18 junho 2006

Ideologias

A discussão à volta dos desvios do PS para a direita, da crise da direita e, por consequência, da crise da esquerda, é artificial e pretende apagar diferenças ideológicas quando o que está em causa são diferenças de prática num mesmo espaço ideológico.

Sócrates, enquanto líder do PS, tem tentado imprimir um pragmatismo que os partidos de direita proclamam como seu.

A crise económica tende a misturar o que são medidas de reorientação e reorganização das despesas do estado, com a definição ideológica do papel do estado na sociedade europeia. O saneamento das contas públicas é essencial para se conseguir a manutenção daquilo a que se convencionou chamar estado social.

Redefinir e melhorar a educação pública, exigindo rigor e resultados, pedindo às escolas uma pedagogia de qualidade, é apostar que esta é uma função obrigatória do estado. Impor uma filosofia de serviço na administração pública é coincidente com a redução do número de funcionários, com a avaliação exigente e com a progressão por mérito.

A concentração de esforços e de meios, a reorganização dos serviços, a redistribuição dos recursos humanos, nomeadamente na saúde, pretende fazer face ao enorme crescimento de despesas pela existência de cada vez mais meios de diagnóstico e terapêutica a que TODOS têm direito, e que o serviço nacional de saúde deve assegurar.

A defesa e o respeito pelos cidadãos, assim como o ataque aos privilégios corporativos, com o objectivo da justiça em termos retributivos e de esforço fiscal, não é uma bandeira de direita.

Durante muitos anos confundiu-se ideologia de esquerda com laxismo, negligência, mediocridade e “amiguismo”, e estou a falar particularmente do PS. No limite, este estado de coisas leva à descrença no papel do estado e à noção do individualismo cego, da desagregação das comunidades pela lei do mais forte. O princípio do "utilizador-pagador" é perigoso e enganador, dando a ideia de que só tem direitos quem paga, o que acentua as desigualdades e semeia insatisfações.

O princípio solidário da contribuição social pelos impostos, desde que TODOS paguem proporcionalmente ao que ganham, é um cimento de coesão social e um meio de responsabilização dos governantes eleitos.

Não me parece que o PS de Sócrates tenha abdicado destes princípios. Espero que tenha assumido também o princípio da autoridade do estado que, sem ser de esquerda nem de direita, é um dos pilares de um estado democrático.

17 junho 2006

Às vezes


Às vezes precisamos virar a alma do avesso, dormir quando antes acordávamos, viver quando antes agonizávamos.

Abro e fecho os livros à procura da palavra, do poema, da luz que me acenda vontade e enleio. São os poetas que convoco neste apelo mudo, é dos poetas que exijo clarividência e sentimentos expostos.

Às vezes o toque dos dedos nas folhas, o cheiro do papel, a mansidão das letras que se entregam aos nossos lábios, conseguem acalmar o anseio. Solenemente, ouço vozes cadenciadas que lentamente me soletram a paz.


(pintura de Joan Miró)

Troncos


Como troncos que se isolam,
delicados madeiros transviados,
braços com nós e veias
barcos náufragos no tempo,
assim seremos nesse momento
de terra árida e mar sem fundo,
no fim do mundo.



(exposição de fotografias, até 8 de Julho, na Sala da Nora, em Castelo Branco - Barragem de Santa Águeda / Marateca - um olhar diferente)

Já está!


Desta vez foi a valer! Muito sofrimento e nervosismo mas foi um jogo bem jogado da parte da nossa selecção.

É preciso afinar os pontapés e as fintas para a próxima fase. Segundo percebi, enfrentaremos a Argentina ou a Holanda. Não sei o que será pior!

Venha quem vier, o mundial faz-se jogo a jogo. Se este correu bem, porque não há-de correr o próximo?

Espectáculo a sério é ver o show das claques. A imaginação e paciência dos torcedores, as vestimentas, os chapéus e as pinturas, dão um colorido maravilhoso às bancadas!

Portugal vs Irão



É hoje que vamos fazer um grande jogo. É hoje que vamos impedir que o presidente iraniano se desloque à Alemanha, para apoiar o Irão.

Para o melhor e para o pior, o futebol pode fazer a diferença.

16 junho 2006

Pois



Abri o descanso com uma chave ferrugenta. Tenho os ossos irritantemente pontiagudos a despontar da pele, que pede cama. Não sei se lhes faça a vontade.

Teimosamente limpo os vidros mas o nevoeiro mantém-nos baços. Notam-se bem as pontas dos dedos no bafo quente que lhes deito.

É melhor riscar do tempo estas nuvens.

Vou lambuzar-me com um livro que saiba a chocolate e reescrever o espectáculo da chuva. São gotas a menos e pedras a mais.



(Festival do chocolate, Óbidos, 2005)

"Homens no fio"


Ontem, depois de mais uma ida pouco satisfatória à FNAC do Colombo, consegui encontrar um exemplar (de dois) do livro “Homens no fio”, bem encafuado numa das prateleiras do fundo das enormes estantes da literatura portuguesa. Como é habitual, nenhuma outra obra do mesmo autor existia.


Peguei no livro e não parei de o ler até ao fim. De uma forma elegante e cheia de ternura, Luís Naves descreve uma (quase) tragédia de dois pescadores no mar dos Açores, ao largo de S. Miguel.

Com uma sobriedade e simplicidade exemplares, sofremos com os dois homens, um quase pai e outro quase filho, numa experiência limite de desespero, de fé e de destino. Dois homens vulgares, como vulgar e fruto do acaso são as armadilhas que se colocam entre nós e o infinito.

Com eles procuramos a luz, equilibramos o “Totobola”, bebemos água da chuva misturada com água do mar, tiritamos de frio e imaginamos na meia sonolência da fome, da sede e do medo, tubarões, barcos e amores.

É, ao mesmo tempo, um hino à vida. Gostei imenso. Parabéns ao autor.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...