13 agosto 2007

Compreende-se

Compreende-se. Joe Berardo é muito mais cultural, muito mais museológico, muito mais mediático. Miguel Torga era um parolo, tinha sotaque, não tinha jeito para a socialização.

É claro que, estando à mão para discursos patrióticos dos nossos socialistas reciclados, era muito enternecedor, no tempo em que a palavra povo, os gestos do povo, a cultura do povo, o saber do povo era importante, ou pelo menos era importante dizer povo, muitas vezes, com a voz directa e embargada dos ecos montanhosos.

Nestes tempos de contemporaneidade, caviar, casaco solto e camisa preta, cabeças escanhoadas e perfume de dinheiro, notas esvoaçantes, contratos chorudos, ambições televisivas de etéreos poderes, a cultura é o Joe Berardo.

12 agosto 2007

Comunicado

Na frente ocidental nada de novo.
O povo
continua a resistir.
Sem ninguém que lhe valha,
geme e trabalha
até cair.


(poema de Miguel Torga; pintura de Ted Stanuga)

Essência

Como a terra dura, como os penedos lisos, sólidos, inamovíveis, como o amor pela pátria, como o silêncio altivo e humilde, como o saber antigo e eterno, como a doçura das uvas e o afago da chuva, como o horizonte e o querer, como a tortura da solidão adiada, como a natureza que nasce e que morre, ciclicamente, esforçadamente, gulosamente, como tudo o que nos faz seres humanos, Miguel Torga é a essência de todos nós.

Identidade

Matei a lua e o luar difuso
quero os versos de ferro e de cimento
e em vez de rimas, uso
as consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
a todo coração que se debate aflito
e luta como sabe e como pode:
dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
têm maior duração,
gasto as horas e os dias
a endurecer a forma da emoção.


(poema de Miguel Torga; fotografia de penedos)

11 agosto 2007

O último metro

Revi, há pouco tempo, O último metro (Le Dernier Métro) de François Truffaut, um lindíssimo filme sobre a representação, a dos actores numa peça de teatro, a das pessoas na sua vida, sobre o jogo de enganos com que lidamos para sobreviver, sobre os limites a que cada um de nós pode chegar.

Os actores são magníficos, o ambiente envolvente, a realidade da ocupação, do medo, da vida quotidiana que continua, dos pequenos truques e dos pequenos actos heróicos. Do amor e da paixão, da solidão de quem escolhe um caminho.

É um filme de almas humanas.

A linha divisória

É muito mais fácil saber o que está certo ou errado muitos anos após os acontecimentos que, à data, resultaram de circunstâncias e de decisões que não previram o alcance e os precedentes criados.

A ocupação de França pelos alemães, na II Guerra Mundial, é um dos episódios históricos em que, tal como nos lembra A. Teixeira, poucos se podem gabar de ter tido uma posição firme de resistência, desde sempre.

A História não se compadece com visões parciais ou moralistas, conclusões retiradas posteriormente e, habitualmente, escrita pelos vencedores.

A própria história do anti-semitismo e do problema judaico, que não era apenas um problema da Alemanha, teve, desde o início, a colaboração de líderes de associações judaicas, que aprovaram e apoiaram a deportação em massa de judeus, pensando que essa seria uma boa solução.

É sempre muito mais difícil perceber qual a linha divisória entre a dignidade e a ignomínia, entre o ceder e o render-se. Mas mais tarde ou mais cedo as sombras dos nossos actos projectar-se-ão sobre o que tentámos construir, colectivamente, como sociedade. E as tragédias da humanidade estão constantemente a um passo de acontecer, e acontecem, a todo o instante. E ninguém é inocente.

Tabloidização normalizada

Hoje, como de costume, antes de tomar o meu café com jornais, fui comprar os ditos. Os cafés do bairro resolveram fechar todos ao mesmo tempo, portanto recorri a uma espécie de centro comercial, onde há muitos cafés e uma loja que vende jornais, revistas e tabaco (vão escasseando).

Mecanicamente, peguei nos jornais que habitualmente compro, paguei e, quando me sentei preparando-me para saborear o DN, defrontei-me com o logótipo do Sol. Fiquei embasbacada, irritada e humilhada com este erro de confusão jornaleira.

Depois de suspirar silenciosamente, entristecida com a minha galopante senilidade, folheei o Sol, com alguma curiosidade, pois quando ele saiu achei-o péssimo.

Não melhorei a minha opinião sobre o Sol. O pior é que, lendo o DN online, fiquei a perceber uma das causas da minha confusão: é que os jornais estão cada vez mais iguais, desde o formato, às cores, ao estilo, aos títulos, às notícias.

Estou com senilidade galopante, mas os jornais estão de uma futilidade esmagadora, inúteis, entediantes e totalmente normalizados.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...