18 agosto 2006

Gunter Grass

Günter Grass confessou ter sido voluntário nas SS. Bem, de vez em quando encontramos alguém que definitivamente fez parte do 3º Reich, porque para os incautos, dá a sensação que aquilo foi tudo virtual!

Não me parece estranho que só agora o confesse. A coragem para o assumir é enorme. O que acho pouco edificante é o posicionamento que teve, em termos políticos, durante cerca de 50 anos. Talvez lhe tivesse mais respeito se, mesmo que em silêncio, compartilhasse com os seus compatriotas, e com a restante humanidade, a inexorável tendência para a maldade e para o abismo.

Mais uma vez, a relação entre a essência e a ética do artista, a dádiva à sociedade, e a qualidade e grandeza da sua arte, é questionável, ou mesmo inexistente.

A capacidade de criar beleza não é directamente proporcional à beleza da alma humana. É doloroso e incompreensível, mas é assim.

Manipulação


vários blogues se referiram à efeméride ontem comemorada: o centenário do nascimento de Marcello Caetano.

No documentário que passou na RTP1, de uma forma tosca e pirosa, traçou-se o panegírico de um homem que, apesar das suas com certeza muitas qualidades intelectuais, fica para a nossa história como o continuador de uma ditadura, como o indivíduo que cujas intenções não passaram disso mesmo, de intenções. De um político que não era ingénuo nem impoluto, que não soube ou não quis fazer a transição para a democracia, que manteve a censura e a lei do partido único, que teimosamente e em público defendia a guerra colonial, atacava os seus opositores apelidando-os de anti patriotas, que manipulava a informação.

De uma maneira despudorada tentou fazer-se passar a imagem de um homem desapegado do poder, idealista, um escravo da causa pública, quase subentendendo, por oposição, o regabofe de oportunistas e arrivistas que apareceram após o 25 de Abril.

Já não falo da entrevista à filha, Ana Maria Caetano, conduzida por Judite de Sousa que, tal como sucedeu com a entrevista à irmã de Álvaro Cunhal, foi acéfala.

As pessoas vivem de acordo com o carácter, consciência, personalidade, inteligência e segundo a época, o tempo, o espaço, a moda, as ideologias. Não se prestam favores, nem às suas memórias, nem às memórias colectivas dos povos, alisando arestas, ocultando factos ou apresentando uma realidade distorcida e mais ou menos açucarada. Foi vergonhoso.

Pelo contrário e entre o que li, destaco o artigo de Vasco Pulido Valente no Público que, apesar da acidez e da crueza que lhe são características, é muito bom.

17 agosto 2006

Abandono


Abro-te as mãos enquanto dormes
e pouso-as em mim.
Durmo assim,
no abandono da tua paz.

(pintura de Partou Zia: sleeping lovers)

Em branco


Esta noite branca
ao lado dos corpos nus
os amantes brancos
absorvem sôfregos o frio
que paira no tempo
que lentamente se afasta
escorregando
do amor em branco
que desesperadamente
se desenha e arrefece.


(Pintura de Nikolay Reznichenko: White Night)

16 agosto 2006

Fim de dia


Está fresquinho, e que bem que sabe um intervalo na torreira de Agosto.

Depois de um jantar de conversa, remata-se com café e um pastel de Belém, morno, estaladiço, polvilhado com açúcar e canela.

Arte naïf


Talvez valha a pena espreitar o "XXVII Salão Internacional de Pintura Naïf", no Casino Estoril. Pelo menos ali o mundo é simples e colorido, e os barcos são barquinhos, o mar é azul e as barracas têm riscas à marinheiro.

(pintura de Mª del Carmen Artigas: Mar Menor)

15 agosto 2006

Suspenso


O mundo abre a janela,
sacode fragmentos de sonhos
areja palavras
recicla esperanças.

Suspende-se o medo.
Ouve-se piar um mocho.

Até à próxima bala.

(desenho de Pablo Picasso: guerra e paz)

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...