22 dezembro 2020

Dizer bem

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Há um ano seria difícil sequer imaginar o que 2020 iria significar.


A pandemia provocada pelo SARS-CoV-2, a forma como o mundo reagiu, os confinamentos, o fechar das sociedades, a hecatombe económica, o medo, a histeria muito assoberbada pelos media, as notícias falsas, os alarmismos e a dura realidade de tentar gerir esta mistura explosiva, colocaram os holofotes no Governo, no Presidente e nas Instituições de Saúde.


Houve muita coisa que correu mal e muitas outras que poderiam ter corrido melhor. Mas nunca, que me lembre, tanto se exigiu de duas pessoas que desde o início da crise pandémica, diariamente, apareceram a prestar contas e informação.


Falo de Marta Temido e de Graça Freitas. Sem esquecer o Primeiro-ministro que por sorte nos calhou, um Presidente da República que sempre o foi secundando, todos os restantes protagonistas que foram aparecendo para nos acalmar e informar (no qual não incluo, infelizmente, muitos dos representantes dos médicos e enfermeiros de Ordens e Sindicatos), estas duas mulheres foram e são exemplos de sobriedade e resiliência que nos devem orgulhar e a quem devemos o nosso respeito e agradecimento.


Não foram sempre perfeitas nem o serão nunca, mas foram serenas, rigorosas, sérias e leais. Por isso fiquei muito satisfeita pelo regresso de Graça Freitas ao seu trabalho, por isso me indignei com alguns comentários ao assomo de fragilidade de Marta Temido, quando se emocionou até às lágrimas numa cerimónia no INSA.


Para mim são indubitavelmente as figuras do ano.

Do inqualificável

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André Carrilho


 


É difícil acabar este ano sem nos virem à boca todas as palavras azedas e desesperançadas que conhecemos, para expurgar pensamentos e vinagres interiores.


Para não falar do SRAS-CoV-2 e da pandemia, de confinamentos e emergências, de manipulações, histeria e ratos, a minha tristeza e perplexidade olham para o que se tem passado no SEF perante a nossa indiferença e alheamento.


Depois de nos termos apercebido de que um cidadão ucraniano tinha sido morto à pancada em Portugal, na porta de entrada para o que ele esperava ser uma hipótese de vida futura, às mãos do Estado português, perante a cumplicidade e inactividade de todos, com raras e honrosas excepções para muito poucos jornalistas que mantinham a denúncia, vemo-nos confrontados com a incúria e a inépcia política da gestão deste gravíssimo caso, que põe em causa tudo o que propagandeámos de país amigo, tolerante e acolhedor.


O Ministro não actuou de imediato, demitindo a Presidente do SEF, visto que ela própria não o fez. Não só não actuou de imediato como meses depois assumiu a sua inquestionável gestão do caso, divulgando a sua conclusão de que aquele assassinato era caso único e que não manchava o SEF. De tal forma que só depois de mais denúncias, o crédulo Ministro decidiu alargar o âmbito da investigação, como se nada fizesse crer que tudo o que ali se passa deve ser digno de um filme negro de máfias e conluio entre gente inqualificável, que devia estar atrás das grades.


Não só o Ministro mas também o Presidente dos afectos não tiveram a decência de publicamente e em nome do País se desculparem perante tal horror, fazendo o que pudessem para tentar minimizar a dor da família e a nossa vergonha colectiva.


É muito, muito mau. António Costa já devia ter demitido o Ministro, visto que ele não o faz. Mas, mais uma vez, não consegue gerir estas situações, deixando-as apodrecer arrastando todo o governo e a si próprio em marinada lenta de descrédito e estupefacção.


É muito triste, muito mau, muito grave. Só de imaginar o que aquele homem e muitos outros, homens e mulheres, sofreu, sofrem e sofrerão naquele pedaço de Portugal, devia obrigar-nos a todos a olhar para as nossas prioridades.


No fim deste ano de 2020, que parece nem ter existido mas que varreu o mundo destruindo muitos dos alicerces da vida em sociedade, esta é uma péssima amostra do que se passa nalguns cantos que teimamos em não ver.

20 dezembro 2020

O poema pouco original do medo

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O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis


