27 abril 2009

Códigos

 



(pintura de Jared Klusner: Ghost Ship)


 


Não tenho como medir as fontes

que me rodeiam de água ou de letras

consoantes desalinhadas

num perpétuo sentir diferente.

Faltam-me as réguas que arrumo

lado a lado na memória da solidão

as balanças de precisão onde posso comparar

lenços e mãos livros e mágoas.

Nem tenho como controlar as pequenas moléculas

que se agitam a necessária oxidação de radicais

permanentemente livres.


 


Vou dedilhando pacientemente nos muros

em códigos que desconheço.

 

26 abril 2009

Suite nº 3 para orquestra em Ré Maior - "Air"

 


 



 


J. S. Bach:


Suite nº 3 para orquestra em Ré Maior (BWV 1068) - Air

Anatomopatologistas precisam-se

                


 (schistosomíase; carcinoma ductal invasivo Her-2 +++)


 


Ao contrário do que é habitual, este é um post de alerta e em defesa da corporação dos Anatomopatologistas, a que eu pertenço.


 


Os Anatomopatologistas são médicos especialistas em diagnosticar as nossas doenças, olhando para o microscópio, olhando para os tecidos e as células, tentando ver cada vez mais além, havendo até já formas de olharem para as moléculas.


 


Aos Anatomopatologistas é-lhes pedido que distingam entre uma malformação congénita, uma infecção ou um tumor, entre um tumor benigno e maligno. É-lhes pedido que, a meio de uma operação, decidam entre a malignidade e a benignidade de um tumor, se este está totalmente extirpado ou se é preciso fazer uma cirurgia mais agressiva.


 


Depois, para além do diagnóstico e da avaliação das margens cirúrgicas, têm que fazer o estadiamento do tumor, ou seja, têm que dizer até que ponto o tumor está avançado porque isso condiciona o tipo de tratamentos que serão necessários, para além da perspectiva do tempo e da qualidade de vida do doente.


 


À medida que vão sendo descobertos os mecanismos moleculares de alteração das células e se vão desenvolvendo medicamentos dirigidos a cada uma dessas moléculas, o que significa terapêuticas individualizadas, tendo em conta os diferentes comportamentos dos tumores e as diferentes formas de que eles se revestem, o trabalho dos Anatomopatologistas é também de orientação quanto ao exacto medicamento a administrar.


 


Os Anatomopatologistas estão na base de cerca de 80% de todos os actos médicos, cirúrgicos e terapêuticos dos sistemas de saúde. A eles se exige conhecimentos especializados da sua especialidade, adaptação a tecnologias cada vez mais específicas, permanente interacção com as outras especialidades clínicas e cirúrgicas para a abordagem multidisciplinar dos doentes, estudo e monitorização permanente do seu próprio trabalho, controlo de qualidade, investigação clínico-patológica, formação dos mais novos, documentação iconográfica do seu trabalho, coordenação e participação nas bases de dados do registo oncológico, realização de rastreios de vários tipos de neoplasia (colo do útero, mama, cólon, etc).


 


Os Anatomopatologistas respondem a todos os serviços dos hospitais (públicos e privados), não têm listas de espera e têm objectivos de rapidez e qualidade nos tempos de resposta. Como a sua actividade depende da actividade dos outros serviços os anatomopatologistas parecem invisíveis. Se houver incentivos aos cirurgiões para operarem mais, aos gastrenterologistas para fazerem mais consultas, etc, não se pensa que desse trabalho resultam mais peças cirúrgicas, mais biopsias e mais citologias para os mesmos Anatomopatologistas, que não recebem incentivos nenhuns.


 


Há cada vez menos Anatomopatologistas e os que existem estão cada vez mais envelhecidos e com cada vez maior carga de trabalho. Enquanto não houver uma revisão da forma como se remuneram estes especialistas, a especialidade, cada vez mais necessária até pelo aumento das doenças oncológicas, continuará a ser preterida por outras menos trabalhosas e melhor remuneradas.


 


A medicina de qualidade depende tanto de serviços de cirurgia altamente especializados como de oncologistas, pediatras, obstetras, gastrenterologistas, como de anatomopatologistas em número, motivação e competência suficientes para que possam cumprir um papel central na prestação de cuidados de saúde.


 


É extremamente importante que os decisores políticos e administrativos, a nível central e periférico entendam esta urgência e tudo façam para promover a melhoria das condições de trabalho destes especialistas, e para incentivar a escolha desta especialidade.

 


                      


 (linfoma de Bürkitt; lesão intraepitelial de baixo grau)


 


 


Nota: Report of the Review of NHS, Pathology Services in England, Chaired by Lord Carter of Coles, 2006


 

25 abril 2009

Começo pelo trabalho

 



(pintura de Vieira da Silva)


 


Começo pelo trabalho mas não sei

o que se passa na terra da fraternidade.

Um dia como os outros talvez mais cedo

mas não sei o que murmura a cidade.

Estico a corda até ao peito

estalo o chicote da memória

mas não sei o que se passou na sombra

das noites que já atravessámos.


 


Começo pelo calendário

mas não sei quem mais ordena em mim.

Talvez a liberdade.

 

Trinta e cinco anos antes

 



 


 



 

Trinta e cinco anos depois


 


Há hoje uma tristeza alicerçada na incerteza, na revolta pelo que não se conseguiu com a revolução de 25 de Abril de 1974.


 


Mas hoje podemos revoltar-nos ou sermos felizes, falarmos ou permanecer em silêncio, cantar, gritar, escrever, perguntar, podemos resistir, podemos até tentar ser felizes, sem que ninguém nos cale, sem que ninguém sequer se lembre de nos calar.


 


Somos poucos ou muitos, satisfeitos ou azedos, temos o direito de o ser.


 


A liberdade está no ar que respiramos. Não existia para os nossos pais. Esquecer que a música, os olhares, até as palavras de amor eram vigiadas, é um passo para o apagamento da memória do que é uma ditadura.


 


Vivemos em democracia e liberdade. Vale a pena lembrar que houve um punhado de militares a quem devemos a comemoração do dia de hoje. Independentemente das razões posteriores de desagrado, essa é uma dívida que não se apaga.


 

24 abril 2009

24 de Abril de 1974

 



 


Este é um desafio diferente.


 


Que aconteceu nas nossas vidas a 24 de Abril de 1974? Quem se apercebeu da revolução? Quem foi comprar cigarros e viu soldados? Que precisava de companhia e ouviu a "Grândola, vila morena"? Quem ouviu zunzuns do que se ia passar? Quem dormiu o sono dos justos e acordou sem qualquer suspeita? Quem quis ir toma café e deu com ele fechado?


 


A minha noite foi tranquila e inocente, como todas as outras noites anteriores. Apenas o dia seguinte me despertou para algo de diferente e muito bom.


 


Mas, parafraseando Baptista Bastos: onde estavas no 24 de Abril? 


 


 


Lanço o desafio a quem quiser, obviamente, indigitando desde já:



Nota: Esta noite a Liberdade é o título de um livro de Dominique Lapierre e Larry Collins


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...