31 dezembro 2012

Vamos lá a domesticá-lo

 



 


Fim de ano a dois, na mais absoluta clandestinidade. Repasto frugal, para quem está (para) sempre em dieta, mas muito apetitoso, com um docinho também, posto que vamos dar as boas-vindas a mais um ano (para esquecer). Portanto precisamos de muita paciência, coragem e boa disposição, por muito difícil que seja. Estou mesmo em crer que este governo já foi demitido pelo ridículo e pela paródia, tal é o desrespeito com que nos trata e com que é tratado.


 


Mas enfim, lá vamos nós para mais um dia, que isto de fins-de-ano é exactamente igual aos fins-de-tarde e aos princípios-de-dia. A crise transforma qualquer casa no restaurante mais sofisticado que existe e qualquer filme a passar no DVD no melhor espectáculo do mundo. Estamos com mesa marcada para as 20:30h. O começo não foi muito promissor, diga-se em abono da verdade: as farófias estão um pouco desfeitas e o leite de creme retalhou, vá-se lá saber porquê. Lá encafuei tudo para dentro de uma tigela que está bastante transbordante. Esperam-nos uns camarões mais ou menos à Tio Fausto (camarões congelados com casca, nem dos maiores nem dos mais pequenos, em cama de cebola, alho, azeite, pimento verde e muita salsa, com um ou dois goles de vinho bom, a suar num tacho tapado), uns berbigões mais ou menos à Bulhão Pato (berbigões na concha, depois de uma noite em água e sal, numa frigideira com azeite, muito alho, salsa – não encontrámos coentros - e limão) e legumes guisados. Uma pequena tábua de queijos, tostinhas e um bom Chardonnay iniciam e acompanham o banquete. O champanhe está já a gelar e temos conversa e companhia até chegar 2013.


 


O melhor de tudo é estar com quem queremos, desfrutando do conforto de amarmos, muito, sempre, em todos os dias do ano (com excepção daqueles em que nos apetece fugir, mudar de identidade, etc.).


 


Bom ano para todos ou, pelo menos, que não seja pior do que aquele que finda.


 


Nota: imperdoável a omissão de umas maravilhosas vieiras no forno. Estavam muito boas (como tudo o resto). Intouchables e A Praire Home Companion completaram o início de 2013. Nada mal, para começo.


 

30 dezembro 2012

Certo

 


 


David Freedman


 


Vou secando as flores


drenando a água em que mergulho


a felicidade momentânea.


Gasto a alma absorvo dilúvios


e reduzo a pó a grandeza que antecipo.


A solidão ecoa e infiltra todos


os poros da vida arestas que magoam.


Só o inatingível me parece certo


na prisão do encantamento.


 


Por pudor ou medo não quero


precisar tanto de amor.


 

Balancetes

 


Tenho pensado no balanço que posso fazer deste ano que está quase a acabar. O grande feito foi sobreviver com a cabeça minimamente sã (embora à minha volta não me considerem lá muito normal), neste país de doidos perigosos.


 


As coisas que já ninguém aguenta começam no governo, passam pelo Presidente e acabam na oposição. É tudo tão mau e deprimente que mergulhamos nas nossas vidas, estejam elas ocupadas pelo trabalho ou pelo desespero do desemprego, sempre preenchidas pelas contas dos tostões que não se deveriam gastar. Não se percebe muito bem como sair deste marasmo, embora saibamos que alguma coisa irá acontecer. Vou-me preparando para piores e mais confusos dias, enquanto não consigo acender a esperança.


 


Algumas coisas boas me aconteceram, no entanto. Consegui manter o peso alcançado em 2011, numa dieta férrea (com alguns precedentes), em que minguei bastante, felizmente. Freud explicaria, com toda a certeza, o fascínio galopante pela culinária e pelo fazer de iguarias que não posso comer, apenas provar muito ao de leve. Mas tenho-me divertido imenso a fazer tartes e folhados, a aproveitar sobras e a experimentar bolos, pudins e até biscoitos.


