23 fevereiro 2007

Inutilidade

Ontem discutia-se sobre o significado da poesia, sobre o ser poeta, sobre o artifício da linguagem, a transfiguração da palavra, sobre a mensagem poética.

Só, perante a minha inutilidade como definidora ou catalogadora de actividade tão íntima, tão exigente, tão manipuladora, em frente das palavras que brotam não sei se das vísceras, se da pele, se de algo mais transparente e sinuoso que tenha nome, não me sinto poeta, não me sinto artística, não me sinto mais do que a pobre e miserável tentativa de me olhar, de arrancar de mim esse desacerto, esse desconcerto, esse desassossego que me angustia.

Serei um poeta? Ou serei apenas infinitas possibilidades de mim, fraccionadas umas, expostas outras, hipersensíveis, que se entrechocam e se moldam sem que o eu que me analisa o compreenda?

Serei um poeta? Ou serei apenas o conjunto de emoções pouco atractivas, violentas, repressivas, que se enfeitam e transformam em vazio e nada?


(Ira-Ono: masks)

"Que a voz não te esmoreça/vamos lutar"

Foi em Cabo-Verde, em 1973 que, pela primeira vez, ouvi Zeca Afonso. Não fazia ideia de quem era, o que representava, o que era a política ou qual era o regime em que vivíamos. Não sabia o que era a censura.

Dos problemas de que falavam poucos e das dores de muitos, só me apercebia a 10 de Junho, dia de Portugal, quando o Presidente Américo Tomás condecorava garotos, viúvas, velhos pais e velhas mães, rapazes e homens estropiados, alguns com as mangas dos blusões e as pernas das calças vazias, outros sem olhos, outros conduzidos em cadeiras de rodas, com aquela voz monocórdica lembrando aos portugueses que eles tudo tinham dado pela pátria. Eram momentos de silêncio arrepiante, em que os olhos da minha mãe se marejavam de lágrimas.

Outras vezes em que a palavra pátria nos estremecia era por alturas do Natal, no desfile de rapazes que enviavam, pela televisão, aos seus "entes queridos, pai, mãe, minha adorada mulher e minha filha, um Feliz Natal e um ano cheio de prosperidades. Adeus, até ao meu regresso". Entes queridos que, provavelmente, nunca ouviram esses postais, enredados nas suas vidas feitas de ausências e suspiros, pela inevitabilidade do tributo a prestar à mãe pátria.

Mas em Cabo-Verde, local que o meu pai nos tinha mostrado, numa tarde de Verão, abrindo o Atlas e apontando as ilhas no meio do Atlântico: “é para aqui que vamos, por 2 anos”, totalmente desconhecido, em que aterrámos virgens de mornas e coladeiras, de pão de custarda e de cachupa, bebendo água de um dessalinizador, regalámo-nos de vida boa e de liberdade, adolescentes que éramos entre os 10 e os 15 anos.

A pracinha do Mindelo, a Baía das Gatas, o Monte Cara, os pátios das casas, os terrenos envolventes, as noites cálidas em que os grupos se juntavam a conversar e a participar em sessões de espiritismo, que acabavam sempre à gargalhada, a vida ao ar livre, o crioulo, o liceu, os colegas de várias cores, as recepções nas varandas das casas, as modistas, a má língua, das capitoas, majoras, comandantas e almirantas, o professor de canto coral, as aberturas solenes dos anos lectivos, tudo era uma descoberta, tudo era bom e eterno, mesmo sabendo que estávamos a prazo.

Não havia televisão, mas não fazia falta. Tínhamos as rádio-novelas e os gira-discos, um móvel de pés cónicos, com tampa superior, onde se colocavam os discos que os Alferes milicianos ou as suas esposas traziam da metrópole.

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou

E foi este o encanto que nunca se quebrou. Ainda hoje, depois de tantos anos, ainda ouço, como se ainda estivesse sentada no chão fresco de tijoleira, com o cão a tentar acomodar-se debaixo de uma mesa:

Maio maduro Maio
Quem te pintou
Quem te quebrou o encanto
Nunca te amou
Raiava o Sol já no Sul
E uma falua vinha
Lá de Istambul

Sempre depois da sesta
Chamando as flores
Era o dia da festa
Maio de amores
Era o dia de cantar
E uma falua andava
Ao longe a varar

Maio com meu amigo
Quem dera já
Sempre depois do trigo
Se cantará
Qu'importa a fúria do mar
Que a voz não te esmoreça
Vamos lutar

Numa rua comprida
El-rei pastor
Vende o soro da vida
Que mata a dor
Venham ver, Maio nasceu
Que a voz não te esmoreça
A turba rompeu

Era o canto de Maio e da esperança. Estávamos todos na Primavera. Após estas estações invernosas apetece cantar com o Zeca Afonso: “Que a voz não te esmoreça/Vamos lutar”. Sempre.

22 fevereiro 2007

Suspendamos

É claro! É preciso suspender a reorganização da rede hospitalar, como era preciso suspender o fecho das maternidades e o fecho das escolas com menos de 10 crianças!

