07 agosto 2023

Da simplicidade

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Parece tão simples e lógico. Ditas pelo Papa as palavras têm uma ressonância ligada à fé, aos preceitos dos que pertencem a uma comunidade religiosa.


Mas o que o Papa disse, de uma forma assertiva e, para a Igreja, revolucionária, é exactamente o fundamento do cristianismo e de todos os que olham para a vida e lhe vêm a essência, o que, de facto, importa.


Uma sociedade inclusiva, que olha e toma conta dos que mais necessitam, que não distingue a etnia, a cor, a religião, o estatuto, o poder, seja ele de que tipo for, uma sociedade que dá mais importância ao outro que a si próprio, que divide, que partilha, que é tolerante, que é livre.


Amar e ser amado, fazer alguma coisa por alguém.


Parece tão simples e lógico.


 



IF I CAN STOP ONE HEART FROM BREAKING


 


If I can stop one heart from breaking,


I shall not live in vain;


If I can ease one life the aching,


Or cool one pain,


Or help one fainting robin


Unto his nest again,


I shall not live in vain.


[Emily Dickinson]


 


AL CABO


 


Al cabo, son muy pocas las palabras


que de verdade nos duelen, y muy pocas


las que consiguen alegrar el alma.


Y son también muy pocas las personas


que mueven nuestro corazón, y menos


aún las que lo mueven mucho tiempo.


Al cabo, son poquísimas las cosas


que de verdad importan en la vida:


poder querer a alguien, que nos quieran


y no morir después que nuestros hijos.


[Amalia Bautista]



 


E é sempre tão difícil.

23 julho 2023

Remate

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À minha esquerda, em cima da secretária, o meu chapéu de palha comprado em Apt. Está calor e sinto um apaziguamento que se vai tornando cada vez mais raro. Na televisão Jessica Fletcher continua a ver Cabot Cove encolher de gente, tantos os cadáveres dos assassinados e, consequentemente, os brilharetes por ela desvendados.


Nada melhor para um sábado de manhã. E o chapéu faz-me lembrar alguns episódios mais ou menos caricatos da nossa viagem por terras de França.


Um episódio digno de nota foi a nossa chegada a Toulon. Armados de waze, seguimos aplicadamente as instruções repetidas desesperadamente quando não virávamos para onde nos era determinado. Mas havia muitas ruas que estavam barradas com pilares, abertas apenas a moradores. Depois de várias voltas, estacionámos o carro e fomos a pé descobrir o hotel.


A nossa atitude de estrangeiros perdidos chamou a atenção de um senhor muito magrinho, com sinais evidentes de cirurgia cervical, com a pele mais escurecida que a nossa, com roupas largas e enxovalhadas. Dirigiu-se a nós simpaticamente e, quando percebeu o que se passava, foi levar-nos ao hotel. Não contente com isso, para nos ensinar o caminho de carro, pois o hotel tinha parque de estacionamento e, a pé, era longe, entrou no carro e indicou-nos o caminho.


Ao chegarmos ao hotel, oferecemos-lhe uma nota para lhe agradecer. Ele recusou veementemente e nós ficámos envergonhadíssimos pelo nosso gesto, com grande receio de o ter ofendido. De facto estamos mais ou menos habituados a esta simpatia da parte de arrumadores de carros. Fiquei a pensar que, provavelmente pelo seu aspecto magrebino, concluímos que fazia parte desse grupo. Ou seja, sentimo-nos horrivelmente mal, espantados e agradecidos pela disponibilidade e generosidade de alguém que nunca tínhamos visto e que não iríamos encontrar mais.


Outro episódio foi o que se passou em Cannes, também no hotel. Ao pequeno-almoço, a senhora que estava a varrer o pátio e a limpar as mesas ouviu-nos falar português, abriu um sorriso cúmplice e cumprimentou-nos também em português. Encetámos uma pequena conversa, ficando a saber que era cabo-verdiana emigrada em França.


O recepcionista, que nos queria esclarecer de alguma coisa, depreendendo que não nos sabíamos exprimir em francês, pediu à senhora que fizesse de intérprete. Gerou-se uma confusão porque nós respondemos em francês, ela já não sabia em que língua deveria falar e o recepcionista ficou todo baralhado.


Como se vê, os hotéis foram sede de várias situações inusitadas. Em Nimes, depois de nos instalarmos a descansar após a viagem, a primeira coisa que o meu encalorado marido fez, como sempre fazia, foi ligar o ar condicionado. No entanto o aparelho ficou mudo e quedo, apesar das várias tentativas e intervenções realizadas pelo meu desesperado companheiro.


Ligou para a recepção, já ligeiramente irritado, e seguiu as instruções que lhe deram. Mas o efeito foi nenhum. Ligou de novo para que alguém fosse reparar a avaria do ar condicionado.


Entretanto, eu tinha-me instalado confortavelmente, recostada na cabeceira da cama, com o portátil sobre os joelhos ligado a uma tomada que estava estrategicamente mesmo atrás da mesa de cabeceira, tendo desligado o inútil candeeiro, a ouvir vagamente a TV.