 



 


Foi uma grande vitória sobre o peso e tem sido uma grande vitória sobre a gula, que espreita a todo o tempo e nunca se dá por vencida. Nunca fiz propaganda do método porque acho que os métodos são todos bons desde que funcionem e não matem da cura. Cada um de nós é que tem que se agarrar a um qualquer plano de emagrecimento, que passa sempre pela redução da ingestão calórica e pelo aumento do gasto, em proporções várias. Fraccionar as refeições e beber umas litradas de água por dia são outros truques para enganar o estômago. O telemóvel funciona bem para nos lembrar de comer, no máximo de 3 em 3 horas.


 


Enfim, depois de ter arranjado uma modista que ajeitasse a roupa ao meu corpo, de camisolas a casacos, de calças a saias, sinto-me uma sílfide capaz de me mexer muito melhor, sem me cansar. Mesmo conseguindo, sem esforço, subir aos bancos para chegar aos armários da cozinha que, inexplicavelmente, estão sempre a uma altura de gigantes, ofereci-me a mim própria um banquinho que comprei no IKEA, onde me empoleiro e me sinto esticada e poderosa.


 



 


Portanto fiquei mais concentrada – nas fúrias, nas resoluções, na determinação, a mesma quantidade de emoções em menor superfície corporal. O que me leva ao objectivo primordial para 2013: sobreviver a mais um ano deprimente e arrepiante que, tudo indica, será pior que este. Não tenho grandes ilusões em relação à capacidade de Cavaco Silva fazer seja o que for para limpar um pouco o ambiente. Esperemos que Paulo Portas dissolva a coligação. No entretanto faço votos para que haja uma imensa luta interna no PS de modo a que se vislumbre uma nova liderança que possa corporizar uma alternativa à esquerda. Mas temo que nos espere mais do mesmo em tudo.


 


Resta-me desejar que passe depressa, o ano de 2013. E que possa defender muito a sustentabilidade do SNS não o utilizando, estendendo essa defesa a toda a população. E que haja algo, mesmo que venha do infinito e mais além, que possa inocular um pouco de decência aos nossos governantes, que dela estão bem afastados.


 

29 dezembro 2012

Prevenções

 


Aguardo o dia em que cada bolo que se ingerir tenha um imposto adicionado, ou a inscrição num qualquer cadastro sanitário, para retirar possibilidades de atendimento ou tratamento no serviço de saúde, cada vez menos nacional. Este tipo de moralismo, assacando a culpa das doenças aos cidadãos, criminalizando costumes e hábitos é assustador e autoritário.


 


Quanto à prevenção, que tal o Ministério da Saúde apostar a sério nos rastreios contra o cancro do colo do útero, só para dar um exemplo? Essa estratégia de prevenção da mortalidade e morbilidade por cancro tem provas mais do que dadas em vários países europeus e, para além da melhoria da qualidade de vida das mulheres, é muitíssimo poupadora de recursos financeiros. Dito de outra forma, talvez fosse mais importante investir em educação populacional, com informação abundante e actualizada, em rastreios de base populacional, em infra-estruturas e curricula que incentivem à prática de desporto e a escolhas de vida mais saudáveis, em vez de ameaças veladas e decretos de autoridade e eficácia bastante duvidosas, para garantir a sustentabilidade do SNS.


 

Duodécimos

 


Não tenho nada contra a distribuição dos subsídios de férias e de Natal por todos os meses do ano. Na realidade esse dinheiro deve ser encarado como parte da remuneração mensal e não como um prémio a dar aos trabalhadores, de 6 em 6 meses. O que acontece é que a entidade empregadora se substitui aos trabalhadores, obrigando-os a uma poupança forçada e disponibilizando-lhes essa poupança 2 vezes por ano. Ou seja, a entidade empregadora fica com o correspondente a 2 meses de ordenado (cerca de 14% da remuneração anual) nos seus cofres, em vez de ficarem nos cofres dos trabalhadores.