Ao fim de 2 anos, o governo é acusado de apenas ter afrontado algumas classes profissionais, ter tomado algumas medidas superficiais, sem reformas estruturais. No que diz respeito à reorganização da rede de urgências que, no entender da oposição, chefiada pelo PCP e secundada pelo PSD, não é uma reforma estrutural, esta deve ser suspensa.

Aliás, a única coisa que a oposição tem para oferecer é a suspensão. Já vem de longe, com a suspensão da co-incineração, e agora com a suspensão das responsabilidades governativas na Câmara de Lisboa (em que parece que estão todos de acordo em manter a Câmara em suspensão!). O PCP quer que haja explicações técnicas que justifiquem esta reorganização. Devem querer que se nomeie outra comissão científica, tal como já aconteceu com a co-incineração. Se as comissões científicas não dizem o que a oposição quer, nomeia-se outra!

Este país é exímio em estudos, comissões, diagnósticos e considerações. Por isso é que, desde há tantos anos, está suspenso!

21 fevereiro 2007

Graça

Não saberia dizer a hora
em que me desfizera de tudo o que não era teu,

quando cada coisa se deixou cobrir
por tua presença sem margens

e deixou de haver um lado
que fosse fora de ti.

(poema de Eucanaã Ferraz; recorte de Gémeo Luís)

19 fevereiro 2007

É a guerra!

Alberto João Jardim tornou, infelizmente, a mostrar o cimento carnavalesco de que é feito.

Em cerca de 15 minutos, com uma solenidade de palhaço em desgraça, insultou os órgãos de soberania nacionais, por certo esquecendo-se que ele também é português, os socialistas madeirenses, os seus companheiros de partido, visto que justificou a sua recandidatura por palavras em que enxovalhava todos os outros potenciais candidatos do seu próprio partido. Clamou contra a quebra de solidariedade do país, esquecendo-se da falta de solidariedade que ele demonstrou sempre ao gastar mais do que podia.

Enfim, fez muito barulho, grande estardalhaço, mas não explicou como, depois de legitimado pelo voto dos madeirenses e dos porto-santenses, vai combater o governo central.

Eu aposto na declaração simultânea de secessão de guerra, entre o Soberano Reino da Madeira e Porto Santo contra a República Portuguesa.

Que tristeza!

A urgência da informação

Como era previsível está a repetir-se o que se passou com o fecho das maternidades: a inabilidade política de Correia de Campos, a chantagem dos autarcas, a manipulação das populações, pegando num dos assuntos mais sensíveis e importantes para a generalidade das pessoas.

As manifestações das populações e dos autarcas fazem parte, manifestamente, da luta política dentro e fora do PS. E tenho poucas dúvidas da existência de manipulação populista e demagógica da população, receosa e amedrontada por aquilo que pensa ser um serviço de urgência eficiente e de qualidade.

Vendo o problema pelo aspecto da redistribuição dos serviços às populações, talvez ajudasse a reorganização da divisão administrativa do país, acabando com freguesias e concelhos nuns sítios, aumentando freguesias e concelhos noutros sítios, aproveitando para alterar a distribuição do número de autarcas por esse país fora. Talvez a manutenção do status quo seja uma motivação adicional para protestar. E poder-se-ia aproveitar, quanto antes, para renovar os cadernos eleitorais com um novo recenseamento, por exemplo.

Por muita razão que tenha, Correia de Campos, mais uma vez, está a tratar do assunto com os pés. As pessoas têm razão para se preocupar. As pessoas não sabem, nem têm que saber, que a qualidade e a extensão de serviços que os SAP prestam, sem possibilidades técnicas mínimas e sem pessoal mínimo de atendimento, é um engano e um desperdício de recursos humanos, técnicos e financeiros.

É ao ministro responsável, às comissões por ele nomeadas e às organizações das diversas classes profissionais, que cabe o esclarecimento das populações com informação detalhada e serena, as vezes que forem necessárias.

18 fevereiro 2007

Pra que somar se a gente pode dividir?

Se Vinicius existisse hoje, se calhar não podia existir. Vinicius era o excesso, a necessidade de viver, de amar, de paixão, do pranto, do canto, do carinho, da mulher, da dor, da bebida, do cigarro, de rir, de procurar, de esbanjar, de querer.

Vinicius era tudo o que hoje não se pode ser, porque agora a nossa imaginação e criatividade têm objectivos, deveres e haveres, contabilidade, água de rosas e desodorizante, dentes brilhantes e preservativos, viagra e lençóis de seda, limites de velocidade, limites de desejos e de prazer, limites para o sofrimento, limites.

O filme Vinicius, de Miguel Faria Júnior, transpira ternura e respeito, abraços e lágrimas que crescem, música, divina e tão terrena, transpira negros e ritmos que nos fazem dançar por dentro.

Para guardar do lado esquerdo do peito.

Como dizia o poeta

Quem já passou
Por esta vida e não viveu
Pode ser mais, mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá
Pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou
Pra quem sofreu, ai

Quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada, não

Não há mal pior
Do que a descrença
Mesmo o amor que não compensa
É melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir?
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração
Esse não vai ter perdão

(Vinicius de Moraes / Toquinho)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...