31 agosto 2014

Em Setembro


Dean Hunsaker


 


 


1.


Ainda me lembro do perfume doce


das folhas de figueira


desfeitas pelos dedos.


Pedaços de seiva guardada


que transformarão a memória


de uma tarde morna e ensonada


no renascer de um Outono crispado


em chuvas e ventos e nocturnos


serões na leitura da esperança.


 


2.


Não esperes por mim.


Quando a estrada se abrir


estarei já no início do encontro


que tanto desejámos


no outro lado do querer.


 


Não esperes pela madrugada.


Quando o frio do mundo acordar


vestirei a teia de sonhos


em pequenos nós de espanto


no outro canto da certeza.

Persistir

António Costa faz bem em identificar como seu adversário político Rui Rio. De uma só vez demonstra que o seu combate é pelo país, pela vitória nas legislativas, e desvaloriza Passos Coelho como o representante de uma direita credível.


 


De facto precisamos de debate político, de gente inteligente e que tenha uma visão para o futuro, concordemos ou não com ela.


 


Tenho assistido ao propagandear da ideia de que António Costa é igual a António José Seguro, que não diz nada de concreto, que está rodeado de gente do passado, deserdada do poder. Era precisamente esta a estratégia de António José Seguro e do PSD - arrastar e ir minando, pelo cansaço.


 


Por outro lado não me parece que a afluência à inscrição dos simpatizantes tenha sido de molde a alegrar quem gostaria de mobilização e mudança. É triste mas a descrença na democracia é arrasadora. E a desilusão está à espreita, pois a perfeição não existe e D. Sebastião nunca regressou de Alcácer Quibir.


 


Persistência e perseverança - manter o nível e nortear o objectivo pelos grandes temas, não caindo na pequena política. António Costa é uma hipótese de mudança; António José Seguro é a certeza do marasmo e da manutenção desta direita reaccionária e retrógrada.

25 agosto 2014

Das revoluções eleitorais

Multiplicam-se os manifestos para alterações à lei eleitoral. Não percebo porque é que estes assuntos não são discutidos pelos partidos e não são objecto de propostas em campanha eleitoral, para que houvesse legitimidade eleitoral para essas mudanças. Estas propostas cheias de independentes e apelando ao estatuto de independente cheiram-me sempre a populismo. É um assunto demasiado sério para que não seja central na discussão política partidária.

Lucros

Algo me diz que as diversas notícias que, nos últimos dias, têm saído sobre os lucros do BES Saúde e, na generalidade, sobre os lucros no sector privado, não será pura coincidência. Que fique bem claro que não tenho nada contra o sector privado, mas esta insistência causa-me alguma estranheza.

Empedrado

 



Chichorro


 


 


Ecoam os passos no empedrado


a terra seca não gasta a irregular


vontade de andar sempre


um pé adiante do outro


sem descanso nem pausas


até que a distância se evapore


como o tempo que ainda falta


para te reencontrar.


 


Olho para o chão e continuo


sem capacidade para ver mais além


onde sei que passo a passo ecoa o dia


em que de novo caminharemos abraçados.

16 agosto 2014

Das promessas irreformáveis

Não sei se há alguém que ainda acredite no que Passos Coelho diz, seja nas festas do Pontal seja em entrevistas encomendadas. Quanto à sua promessa de não mexer na Segurança Social é apenas motivo de maior preocupação pois será o que, provavelmente, ele tentará fazer.


 


Seria muito importante que Passos Coelho e o PSD explicassem exactamente o que pretendem fazer, quais as reformas preconizadas para a próxima legislatura. Pode ser que, no meio do arrazoado de palavras ditas naquele tom de voz pausado e de barítono, tenor e baixo, de lábios em rictus serius e cabelo bem arrumadinho, não esquecendo os óculos a condizer com o perfil tecnocrático, pudéssemos prever a forma de desmantelamento que se está a preparar.


 


Os apelos ao compromisso com o PS são só mais um episódio de mistificação, repetitivo e cansativo.


 


Enfim, nada de novo.

Do velho ciclo

Também li a moção de António José Seguro. A minha opinião, por muito que me esforce, não é imparcial - é um texto cheio de lugares-comuns, páginas de palavras que não querem dizer rigorosamente nada. Apela aos piores instintos populistas com as palavras em bold - compromisso, luta contra a corrupção, código de ética, responsabilidade, solidariedade, modernidade, cumprir Portugal, etc.


