A notícia da morte do Otelo Saraiva de Carvalho magoou-me e surpreendeu-me. Magoou-me, por se tratar de mais um amigo que parte. Surpreendeu-me, porque estive, recentemente, com o Otelo, no funeral da sua mulher, e achei-o, naturalmente, abatido, mas, aparentemente, com vigor e saúde.
Conheci o Otelo na Guiné, onde o substituí na Direcção da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe. Tornámo-nos amigos. Foi, aliás, essa amizade que me levou a testemunhar em seu favor no julgamento a que foi submetido, apesar de muitos reparos e apelos para que o não fizesse.
O Otelo era um homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista – contraditório, mesmo. Adorava representar, até na vida real, esquecendo que a representação exige um espaço delimitado, em que tudo o que aí é normal não o é na vida real.
Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida.
E penso assim porque entendo que um Homem é uma unidade e continuidade, uma totalidade complexa, e que só é bem julgado quando considerando, historicamente, esse quadro e o seu contexto. Mas há homens que, num momento histórico especial, se ultrapassam, ganhando dimensão nacional, indiscutível, porque souberam perceber e explorar uma oportunidade histórica única, e sentir os anseios mais profundos do seu povo.
Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.
António Ramalho Eanes
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
26 julho 2021
"A ele a pátria deve"
24 julho 2021
De Granada a Antequera
Antes de nos dirigirmos a Antequera pareceu-nos uma boa ideia visitar a Sierra Nevada, subindo a um dos seus picos, mais precisamente ao Pico Veleta. A estrada é bastante boa e a paisagem é sumptuosa e inspiradora.......
.......... e absolutamente assustadora para quem, como eu, sofre de acrofobia. Foi um sofrimento fazer aquela estrada a subir, e depois a descer, de tal forma que acabámos por desistir aos 2500 metros.
Uma pena, de facto, que me faz sentir culpada. Mas a sensação de queda iminente, os suores frios, enfim, todos os sinais e sintomas de alguém tresloucada em pânico, por muito maravilhosa que sejam as vistas e muito decepcionante que seja a frustração.
Parámos num miradouro e pudemos apreciar a paisagem, embora de uma altura menos impressionante que a do Pico Veleta. Mas tenho um companheiro muito compreensivo, pelo que lá nos dirigimos para Antequera, sem mais delongas. Cruzámo-nos com imensos ciclistas, o que me deixou muito espantada, pois a subida é mesmo a sério, tal como a descida.

Foto que NÃO tirei na Sierra Nevada
Chegámos a Antequera à hora de almoço. O Parador, perto do centro da cidade, é mesmo muito agradável e fomos muito bem recebidos. As refeições eram servidas no bar da piscina o que, à noite, é uma beleza, com uma serenidade e uma paisagem que nos concilia com todos os (nossos) defeitos.
Quando nos preparávamos para visitar o museu da cidade, houve um acidente, algo inevitável em qualquer viagem que tenha feito. Normalmente sou eu que caio, ou tropeço, ou outro incidente que me deixa irritadíssima e com um pé, um dedo, um joelho, etc., em mau estado.
Mas desta vez não fui eu! O meu companheiro deu um valente porrazo, numa curva do passeio particularmente íngreme e escorregadio, ficando com um pé em posição anacrónica e irregular, acompanhado por um clic.
De imediato surgiram 3 homens do nada - um deles de um carro parado no semáforo - que o ajudaram a levantar-se. Gente muitíssimo simpática e solidária. Já em Granada, depois da visita a Alhambra, exaustos do calor, resolvemos apanhar um taxi para o Hotel. A paragem de taxis estava deserta, nomeadamente sem os ditos. Depois chegou mais uma cliente com a sua filha que, muito simpaticamente, ligou a pedir um carro para ela e outro para nós! E partimos primeiro, porque estávamos lá antes dela. Fartámo-nos de dizer gracias, gracias, gracias.
Mas um clic com um porrazo daqueles obrigava a um RX, para excluir (ou confirmar) uma fractura. E foi assim que visitámos o SNS espanhol, mais especificamente Andaluz. Atenderam-nos com alguma dificuldade, por causa da língua, mas tudo correu como se fosse em Portugal. Depois de 2 horas, de lá saiu um casal aliviado, com o elemento masculino a coxear e com o pé atado de ligaduras e a indicação de congelar o pé e... dar tempo ao tempo.
Mesmo assim não desistimos. No dia seguinte lá fomos ao museu da cidade, não sem antes tentarmos uma incursão pelo Torcal de Antequera, um afloramento de rochas em que os diversos agentes de erosão levaram a formas muito estranhas e exóticas, para dizer o mínimo. Mas a minha fobia atacou de novo, pelo que acabámos por dar meia volta e regressar.

Foto que NÃO tirei do Torcal de Antequera.
O museu não nos impressionou por aí além. No entanto tem em exposição uma estátua de bronze - o efebo de Antequera - do séc. I do Império Romano, descoberta em 1955. Está em perfeito estado de conservação, faltando-lhe apenas o polegar da mão direita.

Experimentámos também a porra antequerana, uma espécie de gaspacho mas bastante mais espesso. Não fiquei fã, confesso.
Mas gostei muito de Antequera, apesar do porrazo.
21 julho 2021
Antes de Antequera*
Granada, a cidade das romãs.

