04 agosto 2006

No café


No café com chávena e pires
os olhos pregados ao jornal
um pingo castanho alastra e mancha
as páginas em aguarela cinzenta.

Apressadamente limpo e apago
definitivamente já não há notícia
só um brinco num fragmento de orelha
e o traço de um dente meio sorrindo.

No café com chávena e torrada
lambo as pontas dos dedos
e aplicadamente volto as páginas
respiro folhas e tinta
o cheiro das novidades e das manhãs
de sábado
da liberdade.


(pintura de Desmond O’Hagan: coffee house)

O desenhador compulsivo


Fui ver a exposição de desenhos de Abel Salazar, no CCB.

Para um artista como Abel Salazar, com extensa obra plástica entre desenhos, gravuras, aguarelas, pintura a óleo, esculturas (até murais), que ele expôs em vida, não entendo muito bem qual a relevância desta exposição.

Dispostos por várias salas encontram-se desenhos que Abel Salazar fazia, penso que de uma forma quase inconsciente, enquanto via ao microscópio, enquanto passeava, enquanto estava no café. Desenhos para entreter a mão e a mente, para concentrar ou distrair, não assinados, em todo o tipo de papéis, nas costas de provas tipográficas, de postais, de cartas, de folhas de hotel.

O título da exposição está feliz. Parecia haver uma compulsão para desenhar, e para desenhar mulheres. É, aliás, quase o único tema dos desenhos. Há ainda 3 (ou 4) quadros a óleo, lindíssimos, por sinal.

Numa área contígua pode assistir-se a um documentário, razoavelmente interessante sobre a vida e obra de Abel Salazar, em que aprendemos como se faz gravura e como se pinta a aguarela e a óleo.

Gostaria mais de ter visto uma exposição da obra de Abel Salazar que incluísse alguns dos desenhos dele.

Gostei, mas soube-me a pouco.

(caricatura de Abel Salazar por Luís de Pina, 1925)

Reparação pública


É horrível não se suspeitar ou não se reconhecerem os sinais e sintomas de uma criança maltratada. Quando tal acontece devem pedir-se e assumir-se responsabilidades a quem maltrata e a quem não diagnosticou (médicos, enfermeiros, assistentes sociais, comissões de acompanhamento, tribunais, advogados, juízes…).

Mas não é menos horrível que se diagnostiquem ofensas corporais a uma criança, acusando a mãe, o pai, a avó ou outros acompanhantes e familiares, levando mesmo as comissões de acompanhamento a decidirem pelo afastamento da família, sendo tudo, afinal, um erro de diagnóstico.

O que está em causa não é o profissionalismo dos médicos nem das comissões referidas, que estavam alerta e fizeram o que deveria ser feito. Mas a verdade é que se enganaram. Houve um erro de diagnóstico, com consequências que não imagino para a família e para a própria criança.

Neste caso também se devem pedir e assumir responsabilidades. O mínimo que a administração do hospital de Guimarães, como responsável por todos quantos trabalham lá, pode fazer é pedir publicamente desculpas, porque a punição social que esta mãe já sofreu também foi pública e notória.

Também Nobre Guedes processa o estado por quebra de segredo de justiça, o que levou a uma tentativa de julgamento de carácter na praça pública. Fez muito bem. A corrupção deve ser investigada sem tréguas e punida exemplarmente. Mas o bom nome, a honra e a dignidade de todos os cidadãos mercem ser respeitados.

Poupança (2)

Uma das maiores fatias da despesa do Serviço Nacional de Saúde é a dos medicamentos. Como também já disse anteriormente, é péssimo medicar demais, mas é igualmente mau medicar de menos, ou medicar apenas com o critério do mais barato.

É imprescindível que rapidamente se estabeleçam protocolos de terapêutica medicamentosa por entidade (doença), feita com base em critérios científicos, para que haja efectivamente uma redução da despesa mas, mais importante que isso, para que os doentes sejam mais bem tratados.