 


Vale a pena ler. Ninguém se deve demitir de perceber quais as soluções que quem se apresenta a votos sugere. E quais as ideias, ou a falta delas, dos que se propõem ser líderes.

15 agosto 2014

TSF - Telefonia Sem Fios

A TSF estará para sempre ligada ao meu início de vida de casada e ao meu início de vida profissional em Anatomia Patológica. Lembro-me muito bem que acordava com a TSF, em 1988, ainda a TSF era uma rádio pirata.


 


Sempre um pouco antes da hora a que tinha que me levantar, hábito que mantenho até hoje, ficava na cama a acordar, a ouvir música e as primeiras notícias do dia.


 


Também esta música de Jon Andersen está associada a estas memórias.


 






There you have it
You see this love regretting
There's something wrong again
But you had it
In the palm of your hand

Your heart has started bleeding
You gotta get out
You're leaving
You're on your own forever

It's not the space or time or whether
You can leave
You want, you can't have
You need, you can't touch
You plead, it's enough, enough

There's something happening to ya
Love can see right through ya
In a world of make believe
Don't go throwing it all away

Hold on to love
Hold on to love
Treat it as a good thing
Be always ready
With that electric feeling

You work so hard
To be in love with her
She tries so hard
You gotta let it go

Hold on, hold on
Hold on, hold on

The more and more yo uhear it
The more it seems to make sense
To hold love in the palm of your hand

But you think that round the corner
They're queuing up to hold her
But that won't make a difference in the end

There's never space or time or whether
Yo u can leave
You want, you can't have
You need, you can't touch
You plead, it's enough, enough

There's something happening to ya
Love can see right through ya
In a world of make believe
Don't go throwing it all away
Hold on to love
There's nothing more important
Treat it as a good thing
Be always ready
With that electric feeling

You work so hard
To be in love with her
She tries so hard
You gotta let it go

Hold on, hold on
Hold on, hold on
Hold on, hold on

You work so hard
To be in love with her
She tries so hard
You gotta let it go

Hold on, hold on
Hold on, hold on
Hold on, hold on

Hold on to love
There's nothing more important
Hold on to love
Don't let it pass you by
Hold on to love
There's nothing so important
Hold it in the palm of your had
Yeah, yeah

Hold on to love
There's nothing more important
Hold on to love
Don't ever let it pass you by

Hold on to love
Hold on to love
Treat it as a good thing
Treat it as a good thing
Treat it as a good, good thing


Da mobilização que urge

 


António Costa tem uma moção bem estruturada e com ideias fortes, não concretizadas quase nunca, embora indique alguns caminhos chave. Não cede ao populismo e tenta uma postura mais distanciada, de alguém que está interessado em resolver alguns problemas. Assume que o melhor é conseguir uma maioria absoluta, assume que terá que haver compromissos à esquerda, assume que é preciso lutar por uma política europeia que não penalize países como Portugal, assume que é necessário inverter o rumo político apostando nos direitos dos cidadãos, na regulação financeira e no mercado de trabalho, no investimento e modernização do Estado. Goste-se ou não, tem algumas ideias de combate.


 


O regime político em que vivemos tem por base uma Constituição feita há 38 anos. É claro que já houve várias revisões constitucionais. Mas se há partidos e outras organizações sociais (a tal sociedade civil que só interessa para algumas coisas) que entendem ser necessária uma alteração profunda e radical da Constituição, que tal lançarem o debate público sobre o assunto? E se os partidos se unissem, fizessem o tal pacto de regime, para fazer um referendo em relação à eleição de uma Assembleia Constituinte?


 


Há 38 anos a organização da sociedade - as relações entre pais e filhos, Estado e sector privado, empregadores e empregados, o analfabetismo e o acesso à educação, os problemas de desenvolvimento do país fora das áreas urbanas, a pobreza e as desigualdades, o abandono das terras e, principalmente, o clima político que se vivia em Portugal e no mundo, eram muitíssimo diferentes dos de hoje.


 


O acesso à informação e a sua divulgação, a enorme melhoria das condições de vida das populações, a globalização e a banalização da manipulação informativa modificaram-se radicalmente. Continuar a apostar em organizações como os sindicatos, as associações patronais, em lutas de tipo greves e manifestações, na era da internet, do facebook e do twiter, das compras e das notícias online em que cada cidadão desenvolveu a capacidade de se julgar o centro do universo e ser, nem que seja por segundos, o protagonista do que considera ser a mudança, nem que seja momentânea, transformam muito do que são as bases da construção do nosso regime e dos nossos sistemas de equilíbrio de poderes, em estruturas frágeis e a precisar de renovação e/ ou relegitimação democrática. Se calhar poderá haver outras formas de luta, outras organizações, outro tipo de manifestações.