 


Por isso não consigo perceber a rejeição, por parte dos trabalhadores e da oposição, da distribuição dos subsídios em duodécimos. O que é essencial é que esse dinheiro seja distribuído e não suprimido, tal como o governo decretou, primeiro para os funcionários públicos, depois para os do sector privado. Contra isso sim, deveremos lutar incessantemente. Agora acho muito bem que o distribuam todos os meses. A minha poupança deve ser por mim decidida, não pela minha entidade patronal.


26 dezembro 2012

Natal

 


Recebi um email que me encheu de alegria. Aos Corações na rua, a minha grande admiração pela iniciativa. Sinto-me agradecida e orgulhosa por ter participado, ainda que indirectamente, dessa jornada.


 



 

24 dezembro 2012

Anjos esquecidos

 



 


Às vezes parece que estes dias formam uma espécie de mundo à parte, uma ponte sobre a vida em que apenas as coisas doces e confortáveis existem. Gostamos de nos sentir assim, sem que a terra seca, as cidades poluídas, a miséria, o crime e a solidão nos assombrem.


 


Natal não é esse estado de levitação. Natal é haver grupos de pessoas que estão junto da noite e da tristeza, varrendo as cinzas e soprando a pouca poeira de luz, iluminando alguns cantos abandonados.


 


E nós, dentro dos nossos quentes agasalhos de afectos, nem sempre nos lembramos desses esquecidos anjos cansados e terrenos, com olheiras, mãos e palavras que curam.


 

Have Yourself A Merry Little Christmas


Ella Fitzgerald

 

Ética

 


Penso que estas declarações do Bastonário reflectem bem a forma como o representante da Ordem dos Médicos lida com as opiniões que divergem da sua. O modo como reagiu publicamente ao parecer do Conselho Nacional de Ética e Ciências da Vida sobre racionamento de medicamentos, ameaçando os médicos com processos disciplinares, e a irrelevância com que desconsidera o documento do Conselho Nacional de Ética e Deontologia Médicas, que não divulgou, são demonstrativos de falta de honestidade intelectual e autoritarismo.


 


O debate e as trocas de informações são essenciais para o esclarecimento e para a tomada de decisões políticas, mais ainda em assuntos extremamente delicados como estes. O Bastonário e a Ordem dos Médicos deveriam ser referências de ponderação e não exemplos de atitudes pouco éticas.


 

História de Carnaval

 



 


Não há dúvida de que o presente recebido pelo governo, com a panóplia de entrevistas e opiniões de Artur Baptista da Silva, era difícil de imaginar. Por muito que a substância possa ser razoável, ninguém leva a sério quem gozou com os órgãos de informação nacionais e internacionais, com a ONU e com tantos economistas e comentadores, fazendo fé nas notícias que desmentem os vários cargos, títulos e especializações da personagem.


 


Ouvimos aquilo que queremos ouvir. Além disso o nosso sentido crítico desliga-se quando alguém se apresenta com as referências de doutoramentos em Universidades estrangeiras, para além da chancela de organizações internacionais sonantes. Devemos todos aprender a lição e olharmo-nos ao espelho. Fica bem ao Expresso e a Nicolau Santos o reconhecimento do erro, mas também a credibilidade do jornalismo de referência foi arrasada.


 


Ao mesmo tempo é de uma comicidade extrema. O desplante do indivíduo é deslumbrante. Portugal deveria exportar burlões. Bem, na verdade exporta: Vale e Azevedo foi exercer em Inglaterra.


 

23 dezembro 2012

Cabazes de Natal

 



 


Na recta final para o Natal, finalizam-se os cabazes. Uma das ideias para os deste ano foi retirada de um blogue, que as tem bastante boas. Fudge (doce de chocolate). É muitíssimo fácil e, pela prova, muito bom:



  • Num tacho coloquei ao lume 400ml de natas, 500g de açúcar e 100g de margarina. Quando começou a ferver espevitei o lume e fui mexendo, até que as bolhas que se formavam diminuíram e ficaram homogéneas (cerca de 20 minutos). Retirei do lume e juntei 100g de chocolate negro para culinária, que se derreteu. De seguida espalhei a massa num tabuleiro forrado de papel vegetal. Agora estou à espera de amanhã, para partir aos bocadinhos, ensacar e enfeitar.