Por todo o lado há ruas estreitas que sobem e descem, íngremes e deslizantes, escadas e escadarias, pátios entre as casas onde abundam as laranjeiras e os limoeiros, algumas fontes para refrescarem o ar pesado e quente, o sol inclemente e brilhante, que cega e afoga os pulmões.
Impossível não ir a Alhambra (ou Alambra, a vermelha), todos nos tinham dito. Não podes deixar de ir a Alhambra, aconselharam-nos.
É um conjunto de palácios e jardins que foram a morada da dinastia Nazarí. Estende-se por uma das colinas de Granada até lá bem no alto, local privilegiado para um olhar sobre a cidade.
Os jardins são lindos, lindos, rodeados por cedros com um desenho quase labiríntico, cheios de recantos e de miradouros, demoram algum tempo a percorrer. As escadas de pedra com degraus altíssimos combinaram-se para nos fazer um vigoroso treino, nunca perdendo de vista o exercício de respirar perante o calor que aumentava à medida que as horas passavam. Mas isso foi antes de Antequera.




Muito espantada fiquei com os procedimentos de segurança. A toda a hora - na aquisição dos bilhetes, à entrada dos jardins, à entrada dos palácios, enfim, em todo o lado - pediam os nossos DNI e os bilhetes, lendo obsessivamente os códigos. Os nossos CC não estiveram nunca pelos ajustes, mas deixam-nos passar na mesma.
O palácio de Carlos V é interessante. Mas os Palácios Nazárides são extraordinários. A arquitectura, os detalhes, os arabescos, os pátios, tudo lindíssimo e muito bem conservado.




Na noite anterior tínhamos ido jantar a uma esplanada junto ao hotel, mesmo no centro de Granada. Com duas cañas vieram duas pequenas tostas com umas tiras de bifanas, absolutamente maravilhosas. Pedimos depois uma parrillada de verduras. Fomos advertidos pelo camarero de que era grande. Resolvemos mudar de ideias e pedimos uma mais pequena (disse ele) ensaladilla da casa. Chegou uma monumental ensaladilla, onde não faltava nada, nem o omnipresente atum!

Simpatiquíssimos, os camareros. Granada!
*Título roubado a Out of Africa (before Tzabo)
18 julho 2021
Estrada fora
Estrada fora, estrada fora, corremos em direcção a Granada. Que liberdade a viagem, em direcção a nada ou a tudo, correr pelo mundo, ver o céu de outro lugar, as paisagens desenhadas por outras terras, por outras línguas, por outros sentires.
Calor, calor, calor sufocante, tórrido.
Paramos ao lado da autoestrada, em La Puebla de Cazalla, num café restaurante meio perdido no meio do nada – Venta Restaurante La Viña. Cá fora chão de terra batida e umas tristes mesas lisas com cadeiras, vazias. Duas da tarde.
Por dentro e surpreendentemente, fresco e limpo, ar acolhedor. Decoração de aficcionados a sério, com cartazes e fotos de toureiros e touros. Andalucía!



Suspirando de alívio pedimos aquilo que pensávamos ser doses pequenas, pois era assim que estavam designadas na carta.
Una ensaladilla de cangrejo, gambas al ajillo e una ensalada mista.
A ensaladilla de cangrejo eram três bolas de salada russa com pasta de caranguejo, bastante saborosas, por sinal. As gambas al ajillo vieram numa frigideira de barro, que fazia três ou quatro das nossas. A ensalada mista era um enorme prato de salada mista, com uma mistura de vegetais bastante variada, incluindo ovos cozidos, atum em lata e espargos.


Comida para um batalhão, que debicámos, com unas cañas.
Foi um belo descanso, para ganhar coragem para mais um pouco de estrada.......
......... até Granada.
19 junho 2021
Portugal - Alemanha

Ao meu lado ouço um relato muito mais colorido do que o da televisão.
Estamos todos a torcer pela vitória, nem que seja por 1 - 0, basta 1. Mas tem que entrar, não pode ser só 0 - 0! Perder é que não.
Vá lá, pessoal, que é mais fácil estar deste lado do que do vosso. Vamos ao ataaaaaaaque!!!!!
13 junho 2021
Manjericos

Se eu cheirasse a manjerico
Como bem cheira Lisboa
Dispensava o abanico
Que o calor desabotoa
Vou passando para a frente
E depois já volto atrás
Tenho uma pressa dormente
Alergia que o Sol trás
Nesta dança de rodar
Entra mão e entra pé
Não reparto com meu par
O meu bule de café
Vou marchar de manjerico
De mão dada com meu par
Pois que este namorico
Mal chegou que vai ficar
Mais ou menos

Champ de coquelicots près de Vétheuil
As imagens vão passando como um ruído de fundo. De vez em quando levanto os olhos e vejo um rosto, um olhar, um movimento de árvores, um barco que afunda, abelhas, alguém a vociferar. Baixo-os de novo para um qualquer canto do meu cérebro que cada vez se isola mais, se abstrai do mundo à volta e mergulha numa autossugestão, numa autodigestão, num lodo mais ou menos mole mais ou menos pardo, tudo mais ou menos.
Assim se está mais ou menos.
Ouço, vou ouvindo a cacofonia de opiniões estridentes. É tudo muito estridente, muito assertivo, muito repentino, muito oco. Tudo muito igual a sempre embora pareça muito diferente.
O que é mesmo diferente é o meu corpo, a forma como aprecio o silêncio e o aconchego de quem se ama.
Exatamente envelhecida. Apenas me renovo nas ideias que me contam, nas surpresas dos mundos por onde viajo, no surpreendente do que nos outros cuida e acarinha, no que os outros dão e se dão a tanta gente anónima, só porque sim, só porque é isso que sabem fazer, sem alarde nem publicidade, mas certo e certeiros, dia a dia, mês a mês, vida a vida.
As vidas que nos passam e nos tocam, outras que arranham, outras que passam ao largo.
As aventuras são contínuas mesmo na mediania do quotidiano. De vez em quando um sobressalto cósmico que muda tudo, mesmo sem mudar muito.
E assim se está mais do que menos, quando não menos que mais. Mas está-se.
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