01 outubro 2006

Peregrinação


Erramos pelo poema, peregrinos
em busca das palavras que se escapam
ao silêncio da voz aprisionada.

Erramos pelo mundo, penitentes
por pecados que nos dedos viajantes
nos embalam como luz enfeitiçada.

Queremos e corremos,
sem dor ou método, vivemos
do amor com que matamos e morremos.


Outro diálogo (com a Ana Luísa) - irrepetível e obrigatório!
(pellegrini)

Intervenção e cidadania

Estamos, de facto, perante encruzilhadas, nós todos como sociedade, cada um de nós como indivíduo, parte da mesma sociedade.

As mudanças que decorreram nas últimas décadas, após a queda do muro de Berlim, o fim da guerra fria e a chamada globalização, com o aumento do consumismo, a glória do mercado, o apelo aos valores do individualismo, competitividade, sucesso a todo o custo, concentração de capital, de serviços, de pessoas, levanta um vendaval de problemas que nos levam a desequilibrar as nossas próprias convicções.

A nova esquerda, a refundação da esquerda, os novos ideais socialistas, a intervenção e cidadania. Palavras e expressões grandiloquentes mas, muitas vezes, vazias de significado. Começa porque não sabemos qual é a noção de cidadania que cada um de nós aceita e, principalmente, pratica. Porque cidadania não é só escrever num blogue, ler jornais e dizer mal do governo à mesa de café, queixarmo-nos do aumento de impostos ou da morosidade da justiça.

Individualmente a cidadania também se exprime na noção de que a nossa atitude cívica é essencial para a coesão social. Ter do trabalho a noção de serviço público, do cumprimento das leis a noção de segurança e equilíbrio, do pagamento de impostos a noção de equidade, da distribuição dos recursos a noção de solidariedade.

A voragem das mudanças, a propaganda e a miragem do consumo têm tentado convencer-nos que a ordem económica e social têm prioridades inversas, que o bem estar e a realização individual são directamente proporcionais ao tamanho do carro, ao número de televisores e telemóveis, à efémera glória do espectáculo mediático.

Sinais de constrangimento e medo assolam a Europa. O envelhecimento populacional, a extrema pobreza numa grande parte do mundo, a imigração crescente e a falta de soluções para a integração dos imigrantes, o desemprego, o crescer dos fundamentalismos religiosos e o uso desses fundamentalismos com objectivos políticos e belicistas, assim como a capitulação perante os extremistas, podem levar-nos a descrer de valores que sempre considerámos universais, convictos que assim podemos travar o avanço para novas formas de totalitarismo.

Refundar, em cada um dos cidadãos, a ideia de pertença, a ideia de que cada pessoa é um elo indispensável à comunidade e a uma vida mais feliz, repensar a noção de cidadania no respeito pela sociedade – talvez seja essa a função mais importante da nova esquerda.

30 setembro 2006

Conversa outonal


Tempo de compotas
de castanhas e chuva.

Cheiro de mosto
de saudades e choro.


Tempo de sussurros
de arrepios e malgas.

Sabor de lágrimas
de amor e segredos.

Tempo de ventania
de mãos e sementes.

Som de tempestades
de corpos e lixo.

Tempo de permeio
de folhas e peregrinos.

Impressão de enganos
de ilusões e rodeio.


À conversa com Ana Luísa

(pintura de Raphael Collazo: friends and relatives)

Os Laços


Mesmo que tudo me faltasse
nunca me faltaria o teu braço
que me apoiasse,
o teu corpo que me vestisse.

Mesmo que tudo me sobrasse
nunca me sobraria o teu espaço
onde poisasse
o resto da alma que resistisse.


(Pintura de Gustav Klimt: o beijo)

29 setembro 2006

O puro e o impuro

O primeiro som devora-o a noite, mas fica para sempre
- por ter sido a primeira das coisas comuns. Aquele
minuto, nunca o repetes. Vagamente o lembrarás mais tarde,
porque é frequente falar-se do mistério da vida. Já o esqueceste

muitas vezes choveu sobre ele e sobre nós, os relâmpagos
não bastam para que o mundo o mostre. Chamas-lhe revelação,
ao gesto que abre os braços, o primeiro olhar que se ama
lentamente, nele cabe o silêncio anterior, as coisas que estremecem

só de terem um nome, uma sombra, um modo de adormecer.
A partir daí, do primeiro som, tudo recomeça enquanto o dia
se não curva; repousando, agora, ela perfuma a vida. Haverá outra

maneira de descrever todas as coisas que nascem assim – mas
esta basta, é a mais simples. A mais amada das coisas cede
o seu lugar por esse minuto, esse som, o gesto que abre os braços.


(poema de Francisco José Viegas; escultura de Radu Aftenie: "Father with Child")

28 setembro 2006

Trapalhadas pouco saudáveis

Ninguém se entende sobre o preço dos medicamentos, uns dizem que desceu outros que subiu. O Bastonário da Ordem dos Farmacêuticos anda MUUUIIITOOO preocupado com a falta de empenhamento ministerial nos genéricos. Parece que, finalmente, as farmácias vão poder funcionar em hospitais 24 em 24 horas. Aleluia, aleluia.

Por outro lado, as taxas moderadoras não são para moderar, são para utilizar, porque assim, como nos explicou um solícito deputado do PS, que até é médico, ele pode aconselhar a cirurgia mas quem decide ser operado… é o doente! Espantoso!

Ou seja, as trapalhadas são mais que muitas mas uma coisa já se percebeu: cada um de nós vai passar a pagar mais pela saúde.

É esse o modelo que o governo vai seguir? Aumentar os impostos indirectos para financiar o SNS?

Debate parlamentar

Não vi a totalidade da discussão da proposta de reforma da segurança social, no parlamento.

Do que vi realço:
  • a arrogância, agressividade e pouco respeito de Sócrates
  • a ignorância, falta de nível, idiotice, falta de preparação e pouco respeito dos deputados da oposição.

Ainda bem que não temos tempo de ver os debates parlamentares! A abstenção eleitoral poderia chegar aos 90%!

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...