A outra foi a concretização de uma experiência que já tardava - borrachões - são uma espécie de bolachas/ biscoitos, da região da Beira Baixa, que devem o seu nome à aguardente com que são feitos. Mas eu segui uma receita de uma familiar bastante longínqua, que permite usar jeropiga (ou vinho, em vez da aguardente). De facto ficaram uns biscoitos bastante bons, mas nada parecidos com os borrachões que há na terra da minha avó. Enfim, deve ser a inovação geracional.



  • Bati 250ml de azeite com 250ml de jeropiga, 250g de açúcar e 1 ovo inteiro. Depois juntei 1 colher de sobremesa de fermento e cerca de 600g de farinha - digo 600g porque estive a pesar a farinha, pois a receita dizia q.b., que eu detesto, porque nunca sei quanto basta. A referência é a massa começar a desligar do recipiente onde é batida. Nada científico, portanto. Espalhei a massa no tabuleiro de ir ao forno, pincelado com óleo (penso que a margarina derretida fará o mesmo papel e não fritará tão rapidamente). A temperatura é mais uma vez q.b. Sugiro médio até ficarem bem cozidos (aí uns 20 a 30 minutos). Quando acabaram de cozer, cortei a massa em quadrados e polvilhei com uma mistura de açúcar e canela (sobrante das rabanadas, entretanto já preparadas para a próxima noite).


Como não tive paciência para transformar toda a abóbora em compota, os meus cabazes, tal como o lifestyle da Margarida Rebelo Pinto, sofreram um downsizing. Pode ser que se componham um pouco com estas novas iguarias.


 

21 dezembro 2012

Um dia como os outros (122)

 



Não há como negar: temos o primeiro-ministro mais aldrabão, incompetente, irresponsável e perigoso de sempre (desde que há eleições livres, bem entendido).


Vejamos as suas últimas declarações sobre as pensões: um chorrilho de inexatidões, mentiras e acinte. Diz Passos que a denominada "contribuição especial de solidariedade" (CES) é pedida aos que recebem "pensões muito altas". Exime-se, desde logo, de explicitar que para ele as "pensões muito altas" começam nos 1350 euros - primeira aldrabice. E prossegue: esse "contributo especial" é devido por quem recebe essas pensões "por não ter descontado na proporção", quando "hoje os que estão a fazer os seus descontos terão a sua reforma como se esta fosse capitalizada - tendo em conta todos os descontos". Refere-se ao facto de as regras de cálculo terem mudado em 2007, com o primeiro Governo Sócrates (e uma lei aprovada apenas com votos do PS), quando antes se referiam aos melhores dez dos últimos 15 anos ou mesmo ao derradeiro ordenado.


Sucede que, ao contrário do que esta conversa dá a entender, a dita "solidariedade" imposta às pensões a partir de 1350 euros vai direitinha, como aliás esta semana o insuspeito Bagão Félix frisou no Público, para o buraco do défice. Não vai para a Segurança Social e portanto não serve para "ajudar" nas pensões futuras - segunda aldrabice. E se as pensões "mais altas" não foram calculadas com base na totalidade dos descontos, as mais baixas também não - aliás, as pensões ditas "mínimas" referem-se a carreiras contributivas diminutas. Pela ordem de ideias de Passos os seus beneficiários têm o que merecem: pensões baixas por terem descontado pouco. Mas faz questão de repetir que lhas aumentou em 1,1%, dando a entender que a CES serve para tal (terceira aldrabice), enquanto a verdade é que o faz com o corte do Complemento Solidário para Idosos. Ora se nem todos os que recebem pensões mínimas são pobres, o CSI, fulcral na diminuição da pobreza dos idosos nos últimos anos, foi criado para somar às pensões muito baixas de quem não tem outros meios de subsistência. E é aí que Passos tira, com o desplante de afirmar que é tudo "em nome da justiça social" (esta aldrabice vale por cem).