 


Não basta dizer que se quer aprofundar a democracia e aproximá-la dos cidadãos. Enquanto não se enfrentar sem medo e sem demagogia a ocupação de lugares das cúpulas das administrações locais e central por aparelhos partidários, a organização territorial e administrativa do país que está totalmente desadaptada da realidade, não será possível uma alteração da lei eleitoral em que as populações se revejam mais nos seus representantes.


 


Modernizar o país, o Estado, investir nas novas tecnologias, aliviar os cidadãos das burocracias e do tempo que gastam a resolver banalidades, como renovar o cartão do Cidadão - uma excelente ideia que ficou a meio caminho - investir no teletrabalho, na flexibilização dos horários, nos apoios de proximidade a quem quer ter filhos - creches, meios horários, etc., nos apoios aos mais velhos gerando oportunidades de trabalho, facilitar a mobilidade das famílias com a reordenação do território e a requalificação do parque imobiliário, investir na ciência e na investigação marítima (mas a sério, não apenas nas vésperas eleitorais em que todos se lembram da nossa riquíssima costa, para a esquecerem imediatamente após o dia da votação), são tarefas que podem mudar o ciclo de recessão e descrença instalado.


 


A democracia faz-se todos os dias e não devemos enquistar-nos em fórmulas e soluções que estão gastas. Onde estão os protagonistas das discussões para uma verdadeira renovação do regime? Talvez fosse essa uma das melhores formas de mobilizar o país.

Ebola


Ebola


 


 


Devemos estar muito atentos, preocupados, informados e sem pânicos nem alarmismos:


 


http://www.dgs.pt/paginas-de-sistema/saude-de-a-a-z/ebola.aspx


 


http://www.who.int/csr/disease/ebola/en/


 


http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs103/en/


 


http://www.who.int/csr/don/2014_08_13_ebola/en/


 


http://www.who.int/ith/updates/20140421/en/


 


Dos enganos mexicanos


 


Hoje tem estado um verdadeiro dia de Verão, com sabor a férias. Pouca gente em Lisboa, o ar morno, uma leve brisa refrescante, ideal para se almoçar numa esplanada em frente ao rio.


 


E porque não o restaurante La Siesta? Já há muito tempo que não íamos lá, pois a penúltima visita tinha sido decepcionante e a última nem sequer se tinha concretizado. Mas os anos passaram e podia ser que as coisas tivessem melhorado.


 


Lá fomos, uns minutos antes das 13:00h. Muitos lugares de estacionamento, um homem velhote em calções (ou cuecas) em frente à porta, por baixo de uma palmeira, acompanhado por uma criança nos mesmos preparos, a gozarem banhos de sol. Uma parte da esplanada em obras, com os andaimes bem visíveis e os plásticos que os cobrem esvoaçando como roupa a secar em corda.


 


Mas isso são minudências de gente fina. Entrámos e o fresco e o ambiente ligeiramente sombrio foram muito acolhedores, com a decoração tal como a lembrava feita de chapéus, muito pau, palha, flores e cores garridas. Ninguém perguntou se havia reserva o que foi logo um alívio e uma surpresa muito agradável, pois a sala e a esplanada estavam praticamente vazias. Sentámo-nos e escolhemos: ensalada mixta con enderezo de aguacate (salada mista com abacate), tacos pastor (cubos de porco com queijo em totilhas de milho) e pollo con azafrán (frango com espinafres e açafrão). Nas bebidas as opções foram curtas - cervejas só de garrafa; das mexicanas - nem Sol, nem Dos Equis, só Corona. Portanto pedimos Corona e sangria a copo (estava bebível).


 


Para entreter fomos comendo totopos e salsa mexicana (salada de tomate em cubos com coentros e tiras de milho). O serviço não foi muito lento, felizmente, e os empregados são simpáticos, mas nada que nos envolva muito.


