10 setembro 2007

Lágrima de preta



Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

(poema de António Gedeão – 10 de Setembro de 1959)

4 comentários:

  1. Donagata19:42

    Era um dos poemas que eu trabalhava com as minhas crianças e que elas adoravam. Dos tais que eu acho que podem ser para crianças mesmo que feitos para sensibilizar adultos.
    Quanto a mim, é claramente um dos que trago sempre comigo.
    E o manuscrito???

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  2. Sofia Loureiro dos Santos21:15

    O manuscrito está na Biblioteca Nacional digital. Tem preciosidades várias, não só do António Gedeão.
    http://bnd.bn.pt/

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  3. Há química (nesta química)...

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  4. Rui Rebelo03:01

    lindo! não conhecia. obrigado.

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