21 março 2008

O poema


 


O poema vai e vem. E se demora


não quer dizer que seja demorado


mas que tem como tudo a sua hora


e como tudo é sempre inesperado.


 


Por muito que se espere não se espera.


Por mais que se construa é acaso e sorte.


Às vezes quando vem já foi ou era.


Porque assim é a vida. E assim a morte.


 


Por isso mesmo quando distraído


ninguém como o poeta é tão atento.


Ele sabe que de súbito há um sentido.


Vem como o vento. E passa como o vento.


 


(poema de Manuel Alegre - Doze Naus)

20 março 2008

Obtusidades

Ao contrário do que Pacheco Pereira afirmou na Quadratura do Círculo, houve manipulação da informação no prelúdio da invasão do Iraque. Scott Ritter e Hans Blix - ambos chefes dos inspectores nomeados pela ONU para a pesquisa de armas de destruição maciça no Iraque, não estavam certos da sua existência.


 


Em Portugal poucos foram os que, na altura, se ergueram contra a guerra. Mário Soares e Freitas do Amaral foram dos únicos que sempre a condenaram.


 


Mas depois de 5 anos continuar a dizer -se que havia razões para a invasão e que não havia provas objectivas da existência de mentiras da parte da administração Bush, parece-me obtusidade a mais.


 


Adenda: Hans Blix neste artigo diz tudo infinitamente melhor do que eu (tirado daqui).

Escolas

O vídeo que tem passado no YouTube e que já foi retirado, mostra uma situação absolutamente inqualificável. Desde a agressão da aluna à professora, à assistência alarve do resto dos colegas, aos risos, à filmagem da cena, tudo é deprimente e chocante.

Mas mais extraordinário é que ainda há pessoas que conseguem ver neste vídeo (...) uma aluna mal educada. Uma adolescente incrivelmente insolente (...) a professora (...) sem preparação para cumprir as suas funções. (...) É por não estar à altura das suas funções (...) O que temos aqui é um caso exemplar de falta de vocação. (...).

E consegue, a propósito do vídeo, dizer ainda esta frase lapidar: A falta de respeito pelos professores começa nos pais e acaba na ministra.

Ou seja, para Daniel de Oliveira o comportamento destes adolescentes insolentes, que estão a testar a autoridade, é perfeitamente compreensível, pois estão frente a uma professora que não serve.

Pois eu acho que tipo de desculpabilização do que não é desculpável é um dos grandes responsáveis do incrível egocentrismo, crueldade e desumanidade de muitas das nossas crianças e adolescentes.

Virar à esquerda (2)

Declaração de interesses: trabalho no Hospital Fernando Fonseca desde Julho de 2007.


 


Fui, desde o início, bastante céptica, para não dizer totalmente céptica, quanto a este tipo de parcerias entre público e privado. Não me parece que a gestão pública esteja condenada a ser má nem que a gestão privada esteja condenada a ser boa. No entanto sempre fui defensora de um SNS público, universal e gratuito, vendo com desagrado a mistura entre estes dois mundos  que, na minha óptica, devem ser complementares e concorrenciais, cada um na sua esfera.


 


No entanto a experiência recente ensinou-me que a realidade ultrapassa, de facto, a ficção. A relação entre os órgãos de gestão do Hospital Fernando Fonseca e os seus profissionais é de respeito mútuo, entre pessoas que se responsabilizam e que se empenham no seu trabalho. Há projectos que se discutem e aprovam e que são para cumprir, assumem-se as pesadas tarefas assistenciais com sentido de verdadeiro serviço público e avaliam-se os resultados e os desempenhos de todos.


 


Não há motivo para que a gestão pública seja diferente. Mas na minha reduzida possibilidade de comparação é diferente, e não para melhor.


 


Por isso, volto à questão do meu post anterior: quais as razões que levaram Sócrates a mudar radicalmente de política de saúde, neste particular aspecto? Como estão os indicadores de produção, de desempenho, de qualidade de atendimento do Hospital Fernando Fonseca? Como estão as contas do Hospital Fernando Fonseca? Porquê só ao fim de 3 anos de governo esta conclusão?


 


Infelizmente, esta viragem afigura-se mais como uma tentativa atabalhoada de responder à contestação da ala esquerda do PS e ao BE, do que uma escolha política e ideológica ditada pelo acautelar dos bens públicos e pelo bem-estar dos cidadãos.

19 março 2008

Virar à esquerda (1)

Sócrates está a virar à esquerda. Por convicção ou por conveniência não se sabe. Mas este pacote de medidas anunciadas para a saúde ao lado de uma Ministra discreta e silenciosa, desde a baixa das taxas moderadoras para os idosos até, e principalmente, para a novidade da cessação da administração privada do Hospital Amadora Sintra (Fernando Fonseca), é uma clara guinada na política do governo e de Correia de Campos.


 


As parcerias público privadas vão continuar, pelo vistos com um novo figurino: construção privada e gestão pública. É importante que saibamos as razões que levaram a que, após 3 anos de governação socialista, se tenha chegado a esta conclusão. Nomeadamente aquilo que o estado e os utentes ganham com esta mudança de política.


 


Entretanto continuamos a ter títulos de jornais que desinformam os cidadãos, tal como aqui tão bem se expõe. Convém que não esqueçamos que o estado somos todos nós.

18 março 2008

Públicas virtudes

Onde estará o sentido do que é privado e público? Que interessa aos cidadãos se o governador ressona, tem amantes ou come de boca aberta? Que interessam à cidade de Nova Iorque e ao mundo os pecados da carne do governador?


 


O que nos interessa a nós se a mãe de Sócrates lhe faz mimos e se ele gosta de espelhos estapafúrdios ? Ou que Luís Filipe Menezes engraxa os sapatos?


 


Ninguém se apercebe da absoluta e perigosa voracidade das inutilidades?

Temos


 


Temos que correr, partir, esperar. Temos pressa de estar sem saber aonde, sem saber porquê.


 


Temos que olhar e pedir. Não te vi hoje e procuro quase sem pensar, a tua sombra, o teu perfume, o teu lugar.


 


Temos que continuar.


 


Temos que.


 


(pintura de Jo Sedlack : empty chair )

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...