Mas a maior aldrabice, implícita em todo este discurso, é de que a Segurança Social é já deficitária e urgem medidas hoje. Citando de novo Bagão, "o Regime Previdencial da SS, além de constitucionalmente autónomo, até é superavitário (mais receita da TSU do que as pensões e outras prestações de base contributiva)! E tem sido este regime a esbater o défice do Estado e não o inverso, como, incrivelmente, se tem querido passar para a opinião pública".


Sim, Bagão está a falar do seu camarada de partido, Mota Soares, e a chamar-lhe mentiroso. Incrivelmente? Não: devíamos estar todos a repetir o mesmo, todos os dias, em todo o lado, até que este pesadelo acabe. E possamos, finalmente, discutir estas coisas tão sérias com seriedade.


 


Fernanda Câncio


 

19 dezembro 2012

Licor de pêra

 


Quando desci do escadote com o último frasco de cascas em aguardente, não antevi que eram de pêra. Mais precisamente as laranjas e marmelos travestiram-se de pêra-rocha. Nada de espanto que a hora é de acabar as prendas. Mais um fim de tarde envolta em perfume dionisíaco, a cor amarelo esverdeada do licor de pêra, excelentíssima variação inusitada.


 


Já está engarrafado e rolhado, mas os rótulos estavam a faltar. Depois de uma noite de descanso, veio a inspiração, desta vez mais nacionalista que politiqueira:


 


Da lentidão dos dedos

 


É verdade que tenho feito todos os esforços para me manter afastada de notícias. Desligo o Crespo, mudo de canal mal vislumbro a Ana Lourenço, retiro o volume à Judite de Sousa e a todos os (poucos e sempre os mesmos) convidados das várias actualidades televisivas. Ainda vou ouvindo a TSF mas a RFM tem ganho audiência no meu gabinete.


 


Mas as (más) notícias impõem-se como o céu de chuva deste inverno. Os massacres nas escolas do EUA são daquelas coisas que ultrapassam a minha capacidade de entendimento. Não consigo perceber que patologia individual e colectiva é esta que multiplica os tiroteios, ceifando crianças e jovens, em nome de quê ou para quê. Já vi filmes e documentários que abordam este assunto, mas permaneço obtusa.


 


Por cá continuamos com a depressão generalizada causada por um governo de alienados, por um Presidente que se demitiu (e ainda não se/nos deu conta disso) e uma oposição irrelevante.


 


Portugal entristece, envelhece e lentifica. A média etária da população está acima dos 50 anos, pelo menos nas filas das caixas dos supermercados, onde o tempo de ensacar, procurar o dinheiro e contá-lo se multiplicou pela dezena, com os entorpecidos dedos catando moedas, os entorpecidos olhos perscrutando-lhes o valor, a enervada mente fazendo contas. Nas lojas deambulam olhos mais ou menos gulosos em dieta acelerada. Muito antes do downsizing da gente mediática, já o país encolheu e continua a encolher. Abundam os novos e os antigos pobres. Ontem mesmo ouvi uma história de uma miúda que anda 12 Km a pé (6 à ida e 6 à vinda) para ir à escola, não traz almoço e ninguém lho dá. As reunites que atacam tantos docentes poderiam servir para a resolução deste problema. Mas a moda da sociedade civil é só para peditórios e declamações piedosas, não é para o dia a dia da solidariedade.


 


Pois, esqueci-me que a caridade é mais amorosa.


 

18 dezembro 2012

Quadras de Natal (3)

 



Stefano di Giovanni


 


Quero dar ao meu amor


um fio do meu cabelo


ternura branca de dor


rugas fundas em novelo.


 


Minha alma estendida


umas mãos cheias de nada


o resto da minha vida


a seu lado ancorada.


 


A doçura da romã


quero dar ao meu amado


o respirar da manhã


rumor do campo acordado.


 


Quando chegar o Natal


com a penúria enfeitada


em poeira de cristal


serei a noite encantada.