 


A comida, para dizer com franqueza, foi semelhante à que se comia num restaurante mexicano que existia no Centro Comercial Colombo, há bastante tempo já (não sei se ainda existe), na esquina daquela grande área de restauração, que ficou célebre porque, uma noite em que fomos lá jantar, a Empregada da recepção, devidamente paramentada com folclore mexicano, perguntou numa voz arrastada de quem está a fazer um frete monumental:


- Fumadores ou não fumadores?


Respondemos:


- Não fumadores.


Retorquiu:


- Só tem fumadores...


Houve logo quem se lembrasse de comentar, mais tarde e no recato de uma mesa dos fundos:


- Quer empregada esperta ou empregada burra?


- Empregada esperta.


- Só tem empregada burra...


 


Mas passemos adiante: a ensalada estava enjoativa, não sei se do abacate se do molho esbranquiçado e sem tempero, ou da cebola crua bastante potente; as tortilhas dos tacos pareciam ter sido compradas no Continente e descongeladas à pressa; o porco estava seco e a única coisa que ligava os vários pedaços era o queijo derretido, o que dificultava o trincar do taco, caindo inexoravelmente pedaços de porco para todo o lado; o frango estava razoável mas muito pouco condimentado.


 


As sobremesas ofereciam-se gulosas e ninguém resiste a um merengue con dulce de leche (caramelo) e manga ou a uma mousse de chocolate branco, que estava bastante boa e vinha com uma bola de gelado de chocolate e uma fatia de kiwi (dispensável).


 


O merengue, entre o pedido e a chegada à mesa, transformou-se em farófias; o dulce de leche desapareceu e a manga acompanhou-se de papaia. Não era mau, mas nem por sombras se aproximava do prometido. Café normal e conta astronómica!


 


À saída tinham desaparecido os veraneantes que deixaram, no entanto, um rasto de roupas e sacos amarrotados e pouco asseados.


 


Seguramente a não repetir. Estaremos outros 5 ou 10 anos sem nova investida experimental. Salva-se o espaço que é muito bom e a vista sobre o Tejo, de uma calma e uma paz deslumbrantes.

11 agosto 2014

Democracia tutelada

Arriscando algum comentário de quem cada vez se sente mais perdida no meio das várias revelações sobre o sistema financeiro e o sistema político, o que se tem passado com o tipo de resgate ao BES condicionado pelo BCE, escassos dias depois do Banco de Portugal ter concedido um empréstimo ao banco à beira de implodir, demonstra bem a incapacidade e a impossibilidade das instituições nacionais poderem tomar decisões sobre os problemas do País. Os centros de decisão estão na Europa e tudo se passa por trás dos eleitores.


 


Não vejo o Primeiro-ministro nem o Presidente terem a coragem de dizer seja o que for. Segundo o governador do Banco de Portugal, o testa de ferro desta solução, estivemos na iminência de uma crise sistémica, mas nenhum daqueles que foi eleito para resolver os nossos problemas se deu ao trabalho de aparecer a esclarecer, a serenar, a dar confiança, a explicar.


 


Há realmente muita coisa a mudar no nossos sistema político e uma delas, que todos se recusam a discutir por cobardia política ou falta de interesse, é a submissão política não democrática que das instituições dos países membros aos organismos europeus sem mandatos eleitorais.


 


Não sou contra a Europa mas sou contra esta Europa. 

10 agosto 2014

És o émulo sem rivAAaal do Dr. Câmara Pestana...


a partir do minuto 1:47

 


Foram dias de grande ansiedade e trabalheira – organizar um evento científico abrilhantado por alguém como o Professor, era uma subida honra e significava um estado de nervos acrescido e permanente.


 


A logística e a campanha para que o evento fosse um êxito, não só científico mas também um agradável e animado convívio entre os mais novos e os mais velhos (entre os quais já se contava), a somar ao facto de ser o primeiro sob a sua responsabilidade, garantiam insónias.


 


O dia iniciou bastante cedo, com a incumbência de transportar o Professor, nada de atrasos, chegada de estadão e início protocolar, rapidamente se iniciaram as conferências, as discussões, as exposições e as pausas para café e almoço voaram sem que quase desse por elas.


 


Estavam já a explicar-se as razões dos últimos intervenientes, preparava-se para a oferta do mimo final, em agradecimento e carinho (e bem podia inchar de orgulho e satisfação por aquele dia, corrido de feição, sem paragens nem atropelos, com a audiência interessada e participante), quando vibra no bolso o telemóvel silencioso. O que seria, àquela hora? Um estremecimento de premonição de desgraça percorreu o seu espírito.


