21 março 2021

Margarida

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Egon Schiele


 


Margarida consolada


Pelo sol da Primavera


Foi da nuvem deserdada


Tanto verde desespera


 


Margarida veste branco


Rasga a pele devagar


Que a memória é solavanco


Da fogueira a esfriar


 


Margarida gasta as mãos


Em tantos corpos de vento


Decepadas por irmãos


Sem espadas com talento


 


Margarida cava o mundo


Com arados de esperança


Arrepende-se num segundo


Que uma flor também se cansa


 


Margarida já não chora


Pela vida que enlutou


Fecha o sol e vai embora


Que esta terra já secou


 


Margarida não se sente


Tem a alma ressequida


Dispersou-se em semente


Pode ser que volte à vida


 

20 março 2021

Dos modernos e virais enigmas

O aumento de novos casos de COVID-19 na Alemanha, França e Itália será devido a algum Natal tardio, à antecipação da Páscoa ou ao Carnaval?alemanha.jpg


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E Portugal, passou de ser uma vergonha europeia (mundial) para um modelo de comportamento cívico?


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Da obesidade dos confortos

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Depois de tanta pesquisa e procura detectivescas, incessantes visões de almofadas, mantas e travesseiros, em todas as lojas de decoração online, tenho, neste momento, uma cama muitíssimo confortável, com inúmeros almofadões, um rolo e cobertas fantásticas.


Muitíssimo fashion e confortável, a minha cama está fantástica, digna de qualquer MasterChef decorativo.


Não sobra é muito espaço para me deitar. Tenho que espalhar as confortáveis e lindas almofadas por todo o lado.


Não há fome que não dê em fartura.

07 março 2021

Da clarividência lusa

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Portugal e os portugueses são tão avançados, tão à frente e de uma clarividência científica tão especial, que depois de décadas a discutir o novo aeroporto, a sua localização e especificidade, afinal nem vai ser preciso construí-lo porque provavelmente vai deixar de fazer sentido apostar nos transportes aéreos e nos aeroportos.


Isto é que é avanço e previdência!

05 março 2021

Geometrias

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Marisol Escobar


 


Nunca aceitei geometrias de comportamentos simétricos


adequados a género e idade pés em bico empoleirados


pernas pesadas a espreitar pelas saias


casacos assertoados decotes a condizer


cabelos disciplinados lábios de rosas


anéis pulseiras colares arrebiques de senhora


que se acomoda nas vestes do seu destino.


Mas sobretudo nunca entendi o calar dos sentidos


dos desejos dos impulsos da vontade de abraços beijos


de gostar de quem se gosta muito ou tudo


sem cuidar dos outros das conveniências das inusitadas


e estranhas regras da sociedade.


Talvez porque o estado de adulto ainda não fez caminho


que chegue lá onde estão as memórias


e a imperiosa necessidade de amar e ser amada.


 

28 fevereiro 2021

Compota de maçãs e laranjas

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Mas enfim, no intervalo de tão maravilhosos e instrutivos programas, dá-me para criar compotas, cujas voltas e reviravoltas acabam por dar sempre no mesmo.


Desta vez juntei 1 Kg de maçã vermelha, já descascada e sem caroços, a 1 Kg de sumo e polpa de laranja e a 1 kg de açúcar amarelo.


Usei o espremedor de citrinos e aproveitei toda aquela polpa que fica ao espremer, pesei tudo até dar 1 Kg - foram 6 laranjas grandes e sumarentas. Deitei para um enorme tacho que só uso nestas ocasiões (já foi o tacho das feijoadas, em alturas de grandes aglomerados de pessoas que gostavam de comer e beber) e fui enchendo com os quartos das maçãs, para que não oxidassem (depois de pesar, claro); só parti aos bocadinhos depois. Para além do açúcar temperei com 4 cravinhos e 4 paus de canela.


Esteve bastante tempo ao lume. Quando começou a ligar reduzi a um puré grosseiro com a varinha mágica, depois de retirar a canela e o cravinho, e voltou ao lume, até fazer ponto de estrada.


Não está nada mal, a sério.

Para contornar a fadiga pandémica

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A fartura de ouvir falar da pandemia, dos casos, dos mortos, dos hospitais, dos internamentos, das UCI, dos virologistas, dos jornalistas, é tanta, tanta, tanta, tanta, que estou fã dos mais inusitados programas televisivos.


