(Rodrigo Leão & Cinema Ensemble)
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Hoje temos o Portugal de Rodrigo Leão, melancólico e romântico, em tons esbatidos, aqui e ali com ruídos e gargalhadas, cruzando estradas, em áreas de lentas e mortíferas pás eólicas.
Há 35 anos éramos o Portugal de Carlos Paredes e das suas baladas a preto e branco, caras fechadas e malas às costas, espingardas em mãos rudes por essas terras longínquas de um império a desfazer-se.
Como passámos essa noite, essa longa noite de analfabetismo de joelhos e mãos postas? Como acordámos para a luz, o ruído e a festa? Como transformámos as casas, as vidas, os campos? Como marchámos em direcção aos novos descobrimentos europeus? Como mantivemos a melancolia?
Amanhã já passaram 35 anos, mas continua um frémito de emoção quando se ouve Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Carlos Paredes. Ultrapassamos os verdes anos para o novo retrato musical. Mas ainda a esbater o som e as cores, continuamos de ombros curvados.
Mas caminhamos.
José Eduardo Moniz e Manuela Moura Guedes vão processar José Sócrates. Não entendo o alarido. É um direito que lhes assiste, tal como ao Primeiro-ministro.
A entrevista de ontem foi mais uma prova da fraca capacidade jornalística na entrevista política e da vocação de rolo compressor de Sócrates.
Judite de Sousa não conseguiu disfarçar o azedume contra Sócrates assim como Sócrates tratou Judite de Sousa com um desprezo absoluto. Falou-se da cooperação institucional entre o Presidente da República e o governo durante metade do tempo, em que os entrevistadores, principalmente Judite de Sousa, tentaram demonstrar a Sócrates que os discursos do Presidente visavam as opções governativas. Sócrates aproveitou para enviar um recado ao Presidente e à oposição quando disse que não acreditava que o Presidente se deixava instrumentalizar pela oposição.
A outra metade foi passada a falar do Freeport, tendo mais uma vez Judite de Sousa instado José Sócrates a defender-se da acusação de corrupção, quando Sócrates não é acusado de nada.
José Alberto Carvalho esteve muito apagado. Suspeito que detesta este tipo de entrevistas.
José Sócrates abalroou os jornalistas e só disse o que lhe apeteceu. Ao seu estilo esteve bem, embora a escassa fase em que se falou da crise e em que procurou passar a imagem de que quando reduziu o IVA já a estava a antecipar, tenha estado a reescrever a história, como disse Nicolau Santos.
De Vital Moreira e do debate europeu é que se tem ouvido um silêncio ensurdecedor. Tal como defendi neste post, e após a primeira prestação televisiva do cabeça e lista do PS para as eleições europeias, o PS tem uma séria hipótese de se dar mal com esta escolha. Não só Vital Moreira está a ser empurrado para uma discussão de política interna e não de política europeia, mérito da estratégia do PSD, como está a criar anticorpos e antipatias.
Se as eleições europeias se transformarem nas primárias das legislativas, o PS pode estar em muito maus lençóis.
(pintura de Yves Klein: Untitled Fire Painting)
Retiro camadas às letras que escrevo.
Descarnadas línguas de fogo e neve
desaparecem marcadas
como as memórias que queremos apagar.
Poema de José Agostinho Baptista
Foto de Jack Robinson:
Two Nuns Walking on Canal Street
Quase não respira,
entre os lençóis azuis, imóveis,
que as irmãs da bondade estendem, sem
remorso nem fadiga,
para o seu corpo deitado.
Alguém fechou as cortinas.
A penumbra oculta as formas imprecisas dos
ombros nus.
O peito levanta-se e cai como se os
inesperados ventos da ira percorressem os
quatro cantos da casa.
Ouve-se, ao longe, um sino,
e os cães ladram.
Ninguém sabe que está aqui, que mal respira,
entre os lençóis azuis,
imóveis,
que as irmãs estenderam,
ao verem os clarões no deserto,
o regresso dos exércitos vencidos.
Talvez pense nos atalhos da montanha que
pela noite descia, até ao vale do assombro,
rodeado de lanternas que dançavam.
Via essas mulheres de longas vestes,
em círculo,
nomeando o inominável,
e não tinha medo.
Quando chove,
ele fecha os olhos que perderam a cor da sua
infância de melros e roseiras bravas.
Agora,
tudo é cego,
tudo é silêncio.
Tenho estado muito desatenta a certos gestos de apreço que algumas pessoas me têm mostrado, o que é imperdoável. Não tenho qualquer desculpa.
Mas mesmo atrasados, e com o pedido de compreensão pelos citados bloguers, vou fazer seguir as correntes:
O primeiro para uma primeiríssima preferência minha, pela pessoa que vamos tendo o privilégio de ler.
O segundo pela gentileza de me ter dado este presente, a quem passei a visitar com frequência.
Sendo assim, vou já reencaminhar estes prémios a quem de direito, publicando desde já as regras para continuar a cadeia:
E o nomeados são:
Não há pragas para quem não seguir a corrente!
Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...