 


E enquanto o tempo quiser


serão meus braços seu manto


sempre que o céu mantiver


o tom cinzento de pranto.


 


E enquanto o tempo poisar


no ombro do nosso amor


nos dias que irão faltar


o mundo será melhor.


 

17 dezembro 2012

Dos vários tipos de marmelos

 


Há que ser divulgar as boas práticas festivas: os licores deste ano resultam da maceração apurada de amoras silvestres, cascas de laranja, sementes e cascas de marmelo em aguardente vínica, desde há 1 ano. Ou seja, os resultantes licores de Amora e de Laranja e Marmelo seguiram a preceito os receituários que já deram provas:



  • Filtrar a aguardente onde estiveram a macerar os frutos, sementes e casacas (guardar as amoras para as mergulhar no licor)

  • Medir o filtrado e fazer um xarope com 750g açúcar para 750ml de água (ferver por 10 a 15 minutos) por cada litro de filtrado

  • Juntar o xarope ao filtrado e levar ao lume até ferver

  • Engarrafar e deixar arrefecer antes de rolhar e rotular; no de amora juntar as ditas.


Todos estes passos requerem animação e bom humor, para os quais as variadas provas de degustação contribuem enormemente, principalmente se houver restos das colheitas anteriores para comparar.


 



 

16 dezembro 2012

Da desconstrução dos doces

 



 


A habilidade está na adaptação às contrariedades. Grandes descobertas se fizeram por acaso, ou porque alguma experiência correu mal.


 


É sempre com esse espírito que enfrento os meus preparados. Na verdade, o doce de abóbora ficou com ponto a mais, descoberto quando a colher de pau se recusou a mover-se presa do dito doce. Por outro lado, a geleia de marmelo ficou com ponto a menos. Eis se não quando a minha mente imaginou de imediato uma conjunção de vontades entre o pétreo doce de abóbora e a mole geleia de marmelo.


 


Pois este fim-de-semana, como já estamos quase no Natal, reuniram-se os membros da Grande Cozinha Semanal, armados de paciência e criatividade. As prioridades estavam bem definidas: sem o doce e os licores nem Jesus nasce. Portanto agarrou-se na panela maior cá de casa e misturaram-se o doce com a geleia. Deixou-se ferver com um bocadinho de água e transformou-se em Doce de Abóbora em cama de Geleia de marmelo, na consistência perfeita.


 


Os licores foram um de laranja e marmelo e outro de amora, que já estão engarrafados. As numerosas degustações afiançam a delicadeza e doçura dos mesmos. Aí não houve surpresas.


 


Enfim, mais um fim-de-semana de exaustão.


 

12 dezembro 2012

Oferta

 



Bonsai


 


Nem sempre sabemos distinguir as nítidas


superfícies a transparência das luzes o brilho


inamovível da memória. Nestas árduas fadigas


de hoje recuperamos a necessidade de sentir


na simples limpeza do olhar a oferta o conforto


do silêncio.


 

09 dezembro 2012

Azáfama pré-natalícia

 



Recuperação do tempo perdido - grande azáfama da Irmandade do Avental - foi a vez do doce de abóbora. Este ano não ficou a macerar de um dia para o outro. Só hoje houve tempo e paciência para atacar a abóbora, que rendeu 3 quilos para o doce e mais um saco dela para congelar. Juntei canela em pau (2/Kg), sumo de lima (não havia limões - 2/Kg) e cravinhos (2/Kg), para além do açúcar, claro. No fim - nozes partidas aos bocadinhos. Está maravilhosa.


 


Ainda produzimos 2 tortas (foi tudo aos pares) com recheio de geleia de marmelo e iogurtes magros de café e canela. A torta fez-se batendo 3 ovos com 150g de açúcar até duplicar o volume da massa; juntámos 75g de farinha e foi a cozer num tabuleiro previamente untado com margarina e polvilhado com farinha, durante 10 minutos, em forno médio.