É verdade. Descobri algumas pérolas que não perco.


Papo tudo o que tem a ver com obras e remodelações de casas. Estou catedrática em open concepts e em destruir paredes, daquelas de madeira e papelão, que fazem as delícias dos Property Brothers, do Love it or List it, ou de qualquer outro dos infindáveis modelos de mudar uma casa do dia para a noite – bem, é mais em 4 semanas – e fazer com que os felizes vendedores ou moradores se sintam em casas de revistas de decoração. Penso mesmo que nunca conseguirão usar tão fantásticas cozinhas, tão maravilhosos jardins e tão luxuosos ensuite bathrooms, para não estragarem nada.


Isto para não falar dos já velhos e ultrapassados programas de culinária – MasterChef, 24Kitchen e que mais haja, para miúdos e graúdos, que eu fico horas a aprender a fazer variados e espampanantes cozinhados, luxuriantes, sedosos, saudáveis, vegetarianos, asiáticos, portugueses, japoneses, italianos, tailandeses, mesmo que depois não ponha nada em prática. É só para me deliciar com os sabores e os aspectos, alguns truques que já incorporei (na cozinha tudo se incorpora), mas na maioria das vezes é apenas a sublimação de uma escrava de dietas.


Mas agora estou mais voltada para facas, facalhões, espadas, machados, setas, enfim, tudo o que corta, fere e mata.


Descobri, ou sejam deram-me a descobrir, um programa no canal História, que se chama Forged in Fire. O que tem isto a ver com História é um mistério, mas isso são ninharias e picuinhices, portanto ser do canal História, Odisseia ou Hollywood é a mesma coisa.


Ora esse programa não é mais que um MasterChef, mas de ferreiros.


O concurso consta de um grupo de ferreiros, profissionais ou amadores, ainda não percebi muito bem, que têm um determinado número de horas para fabricar uma faca. Há um júri, composto por 3 indivíduos, tanto quanto percebi experts em tudo o que corte, fira ou estripe, um com uns bigodes retorcidos, outro com um sorriso assustador e outro magrinho e com olhos alucinados. Há ainda o apresentador, que foi militar, com umas orelhas bastante proeminentes e uma pose marcial espectacular.


Habitualmente os concorrentes têm aspecto e arcaboiço condicentes com ferreiros: enormes nas várias dimensões corporais, muito frequentemente com adornos pilosos exuberantes, outras vezes de cabeças bastante rapadas. Mas o mais divertido é que são extremamente dóceis e polidos, aceitando sempre com grande urbanidade e desportivismo as críticas do júri e debandam depois das eliminações a que são sujeitos, sem usarem as ditas armas brancas que acabaram de fazer.


E muito espantada fico com a ciência e a enorme trabalheira por detrás de qualquer simples navalha. Há imensos tipos de metal, que se podem ir buscar a correntes de bicicleta ou a restos de tanques de guerra, que se misturam, aquecem e batem como o Cétautomatix do Astérix. Depois há a têmpera, que é o mergulho do metal incandescente em óleo, para que a lâmina fique dura. E ainda o cabo, todo um outro manancial de conhecimento e preparação, importantíssimo para o manejo da arma.


São habitualmente 4 concorrentes que vão sendo eliminados até ficarem 2. Esses têm depois uma semana para, na sua própria casa (forja), fabricarem uma arma icónica e histórica – talvez daí ser no canal História, quem sabe - que vai desde uma espada chinesa de tempos imemoriais a um machado com cachimbo dos índios americanos.


A final é entre esses 2 ferreiros e as suas obras são submetidas às provas mais inconcebíveis: bater em blocos de gelo, em troncos de madeira, cortar carcaças de porcos, furar e estripar bonecos feitos de gel balístico, cortar canos de água, enfim, tudo para ver se o gume aguenta, se o corte é limpo e se, no fim, como diz o jurado de sorriso assustador – your blade will kill.


Portanto para me afastar da paranóia da pandemia estou a transformar-me numa maníaca de facas – só espero que me mantenha tão contemplativa como com as opíparas refeições servidas e degustadas apenas com a imaginação.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...