Quando o recepcionista chegou, muito simpático, olhou para o aparelho e a seguir foi à minha mesa de cabeceira, apontando a tomada onde estava ligado o portátil. Foi explicando sorridente que eu tinha desligado o candeeiro.... e o ar condicionado; por isso não funcionava.


E Apt, para além dos chapéus de palha, deixou-me uma marcada impressão. Suspeito que também eu, embora sem querer, deva ter deixado alguma na Farmacêutica que me atendeu, quando a ela recorri e, no meu mais fantástico francês, pedi que me desse toilettes.


Depois de um silêncio espantado por parte da Farmacêutica, que me olhou com um ar meio assustado, disse: "Ah, mais oui, lingettes!"


Confesso que fiquei sem perceber o alívio dela, mas alguém a meu lado me esclareceu, quando saímos da Farmácia: "Pode dizer-se apropriadamente que a utilização de toilettes dispensa a utilização de lingettes. Em contrapartida, as toilettes são menos portáteis que as lingettes..."


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Enfim, peripécias várias que marcam pormenores de que não nos esquecemos mais.

03 julho 2023

A chave

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Pinheiros


Hasegawa Touhaku


 


A minha mãe vai buscar


O meu anel de noivado


Para que possa enfeitar


O meu amor de brocado


 


A minha mãe vai soprar


As folhas envelhecidas


As aves vão recriar


Melodias esquecidas


 


A minha mãe vai benzer


Bordados que nunca fiz


A fome de bem-querer


Os muros que nunca quis


 


A minha mãe vai guardar


A chave que não me entrega


No cofre do seu olhar


O canto que me sossega

01 julho 2023

Vertigem

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Is There Hope


Gary Christian


Saboreio a solidão
Como um abraço de mar
Perco-me na imensidão
No delírio de afundar

Cubro o mundo com o véu
Que inventei só para mim
Entre os olhos e o céu
Uma fronteira sem fim

No vício desta vertigem
Que me faz voar por dentro
Concentro-me na origem
Buraco negro no centro

Vou morrendo nesta luz
De um silêncio que arrebata
Uma ausência que seduz
Um nó górdio que se ata

Pode ser que venha a paz
Manto seguro e constante
Com que a alma se desfaz
Num futuro já distante

11 junho 2023

Arraial

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Alcindo Barbosa


Não há santo que nos valha


Nem demónio que nos tente


Pois a sorte que nos calha


Está no fado que é da gente


 


Está no fado que é da gente


E no sol que nos aquece


Na saudade que desmente


O que a alma não esquece


 


O que a alma não esquece


Na memória que há da terra


Na viagem que merece


O saber que o mar encerra


 


O saber que o mar encerra


Na vida que o tempo traz


No sonho que me desterra


No vento que me desfaz


 


No vento que me desfaz


Nos braços do meu País


Na casa que colhe a paz


Do mundo que sempre quis

Marseille

Chegámos cedo a Marselha. O hotel fica muito perto do Vieux-Port, da Grotte Cosquer e do Musée des Civilisations de l'Europe et de la Méditerranée (MuCEM). O dia estava muito bonito.


Fomos a pé até ao Vieux-Port, passando pela Cathédrale Sainte-Marie-Majeure, construída no séc. XIX num estilo neobizantino, ao lado da antiga, datada do séc. XII. É imponente e majestosa (demasiado), sobressaindo na paisagem como uma nota fora de tom.


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Em janeiro de 1943, após a ocupação alemã, Marselha foi palco de uma rusga, em que as tropas nazis prenderam cerca de 6.000 residentes no chamado "bairro criminoso", junto a um dos lados do Vieux-Port (onde está localizado o hotel onde ficámos). Foram deportados os judeus e, após esvaziarem totalmente o bairro, dinamitaram-no e destruiram-no. Marselha foi libertada poucos dias após o desembarque aliado na Provença (Operação Dragoon).


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Almoçámos numa espelunca, da qual só nos apercebemos depois de nos sentarmos. Comemos as piores moules frites de que há memória e fomos até à Basilique Notre-Dame-de-la-Garde (La Bonne Mère), construída no séc. XIX, dedicada a Notre-Dame-de-la-Garde, padroeira de Marselha. Fica no cume da colina de Notre-Dame-de-la-Garde, de onde se tem uma vista magnífica sobre Marselha.


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De tarde fomos à Grotte Cosquer, uma gruta submarina com pinturas rupestres, descoberta em 1991, por Henri Cosquer. Tal como para a Grotte Chauvet, foi feita uma réplica exacta da gruta, que abriu ao público apenas em junho do ano passado, permitindo as visitas e o estudo sem danificar a original. Calcula-se que tenha sido frequentada entre os 33.000 e os 19.000 de anos AP. Nas paredes e tectos, há pinturas de cavalos, bisontes, felinos e, achado raro, de focas e pinguins, para além de negativos de mãos. Não cesso de me surpreender com estes artistas pré-históricos.


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O dia seguinte estava destinado ao passeio pela cidade. Pois de todos os dias que passámos em França, sempre com um tempo ameno e agradável, S. Pedro escolheu este para a chuva, que caiu desde a manhã, miúda mas persistente, mantendo-se por quase todo o dia.