 


Era um sms – em letras gordas, pode ler a voz que naquela mensagem cantava:


 


És o émulo sem rivAAaal do Dr. Câmara Pestana...

The Emperor of all Maladies - A Biography of Cancer


 


Nunca percebi muito bem os critérios para as edições de obras cuja língua original não é o português.


 


The Emperor ao all Maladies - A Biography of Cancer - um presente que me deram há uns meses. É um livro escrito por Siddhartha Mukherjeeum Médico Oncologista com especial interesse em Hematoncologia, nacionalidade americana mas nascido na Índia. Pelo que pude ver, a ideia do livro surgiu após um dos seus doentes lhe dizer que gostaria de perceber o inimigo contra o qual lutava.


 


Este livro ganhou inúmeros prémios e chegou à shortlist de muitos outros. Está muitíssimo bem escrito e traça, de uma forma empática e humana, a história do cancro desde os Egípcios até aos nossos dias - os diagnósticos, os sofrimentos pessoais e sociais, os radicalismos das terapêuticas, a ideia da doença sistémica, as causas, as investigações, as prevenções primárias e secundárias, as terapêuticas alvo, os genes. E tudo de uma forma simples e rigorosa, como uma história épica com vítimas e heróis, grandes entusiasmos e grandes desilusões.


 


Já há muito tempo que não leio um livro tão interessante e tão importante. E fiquei a saber, para além de muitas outras coisas, que Sidney Farber, um Patologista pediátrico, foi o primeiro médico a tratar um cancro com drogas, dando início à quimioterapia - os antifolatos para a leucemia linfoblástica aguda das crianças.


 


Nota: As minhas desculpas pela ignorância (que sempre foi muito atrevida). Segundo informações de um comentador, que a si próprio se apelida de Indivíduo, fiquei a saber que há uma tradução portuguesa publicada pela Bertrand. Aqui fica o linkO Imperador de Todos os Males, para quem estiver interessado. Mantenho, no entanto, o meu desentendimento quanto aos critérios editoriais (traduções) em Portugal. Pelos vistos, este não foi um bom exemplo.

Boléro


Boléro - Maurice Ravel




Dos especialistas


 


Nestes dias, meses anos de grande confusão, em Portugal, ma Europa e no mundo, confesso-me cada vez menos especialista e cada vez mais consciente de que o que sabemos é apenas o que julgamos saber. Confesso-me ignorante no que diz respeito ao conflito Israelo-palestiniano, ao do Iraque, da Líbia e da Síria, dos separatismos ibéricos e da ex-URSS, das crises do sector financeiro, do BCE, do BP, do BES, do GES e da decisão de dividir o banco em bom e mau.


 


Ao contrário da enorme quantidade de especialistas que debitam palavras, audíveis e/ou legíveis, sobre todos os problemas do mundo, da queda dos aviões e dos seus desaparecimentos até ao aquecimento global e à epidemia do Ébola, a falta de confiança nas informações que se recebem e naqueles que as transmitem é tal que, se ouço que vai estar de chuva tiro o fato de banho do armário.


 


Marcelo Rebelo de Sousa não pertence ao grupo dos ignorantes: fala rápida e assertivamente sobre tudo. António josé Seguro fala lenta e assertivamente sobre nada. Estilos bem diferentes mas semelhantes para o ruído que paira sobre a nossa sociedade.


 


As sondagens sucedem-se e as evidências sobre o governo e a oposição continuam a aparecer. Não tenho receio de partidos que se dividem e de novos partidos que apareçam. Só tenho medo da total inércia e desinteresse da população pela causa pública. Não são só os partidos políticos que não respondem aos anseios dos cidadãos, são todas as suas organizações representativas que estão em colapso: partidos, associações patronais, sindicatos, ordens profissionais, igreja, justiça, informação, tudo se desmorona e se mostra pouco eficaz e pejado de processos e protagonistas duvidosos.


 


Somos mesmo assim. De tantas raivas e fogos fátuos, sem consistência, mergulhamos no imediato do momento, subservientes com os poderosos, cruéis quando caem do pedestal que lhes fazemos.

03 agosto 2014

A partir das 22:30h

Do arremedo democrático

A condução política dos assuntos mais sérios e delicados do país deixaram de ser da responsabilidade do governo, pois este demite-se de cumprir o mandato para o qual foi eleito. Só assim se pode compreender que seja o Governador do Banco de Portugal a apresentar a solução para o BES.


