12 agosto 2007

Identidade

Matei a lua e o luar difuso
quero os versos de ferro e de cimento
e em vez de rimas, uso
as consonâncias que há no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
a todo coração que se debate aflito
e luta como sabe e como pode:
dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
têm maior duração,
gasto as horas e os dias
a endurecer a forma da emoção.


(poema de Miguel Torga; fotografia de penedos)

11 agosto 2007

O último metro

Revi, há pouco tempo, O último metro (Le Dernier Métro) de François Truffaut, um lindíssimo filme sobre a representação, a dos actores numa peça de teatro, a das pessoas na sua vida, sobre o jogo de enganos com que lidamos para sobreviver, sobre os limites a que cada um de nós pode chegar.

Os actores são magníficos, o ambiente envolvente, a realidade da ocupação, do medo, da vida quotidiana que continua, dos pequenos truques e dos pequenos actos heróicos. Do amor e da paixão, da solidão de quem escolhe um caminho.

É um filme de almas humanas.

A linha divisória

É muito mais fácil saber o que está certo ou errado muitos anos após os acontecimentos que, à data, resultaram de circunstâncias e de decisões que não previram o alcance e os precedentes criados.

A ocupação de França pelos alemães, na II Guerra Mundial, é um dos episódios históricos em que, tal como nos lembra A. Teixeira, poucos se podem gabar de ter tido uma posição firme de resistência, desde sempre.

A História não se compadece com visões parciais ou moralistas, conclusões retiradas posteriormente e, habitualmente, escrita pelos vencedores.

A própria história do anti-semitismo e do problema judaico, que não era apenas um problema da Alemanha, teve, desde o início, a colaboração de líderes de associações judaicas, que aprovaram e apoiaram a deportação em massa de judeus, pensando que essa seria uma boa solução.

É sempre muito mais difícil perceber qual a linha divisória entre a dignidade e a ignomínia, entre o ceder e o render-se. Mas mais tarde ou mais cedo as sombras dos nossos actos projectar-se-ão sobre o que tentámos construir, colectivamente, como sociedade. E as tragédias da humanidade estão constantemente a um passo de acontecer, e acontecem, a todo o instante. E ninguém é inocente.

Tabloidização normalizada

Hoje, como de costume, antes de tomar o meu café com jornais, fui comprar os ditos. Os cafés do bairro resolveram fechar todos ao mesmo tempo, portanto recorri a uma espécie de centro comercial, onde há muitos cafés e uma loja que vende jornais, revistas e tabaco (vão escasseando).

Mecanicamente, peguei nos jornais que habitualmente compro, paguei e, quando me sentei preparando-me para saborear o DN, defrontei-me com o logótipo do Sol. Fiquei embasbacada, irritada e humilhada com este erro de confusão jornaleira.

Depois de suspirar silenciosamente, entristecida com a minha galopante senilidade, folheei o Sol, com alguma curiosidade, pois quando ele saiu achei-o péssimo.

Não melhorei a minha opinião sobre o Sol. O pior é que, lendo o DN online, fiquei a perceber uma das causas da minha confusão: é que os jornais estão cada vez mais iguais, desde o formato, às cores, ao estilo, aos títulos, às notícias.

Estou com senilidade galopante, mas os jornais estão de uma futilidade esmagadora, inúteis, entediantes e totalmente normalizados.

Gestão a menos

Mais uma vez, para entrar em vigor a 1 de Agosto, é publicado um decreto-lei que ninguém percebe muito bem qual a ideia nobre que o gerou. O objectivo é claro: reduzir custos. Mas à custa de quê, com que planeamento, negando autonomia aos Concelhos de Administração dos hospitais, empresarializados ou não, à custa de que peregrina ideia de poupança ou de regularização o sector?

Não se entende o enquadramento, que gestão de recursos humanos se pretende, que filosofia de serviços, a que cuidados de saúde estão a guiar este tipo de medidas avulsas e sub-reptícias, para começarem a funcionar na época em que a falta ou a má gestão do pessoal de saúde mais se faz sentir.

Correia de Campos cada vez se parece mais com um elefante numa loja de cristais.

A propósito, ler também Autonomia, onde ficas? (Saúde SA) e manta de retalhos (que raio de saúde a nossa).

10 agosto 2007

Romaria

É de sonho e de pó
O destino de um só
Feito eu perdido em pensamentos
Sobre meu cavalo
É de laço e de nó
De jibeira o jiló
Dessa vida
Cumprida a só

Sou caipira, pirapora, Nossa
Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

O meu pai foi peão
Minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
À custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte, eu não sei, nunca vi

Me disseram, porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir de
Romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar

(autor: Renato Teixeira; intérprete: Elis Regina)

Casa no campo

Conheci esta canção através da voz de Elis Regina. Inesquecível, embriagante, solene.

Para uma tarde de Verão (dedicada a uma amiga muito querida).



Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais

Eu quero carneiros e cabras
Pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal

Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sape
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros e nada mais


(autores: Zé Rodrix – Tavito, 1972)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...