13 novembro 2010

Explicação da Pedra


 


 


Esticamos os ramos


abraçamos os dias


esquecemo-nos que o tempo não existe


apenas o ar a terra o fogo a água


apenas a metamorfose da terra


dos rios da luz dos pássaros


apenas a transformação da dor num tecido firme


branco imóvel


na pedra.


 


Rompemos as redes as linhas


traçamos limites arestas esquinas


arquitectos da solidão num mundo de cor e gritos


na confusão dos sentidos hiper-estimulados.


Abrimos os poros


somamos enzimas


degradamos a vida


depuramos a morte.


 


Nos jardins dos silêncios que julgamos eternos


erguem-se as fontes da rigidez suprema


o vazio


o abandono.


Olhamos em volta e percebemos granitos soberbos.


Quem são?


 


Nem sempre sabemos dos ácidos reciclados


dos cristais de pureza guardados lá dentro.


Nem sempre descobrimos


a fenda fatal que corta e expõe a alma o fundo.


Nem sempre queremos a ferida o sangue


estilete que aguarda a pele desnuda.


 


No fim


se ele existe


segue a erosão permanente


nas costas nas mãos nas dobras da vida


na concha na pérola.


Areias mais grossas areias finíssimas


povoam as praias povoam os ventos.


Somos nós que descremos na posse na carne


sementes e pedras acasos em ciclos perpétuos


que unem aquilo que sempre e teimosamente desprezamos.

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