 


Há muitas semelhanças entre o BPN e o BES mas também há algumas diferenças. Uma das mais importantes é termos tido um governo à altura dos problemas que se nos colocavam - e essa é uma diferença determinante para uma sociedade que ainda se crê democrática.

Violação dos direitos humanos

O conflito Israelo-Palestiniano é de uma enorme complexidade. Basta tentarmos informar-nos do que se passou ao longo dos vários séculos, ou mesmo milénios, da história do povo judeu e daquela área do globo, para nos apercebermos das inúmeras razões de parte a parte e dos extremismos de todos os lados.


 


Independentemente dos motivos e das razões que a tantos assistem, nada pode justificar a sistemática violação dos direitos humanos por parte de Israel ao bombardear agrupamentos de cidadãos que estão sobre a protecção da ONU.


 


Em qualquer guerra e nesta em particular não há inocentes. Mas são sempre os inocentes que sofrem as consequências deste descalabro humanitário.


 


Nota: Há um dossier muito interessante sobre Israel e a Palestina no Observador, que vale a pena ler.

02 agosto 2014

Evidências

Vítor Constâncio foi insultado e vilipendiado por causa do falhanço da supervisão no caso BPN.


Carlos Costa fez o que pode.


 


A nacionalização do BPN foi um acto criminoso de José Sócrates e de Teixeira dos Santos.


A nacionalização do BES é inevitável.


 


Havia uma rede internacional de tráfico de crianças que incluía diplomatas, políticos, gente muito importante e muito influente.


José Sócrates era culpado de corrupção nos processos Freeport, Face Oculta e, mais recentemente, do Monte Branco.


O único sobrevivente da tragédia da praia do Meco era um estupor que obrigava os colegas às mais vis torturas de praxe.


Ricardo Espírito Santo é o pior mafioso que se passeou por Portugal, desde que há memória escrita.


 


João Duque é chamado pela TSF a comentar a hecatombe do GES e do BES.


Os comentadores económicos têm as suas opiniões modeladas apenas por critérios de competência, nunca são influenciados por nada nem por ninguém.

01 agosto 2014

Lisboa que amanhece


Sérgio Godinho &Caetano Veloso


 


 


Cansados vão os corpos para casa


Dos ritmos imitados doutra dança
A noite finge ser
Ainda uma criança de olhos na lua
Com a sua
Cegueira da razão e do desejo

A noite é cega, as sombras de Lisboa
São da cidade branca a escura face
Lisboa é mãe solteira
Amou como se fosse a mais indefesa
Princesa
Que as trevas algum dia coroaram

REFRÃO:


Não sei se dura sempre esse teu beijo
Ou apenas o que resta desta noite
O vento, enfim, parou
Já mal o vejo
Por sobre o Tejo
E já tudo pode ser
Tudo aquilo que parece
Na Lisboa que amanhece

O Tejo que reflecte o dia à solta
æ noite é prisioneiro dos olhares
Ao Cais dos Miradoiros
Vão chegando dos bares os navegantes
Amantes
Das teias que o amor e o fumo tecem

E o Necas que julgou que era cantora
Que as dádivas da noite são eternas
Mal chega a madrugada
Tem que rapar as pernas para que o dia
Não traia
Dietriches que não foram nem Marlénes

REFRÃO

Em sonhos, é sabido, não se morre
Aliás essa é a Única vantagem
De após o vão trabalho
O povo ir de viagem ao sono fundo
Fecundo
Em glórias e terrores e aventuras

E ai de quem acorda estremunhado
Espreitando pela fresta a ver se é dia
E as simples ansiedades
Ditam sentenças friamente ao ouvido
Ruído
Que a noite se acostuma e transfigura

REFRÃO

Na Lisboa que amanhece

Universos paralelos


Marte 


 


É engraçado como às vezes se completa um círculo ou um ciclo que nem sabíamos que estava por fechar. As recordações são assim. Reacendem-se por uma cor, um cheiro, um movimento. Repentinamente e por alguns milésimos de segundo, aquela sensação única de um determinado instante regressa e, atónitos, reconhecemo-la.


 


As noites no Alentejo são de um negrume limpo e intenso, com miríades de estrelas que, para um incauto e ignorante observador, se assemelham umas às outras variando apenas a dimensão e a intensidade do brilho. Sempre admirei a capacidade que algumas pessoas têm de identificar as constelações, de procurarem determinados planetas, de conhecerem as profundezas e os mistérios cósmicos.


