Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos,
melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Outra das ideias que me ficou da conversa entre Mário Crespo e Maria José Nogueira Pinto foi a necessidade de cortar nos pontos chaves dos ciclos viciosos.
De facto, este nosso país é, ele próprio, um ciclo vicioso. A crise, o défice, o descontentamento, a falta de dinheiro, o endividamento, o desemprego, a miséria, a pobreza, a tristeza, a crise. O problema é que só temos pensamentos e comportamentos ritualizados e repetitivos em tudo o que nos conduz a sentimentos de inferioridade. Raros são os exemplos de ciclos viciosos de alegria, de valorização pessoal, de persecução e concretização de objectivos.
Enredamos os pensamentos à volta da noção de dificuldade, de obstáculos intransponíveis, de fracasso. Se por um momento ousarmos planear, orientar, organizar, construir, inaugurar, usufruir e mostrar felicidade, podemos quebrar esse ciclo.
Estive a ver, na SIC notícias, uma conversa entre Mário Crespo e Maria José Nogueira Pinto, sobre uma proposta apresentada por ela para a requalificação da Baixa-Chiado.
Gostei de ter ouvido a necessidade de requalificação do centro histórico de Lisboa, no que diz respeito às áreas comercial e habitacional, à devolução da cidade às pessoas. Lisboa está a cair, deserta e perigosa, com escassos redutos escondidos, quase num limbo como a ilha de Avalon, em condomínios luxuosos. Depois há algumas zonas buliçosas, como a do Bairro Alto, que está linda e animada.
Na estrada marginal, de Lisboa a Cascais, multiplicam-se as casas praticamente arruinadas, antigos palácios quase acastelados, dignos de príncipes e princesas encantados quando, em criança, me dirigia à praia de Carcavelos. Uns a seguir aos outros, terrenos onde cresce a tristeza e o abandono, vidros partidos, telhas caídas e cores desbotadas, com manchas velhas e descuidadas.
No interior, as terras foram rejeitadas, as aldeias estão despovoadas, restando as pedras das paredes nas casas e as portas meio fechadas, rangendo com saudades de moradores. Nas cidades satélites proliferam gigantes gaiolas de cimento, com cores impossíveis de descrever, arquitecturas com esquinas criadoras e originais, roupas estendidas nas janelas e automóveis em cima de passeios estreitos e enganosos. Pizzarias, lavandarias e pequenos centros comerciais, eles próprios já meio abandonados, por outros maiores, com mais viço e grandeza, com um ciclo de vida curto e miserável.
Não sei como é possível repovoar os centros históricos das cidades, os centros históricos das aldeias, os centros, enfim. Deve ser tão difícil e complicado como recentrar as nossas próprias prioridades. Dentro de nós, também temos uma certa tendência centrífuga, refugiando-nos nos arredores da vida.
A pena de morte é das mais cruéis contradições que existem nas nossas sociedades. A punição é exactamente a mesma acção que causou a punição. É um triste ciclo vicioso.
Seja o que for que seja quem for tenha feito, a sociedade organizada não pode cometer o mesmo crime do acusado.
Gosto de dias de chuva, em que a música nos embala, as notas dedilhadas nas guitarras, ou as teclas marteladas no piano, nos devolvem alguma esperança, alguma segurança, alguma certeza de que a chuva limpa o ar, empapa a terra, é indispensável à vida.
Gosto de dias de névoa, em que a música nos guia como um farol longínquo, silvando, que ritmadamente nos devolve a luz, o rumo.
Nestes dias de desalento, as janelas meio abertas são a fronteira entre a essência e o descartável. O silêncio adocicado pela música fortalece-me. Sinto o manto acolhedor da casa, grande e calorosa pela tua presença, pelo ritmo dos teus gestos, pela solidez do teu amor.
[Michel Camilo (piano), Tomatito (guitarra flamenca), Juan Luís Guerra (artista convidado) – Spain again (2006)]
Ainda não percebi muito bem se a indignação pela publicidade positiva paga, presumivelmente pelo governo, se deve a esse facto, ao panegírico à figura de Manuel Pinho, ou à redução do papel de Cavaco Silva a um mero observador silencioso…
Há muitos anos, em pleno Processo Revolucionário Em Curso (PREC), no famoso ano de 1975, todos os dias fervilhavam informações, sussurradas meio a medo, meio a gozo, meio a sério, no núcleo mais importante de coscuvilhice lá do bairro, o mini mercado da Dona C...
Por entre bocas ociosas, assustadas, mentirosas, circulavam todos os dias ameaças de golpes militares ou civis, ajustes de contas, terríveis massacres, faltas de comida, conselhos de açambarcamento, difamações, explorações politiqueiras de frases ou intenções que se adivinhavam nas entrelinhas, sempre sem rosto nem ponta de meada que se desenredasse.
Com o advento da democracia todos queriam participar e, de facto, participavam, numa corrente de boatos que os escassos responsáveis políticos moderados, ou simplesmente sensatos, queriam estancar com a frase: o boato é a arma da reacção.
Esta recente fase bloguística lembra-me um pouco essa época. Na rede tudo se transmite a grande velocidade, sem necessitar de nome ou de rosto. Aqui pode insinuar-se, insultar-se, sugerir-se, sempre com saltos e piruetas argumentativas, sem cuidar de imaginar os contornos ou as consequências resultantes e, principalmente, de responder por eles.
Portugal anónimo, servil, humilde e de chapéu na mão, dá largas à frustração usando a sua mais hábil e antiga arma vingativa: a maledicência.