06 julho 2008

Revoltante


 


O fascínio que me causam as pessoas que são capazes de lutar e de arriscar tudo por uma causa, por aquilo em que acreditam, sem olhar ao sacrifício que se impõem e sem olhar ao sacrifício que, indirectamente, impõem aos que as amam, é enorme.


 


Ingrid Betancourt é uma dessas pessoas. Assisti emocionada à alegria da sua libertação, à sua chegada, às suas lágrimas, às suas manifestações de ternura para com todos, aos abraços e beijos, à sua total entrega à renovação da liberdade.


 


Não faço ideia daquilo por que terá passado, a falta de condições higiénicas e de salubridade mínimas, de sono descansado, de medicamentos, de intimidade, de privacidade, de comida e, sobretudo e acima de tudo, de liberdade, de toque humano, da mãe, dos filhos, do marido, dos companheiros, a constante luta pela sobrevivência, as depressões, os guardas, os companheiros de infortúnio em quem se terá apoiado.


 


Apenas posso imaginar os insectos, as pedras, o sol abrasador, o frio da noite, a humidade, a porcaria, os cheiros, o corpo que tropeça, as correntes, as algemas e as cordas, os risos, os olhares que a viam despida, doente, incoerente, necessitada, desesperada, a rezar, a gritar ou a chorar. Provavelmente a realidade ultrapassou, em muito, a minha ficção.


 


Ela e todos os que antes, ao mesmo tempo e depois dela, na Colômbia ou noutro lugar qualquer, são vítimas de ladrões, terroristas, traficantes de droga, ou de armas, ou de mulheres, ou de crianças, ou seja lá do que for, sob capas de movimentos políticos defendendo direitos humanos e democracias, que usam e submetem populações a regimes de terror e intimidação para colaborarem, apresentando-se como seus libertadores.


 


É inaceitável que o facto de Álvaro Uribe ter ligações ao narcotráfico e dirigir um regime pouco recomendável sirva como justificação à existência e à actuação das FARC. As posições conhecidas e as explicações do PCP como partido político e de alguns comentadores, em defesa implícita ou explícita das FARC, que até se espantam por Ingrid Betancourt não estar a morrer, são incompreensíveis e demonstram uma cegueira e um preconceito que os isola cada vez mais do mundo real.


 


A ligação entre as FARC, o narcotráfico e políticos como Hugo Chavez, provada por descobertas feitas aquando da apreensão de um computador de um dos líderes das FARC, não os comove. No entanto, as teorias da conspiração à volta da operação que libertou Ingrid Betancourt e outros reféns pululam.


 


Se foram israelitas, americanos, colombianos ou franceses, se subornaram combatentes revolucionários ou se infiltraram a organização, o que interessa é que o fizeram sem disparar uma única bala. Ou de que é que desconfiam? Que Ingrid Betancourt e os seus companheiros estiveram em cativeiro a representar uma farsa, para darem trunfos a Álvaro Uribe?


 


Qual a credibilidade do PCP, neste momento, em que enche a boca com a defesa das conquistas de Abril e das classes trabalhadoras? Qual o crime de Ingrid Betancourt e dos seus companheiros de sequestro?


 


É revoltante.

5 comentários:

  1. Também me questiono sobre esta "alienação"! Como se, e ainda que...um "mal" desculpasse outro! Mas, também creio que não adianta, estão demasiado fossilizados no próprio modo de equacionar as questões! Resta não pactuar!

    ResponderEliminar
  2. A Sofia disse tudo. É revoltante !!!

    ResponderEliminar
  3. Continuam a ler-se alguns comentários que põem em causa nem se percebe bem o quê. É uma tristeza.

    ResponderEliminar
  4. Talvez alguém que leia este comentário saiba que já fui militante do PCP, aliás fui-o até há pouco tempo. Este tipo de posições políticas é a norma, e se não tivesse já entregado o cartão de militante na sequência da declaração do PCP em relação aos motins no Tibete, fá-lo-ia agora.

    ResponderEliminar

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...