Pouco preparados para as intempéries, mas confiantes no apaziguamento da natureza, metemos pés ao caminho. Ao fim de pouco tempo estávamos totalmente encharcados. Comprámos uns guarda-chuvas numa loja de brique à braque (de chineses) e continuámos. Contornámos o Vieux-Port e seguimos pela La Canebière, uma larga avenida que atravessa o coração de Marselha desde o Vieux-Port, com uma actividade comercial assinalável, de onde partem várias ruas para os bairros mais interiores.


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Aventurámo-nos por um deles, que descobrirmos ser o bairro árabe de Marselha (Noailles). As ruas estreitas, mercados a céu aberto, onde se falavam várias línguas, incluindo o francês, onde as inúmeras lojas de produtos orientais tinham os nomes escritos em francês e numa outra língua árabe. Enorme bulício, muita gente, muitas cores, frutas, carne, legumes, ervas aromáticas, tomate, pimentos, courgettes, laranjas, muitas especiarias que deixavam no ar aquele aroma inconfundível. Dava mesmo a sensação de estarmos em Marrocos.


A quantidade de lojas de sabão (mais ou menos) artesanal é extraordinária. A fabricação de sabão em Marselha data de 1370. Tem as suas origens no sabões milenares provenientes da Síria, utilizando-se o azeite e o louro. Fiz o que me competia e comprei uma amostra variada.


Aproveitámos a tarde para visitar o MuCEM. Com tantas exposições ao dispor, optámos pela Le Grand Mezzé", sobre a dieta mediterrânica, suas origens e importância cultural e nutricional. Muito, muito interessante.


Esta exposição situa-se no rés-do-chão. Havia muita gente nas bilheteiras, e o ambiente estava húmido e peganhento, por causa da chuva. Na fila para a compra das entradas, houve um momento cinema mudo que muito apreciei. Na sua imponente figura de Achille Talon, com o guarda-chuva debaixo do braço, qual arma perigosa e letal, o meu querido acompanhante deixava cair sequencialmente algum dos muitos papéis, mapas, carteiras, etc., que tinha nas muito ocupadas mãos. De cada vez que se inclinava para as retirar do chão, o guarda-chuva ameaçava quem estava atrás, fazendo com que houvesse uma onda de gente que se afastava assustada. Ao ouvir os murmúrios das várias pessoas espantadas, virava-se para cada lado, perguntando da sua culpa e penitenciando-se da mesma, varrendo lateralmente as gentes com o mesmo guarda-chuva, provocando novas ondas e novos protestos mais ou menos indignados.


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Quando chegámos à porta de entrada da exposição, a senhora que aceitava os bilhetes disse terminantemente que tínhamos que deixar os guarda-chuvas de fora, apontando um cesto com algumas dessas temíveis armas. Hilariante.


O jantar foi calmo. Despedimo-nos de Marselha e de França. No dia seguinte partimos para Lisboa, cansados mas felizes.


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08 junho 2023

No trigésimo sexto dezasseis de maio

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Aix-en-Provence prometia. Cézanne é um dos meus pintores favoritos. A sua história passou por Aix-en-Provence, pelas paisagens, pelo mistral que nos abanou no caminho, pelas cores e pela forma do monte de Saint Victoire.


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Hotel Le Mozart


Bem instalados no Hotel Le Mozart, fomos a pé até ao Atelier de Cézanne, local onde pintou nos seus últimos anos de vida.


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Uma casa alta, com 3 andares. O Atelier que visitámos (bilhetes a 9 € com vídeo guide) não era mais que uma sala no 1º andar, onde se encontravam vários objectos, roupas, pincéis, caixas de tinta, escadotes, cómodas, jarros, mesas e fruta, os modelos das suas naturezas mortas. Confesso que me senti ludibriada por esta mini visita guiada. Não sei o que esperava, mas certamente era muito mais do que o que vi.


Cézanne viveu e morreu naquele local; foi em Aix-en-Provence que conheceu e se tornou amigo de Émile Zola, amizade que terá terminado a propósito de um livro escrito por Zola - L'Oeuvre - cuja personagem principal era inspirada em Cézanne. A história de que teria sido essa a razão de uma grande zanga entre eles já foi posta em causa. Um grande pintor de cores e formas, em que a geometria que desenhava estava presente em toda a natureza.


Sendo o trigésimo sexto dezasseis de maio desde que nos tínhamos casado, decidimos comemorar o dito com um belo repasto. Foi em La Brocherie, onde o aperitivo de champanhe iniciou uma excelente refeição: Poêlon du Pêcheur (para mim) e Côtes d’Agneau aux herbes de Provence (para ele), bem regada (Château La Dorgonne) e bem terminada com La crème brûlée à la lavande (para mim) e L’Assiette de Fromages (para ele).


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Longa já, esta viagem a dois (depois a três, depois a quatro), por vezes rápida, por vezes vagarosa, outras inesperada, outras dolorosa, mas sempre, sempre o nosso caminhar.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...