Marte
É engraçado como às vezes se completa um círculo ou um ciclo que nem sabíamos que estava por fechar. As recordações são assim. Reacendem-se por uma cor, um cheiro, um movimento. Repentinamente e por alguns milésimos de segundo, aquela sensação única de um determinado instante regressa e, atónitos, reconhecemo-la.
As noites no Alentejo são de um negrume limpo e intenso, com miríades de estrelas que, para um incauto e ignorante observador, se assemelham umas às outras variando apenas a dimensão e a intensidade do brilho. Sempre admirei a capacidade que algumas pessoas têm de identificar as constelações, de procurarem determinados planetas, de conhecerem as profundezas e os mistérios cósmicos.
Há uns dias aproveitámos a oportunidade de observar algumas destas maravilhas. Numa pequeníssima sala circular, com tecto em abóbada giratória aberta em fragmentos que mostravam retalhos do céu, à volta de um telescópio e de um computador, espreitávamos para o Universo com o objectivo de observar um ou outro planeta mais acessível. Um deles era Marte.
Ao olhar pela ocular vi uma figura grosseiramente circular, pequena e mal definida, alaranjada, que se ia deslocando no campo de visão e tremelicava como se fosse feito de matéria líquida fluindo com os movimentos de uma dança celeste, apenas conhecida por alguns iniciados. E foi então que me senti transportada para a sala de ecografia do Hospital da Ordem Terceira, onde fiz a primeira ecografia aquando da minha primeira gravidez. Nessa altura era efectuada entre as 10 e as 12 semanas e, pelo menos para mim, foi uma autêntica revelação. Alguma coisa, muito pequena, esbranquiçada e mal definida num fundo cinzento-escuro dançava incessantemente, como se rodopiasse num baloiço invisível, as imagens focando-se e desfocando-se num ambiente meio etéreo.
De alguma forma incompreensível os meus neurónios associaram as duas imagens e devolveram-me um pouco da inexcedível sensação daqueles momentos em que acreditei verdadeiramente que seria mãe. A sonda da ecografia não foi mais que a ocular de um telescópio perscrutando um universo tão misterioso e deslumbrante como o céu que diariamente nos comove, quando temos algum tempo para o apreciar.
Sem comentários:
Enviar um comentário