 


Os iogurtes de café resultaram de uma ideia que me deram outro dia. Segui os passos destas receitas:




  • 1l leite magro (do dia)


  • 2 colheres sopa leite em pó, magro

  • 200g de iogurte natural, magro, sem açúcar (o do Continente é o melhor)

  • 2 saquetas de café instantâneo

  • 1 pau de canela


Fervi 1/2 l do leite com o café e o pau de canela; misturei depois o leite frio e juntei aos iogurtes e ao leite em pó. Deitei tudo nos copinhos da iogurteira que liguei durante 12 horas - vou consumir amanhã, depois de gelarem no frigorífico.


 


Para o próximo fim-de-semana estão programados os licores. Depois do engarrafamento, impressão e colagem de rótulos, tudo estará pronto para as festividades da época.


 



 

08 dezembro 2012

Clima totalitário

 


O que mais impressiona é o clima de perseguição que se instalou na sociedade portuguesa. As notícias dos milhões que alguns ganham e gastam, o apelo à inveja mais mesquinha, o incentivo ao espionar os vícios, pecadilhos e inconsistências de cada um, o insulto permanente aos servidores públicos, a tentativa de criminalização de opções políticas, tudo são razões para destruir pessoas, instituições, ideias.


 


O gozo com que se fala do fato de Guterres ter assumido a responsabilidade por erros durante a sua governação, convidando anteriores governantes a expiarem em público os seus pecados, é assustador e faz lembrar as reeducações dos cidadãos nos antigos países comunistas. A voragem com que se julgam as políticas que olham para o estado como garante de serviços públicos é assustadora.


 


Ainda ontem ouvi um responsável político dizer, com uma voz de evidência absoluta, que não se pode investir em mais linhas de metro no Porto porque a empresa é deficitária. Tudo o que significou em termos de qualidade de vida da população, que tem melhor serviço de transporte, a requalificação urbana a que se assistiu, nada disso é tido em conta. Tal como a destruição do que foi a política de requalificação das escolas, verdadeiramente deprimente.


 


Todos os motivos servem para fazer crer às pessoas que não têm direito a transportes rápidos e de qualidade, a estradas seguras que permitam rápidas ligações terrestres, escolas confortáveis, seguras, agradáveis e estimulantes, centros de saúde e hospitais onde se tratem os doentes com qualidade e dignidade, reformas que permitam uma vida acima do limiar de pobreza.


 


O que mais impressiona é termos governantes que consideram óbvia a necessidade de não se responsabilizarem, enquanto representantes eleitos, pelo bem-estar dos seus concidadãos.


 

02 dezembro 2012

Marmelada com jeropiga

 



 


Com tanto atraso, já só sobrou quilo e meio de marmelos, depois de devidamente lavados, descascados e dessementados. Cozidos em jeropiga, transformados em puré e misturados com o mesmo peso em açúcar, assim se degustou a marmelada resultante, depois de fervilhar por meia horita no tacho, afanosamente mexido com a colher de pau, para não deixar queimar. Está vermelha escura, como convém, com uma textura granulosa e consistência suficiente para não babar o pão ou as bolachas (ou o queijo, ou simplesmente e só a ela própria).


 


As cascas e as sementes, já devidamente amolecidas durante horas em água a ferver, aguardam a filtração e ponto com açúcar (1l de líquido/1kg de açúcar), para a famosa geleia de marmelo.


 


A abóbora, ou deverei dizer as abóboras, espreitam o próximo feriado de 8 de Dezembro (que não sei se é feriado ou se já foi e nunca mais será, mas sei que é sábado). São enormes e prometem um fim-de-semana em cheio. Vou dar tratos à imaginação para inventar um doce de abóbora diferente para este ano.


 

Uma estrelinha que os guie

 



 


Este é o tema a que não é possível fugir, neste Natal de 2012. Como sempre a Barbearia cá do bairro está atenta e disponível para angariar vontades e promover os debates necessários, em sede natalícia, entre tesouradas e aparadelas capilares.


 


Aqui vai o contributo deste Quadrado, que fornece bastão e o monograma, infelizmente em desuso.


 


Boa sorte e que se encontre a estrela guia.


 

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