14 junho 2006

Para longe


Olho para longe desta ausência
de flores na mesa e nos cabelos,

Olho para longe do olhar,
para lá do mundo que quero fechar.

Pode ser o mar.



(pintura de Angela Rossen: turtles)

Deprimente

Não consigo deixar de me sentir revoltada com o fecho anunciado da fábrica da Opel da Azambuja. Bem sei que é o mercado e a globalização e tudo o que quiserem. Mas que não me parece moralmente correcto despedir 1500 trabalhadores que o ano passado eram considerados muito bons, muito produtivos, maravilhosos, enfim, não me parece.

O ministro da economia vem dizer que está tudo em aberto. Pois está, as portas bem abertas para todos saírem, o mais depressa possível, e transferirem tudo para Saragoça cujos trabalhadores, este ano, vão passar a ser, por sua vez, maravilhosos.

Ao menos alguma coisa mexe na educação. Espero que mexa ainda mais, na saúde também, na justiça, e em muitos outros sectores, que tanto precisam, que tanto precisamos de um pouco de esperança.

Mas o que se está a passar na Azambuja é deprimente. Triste e deprimente.

Lisboa à chuva


Lisboa molhada e aflita, sacode a água dos passeios e encharca as sandálias nas bermas das ruas.

Há pedras soltas nas calçadas. As pernas nuas das mulheres salpicadas de frio e o arrepio que encolhe os ombros, por baixo do guarda chuva de carteira e do gozo danado de quem olha.



(fotografia de Oscar Garcia Suarez: rain paints the streets)

Dia de prisão


Hoje está um dia de prisão, em que as nuvens são como portas trancadas, as árvores gritam e gemem, os relâmpagos escrevem temor.

Hoje está um dia que não nasceu.

(pintura de Vorontzov)

12 junho 2006

Há palavras que nos beijam


Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca,
palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto,
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
entre palavras sem cor,
esperadas, inesperadas
como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
letra a letra revelado
no mármore distraído,

no papel abandonado).
Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte,
ao silêncio dos amantes.


(poema de Alexandre O’Neill)
(pintura de Paulina Parra: And the words got in the way II)

Mais uma fábrica a fechar


Só os nossos governantes estão optimistas em relação ao crescimento económico. O resto do pessoal, que não sabe nada de finanças nem consta que tenha bibliotecas, vai vendo a vida a andar para trás, com o desemprego a bater à porta de mais 1500 trabalhadores.

Eles até podem ter batido recordes de produtividade, até podem propor redução de custos, sabe Deus às custas de quem, mas há países em que o inaceitável para uma parte da Europa é muito acima do imaginável para outra parte.

Será que o governo vai mesmo pedir o dinheiro de volta? Espero que sim, mas é fraco consolo para quem perde o seu sustento.

11 junho 2006

Interesses


Ainda não percebi muito bem que interesses portugueses estão a ser acautelados com a ida da GNR para Timor.

Temos um complexo de culpa de ex-colonialistas e uma atitude de colonialistas na forma como olhamos e referimos a existência daquele país.

Afinal parece que a ida da GNR não era assim tão necessária, visto que os australianos até já têm um plano para reorganizar aquele jovem e imberbe país, com o beneplácito de Ramos Horta e do Presidente Xanana Gusmão.

De tão rápido a responder, Portugal vai pagar caro o seu sentimentalismo. O único interesse que agora tem a defender é minimizar o papel secundário que já lhe foi atribuído, pelos mesmos que apelaram à sua imprescindível ajuda.

Timothy Schmalz É frequente ter vontade de escrever a minha indignação pelas várias indignidades a que assistimos diariamente. O mundo mud...