 


Há uns dias aproveitámos a oportunidade de observar algumas destas maravilhas. Numa pequeníssima sala circular, com tecto em abóbada giratória aberta em fragmentos que mostravam retalhos do céu, à volta de um telescópio e de um computador, espreitávamos para o Universo com o objectivo de observar um ou outro planeta mais acessível. Um deles era Marte.


 


Ao olhar pela ocular vi uma figura grosseiramente circular, pequena e mal definida, alaranjada, que se ia deslocando no campo de visão e tremelicava como se fosse feito de matéria líquida fluindo com os movimentos de uma dança celeste, apenas conhecida por alguns iniciados. E foi então que me senti transportada para a sala de ecografia do Hospital da Ordem Terceira, onde fiz a primeira ecografia aquando da minha primeira gravidez. Nessa altura era efectuada entre as 10 e as 12 semanas e, pelo menos para mim, foi uma autêntica revelação. Alguma coisa, muito pequena, esbranquiçada e mal definida num fundo cinzento-escuro dançava incessantemente, como se rodopiasse num baloiço invisível, as imagens focando-se e desfocando-se num ambiente meio etéreo.


 


De alguma forma incompreensível os meus neurónios associaram as duas imagens e devolveram-me um pouco da inexcedível sensação daqueles momentos em que acreditei verdadeiramente que seria mãe. A sonda da ecografia não foi mais que a ocular de um telescópio perscrutando um universo tão misterioso e deslumbrante como o céu que diariamente nos comove, quando temos algum tempo para o apreciar.


 

ÔÔptimo


 


Não fomos até à outra banda mas a esta, do Largo de Camões ao Terreiro do Paço, passando pelo Kaffeehaus, onde deglutimos o almoço. Na verdade este restaurante é óptimo e vale a pena comer as variedades de salsichas com batatas "Wedges" com especiarias, a Apfelstrudel e a Himbeer-Apfel-Tarte mit Mandelhobel, mas a Linzer-Schnitte não é nada de especial, assim como o Wienerschnitzel mit Erdäpfelsalat e o "Habsburger" mit Erdäpfelspalten. Ao nosso lado estavam duas senhoras, uma delas em que o gesticular alargado, o alinhar perfeito dos dentes frontais superiores, mais especificamente os incisivos e os caninos, a voz alta e condescendente (em relação à sua companheira de refeição), as sílabas modeladas com as vogais bem abertas e com uma acentuação típica (ÔÔptimo), para além da multiplicação e repetição do adjectivo ÔÔptimo, a colocava no topo do grupo de pessoas que-são-tão-giras-e-tão-magras-e-tão-sofisticadas-e-tão-ôôptimas, que conhecem de côr as saladas todas e que dividem sempre os magros pratos e as sobremesas, que nunca lhes apetece mais - de tôôdo - fazendo inveja a quem tem uma enorme tendência para o anafanso e adora batatas fritas e bolos de chocolate, para além da estupenda cerveja, dispensando os chás-verdes-gelados-com-gengibre e semelhantes.


 


A ideia era mesmo andar um pouco por Lisboa, essa eterna cidade desconhecida de quem cá mora. Lisboa é uma cidade lindíssima. Deambular pela Baixa Pombalina, misturar-me com a gente que formiga, a luz e a cor de Lisboa e do Tejo, agora que o podemos ver por entre as colunas do cais, devolvem-me sempre alguma da paz que busco nos dias de férias.


 


E é tão perto, Lisboa. Depois de estacionar no Camões, descemos a Rua Nova do Almada entrando e saindo das lojas, à procura de flores e de aguarelas que retratem a pureza de alguns instantes de felicidade. Devagar chegámos ao Terreiro do Paço. Subimos ao Arco da Rua Augusta, por umas escadinhas em caracol. Lá em cima o deslumbre: a toda a volta Lisboa - os telhados, as casas, a ruas, as lojas, as pessoas, o Castelo, a Sé, o Carmo, a abóbada da Câmara, a ponte 25 de Abril, o Tejo, o Tejo, o Tejo… e a outra margem, com as letras da Lisnave bem visíveis.


 


Foi ÔÔÔÔptimo!!!

Nova morada - do Sapo para o Blogger

Resilience Paula Crown O Sapo vai deixar de ser uma plataforma de alojamento de blogs. Tudo acaba. Os blogs estão em agonia e só mesmo algu...