos amparar em vida.

 

Despojos

 



escultura de Claudia Souto

entranhados


 


Despojados de censura decência vergonha

desarmados do sentimento do outro

desamparados perante as câmaras dos olhos

sem quaisquer gestos encobertos

sem quaisquer sombras de distância

choramos por nós pelas dores do mundo em nós

assumidamente egocêntricos autistas no espanto

descartados da pele de civilização

afundamos na derrota no desespero na desesperança

sem cuidarmos do horror ou da indiferença

reféns da nossa individual ausência.


 


Descarnados descentrados choramos sem véus

pela sóbria necessidade

de sobrevivência.

 

Mundos Diferentes

 


Até 29 de Outubro, na Arte Periférica, Centro Cultural de Belém, uma exposição de Ejti Stih, pintora nascida na Eslovénia, boliviana por casamento, a trabalhar em Santa Cruz de La Sierra.


 


 


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...