A adopção de novas terapêuticas e a introdução de novos medicamentos deve ser sujeita a parecer das comissões que existem para esse efeito. Por vezes medicamentos mais caros podem melhorar acentuadamente a qualidade de vida dos doentes, reduzir a probabilidade de recaídas, recidivas, infecções e, por isso, reduzir despesas a médio e longo prazo. No entanto, as indicações terapêuticas devem ser rigorosas, bem definidas e bem seguidas por todos.

Qualquer profissional de saúde está obrigado a prestar ao seu doente o que de melhor e mais indicado existe no seu caso, tendo em conta os conhecimentos científicos mais avançados, signifiquem eles mais ou menos despesa.

A maior poupança é evitar a doença e proporcionar a todos os cidadãos as melhores condições de saúde. Se não estiver doente, qualquer pessoa produz mais, melhor e é mais feliz.

Poupança (1)

Por muito que seja imprescindível e meritório o esforço do estado, e portanto de todos nós, para poupar, em tudo o que for possível, essa poupança deve incidir primordialmente sobre os desperdícios. Na saúde, como em muitos outros sectores, há imenso desperdício.

Já várias vezes referi o meu desacordo em relação à organização dos serviços de urgência. Até agora, as equipas de urgência são formadas por médicos escalados de várias especialidades, cujo horário na urgência está inserido no seu horário de trabalho.

Como os serviços de urgência servem como serviços de consultas, que deveriam ser efectuadas nos centros de saúde, e como a escassez de médicos é crescente, para que se assegurem equipas de urgência os médicos têm que aumentar o seu horário de trabalho, à custa de horas extraordinárias. Por lei, são obrigados a cumprir 12 horas extraordinárias por semana. Na prática, um médico tem um horário de 35+12 horas ou 42+12 (se em exclusividade).

Deixando de parte a discussão da tabela de remuneração das horas extraordinárias, elas só serão feitas, para além do obrigatório, se os médicos quiserem. Qualquer trabalho a mais do estipulado no contrato deve ser acordado entre as partes, e só será efectuado se for compensatório para ambas.

Como vão os hospitais assegurar equipas de urgência, se os médicos deixarem de prestar mais 12, 24, ou mais horas extraordinárias por semana? Não sei e também não sei como se remuneram urgências com critérios de produtividade. Aliás ainda ninguém explicou.

Sugiro que se alterem os serviços de urgência e se transformem em serviços autónomos, com quadros próprios e especializados. Vejo o futuro algo negro.

03 agosto 2006

Verão


Lambuzo-me de figos.
Na cesta a sombra amadureceu.

Lavo-me de seda.
Na boca a cereja mordeu.

Abandono as mãos,
nos corpos avaros de céu.


(pintura de Elbert Price: figs with blue cup)

02 agosto 2006

Despedidas


Desde aquele dia começou a despedir-se. A morte anunciava-se, de forma mansa e vagarosa, escrita nas páginas do seu corpo. Uma proteína aqui, um gene acolá, uma troca de iões mal sucedida, e começavam a apagar-se os milhões de luzinhas que iluminam um corpo.

Lentamente preparava-se para a dor da separação, partia um a um os frágeis fios que a tornavam uma parte dele. Desligava-se poro a poro, como se a mornidão da temperatura fosse reduzindo a textura, descolorindo a pele.

A pouco e pouco a voz, o olhar, o sorriso eram já fantasmas da voz, do olhar, do sorriso, como imagens de antimatéria com a qual se habituava a conviver. Ia arquivando todos os gestos, os carinhos, a respiração, os pêlos, a língua. Olhava fixamente os movimentos para que os pudesse reviver em si.

Exalando a vida na cadência do respirar, esfumando-se para ela, embora ainda e só apenas ela o sentisse.

No momento que chegasse já o hábito da ausência se instalara, aquela névoa de lembrança permanecendo na penumbra do quarto, o cheiro das roupas quase perceptível.

No instante em que ele não fosse, já ela tinha deixado de ser, e continuaria num limbo de permanência suspensa até, como ele, se anular.


(fotografia de Pantelis Cherouvim: lonliness)

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...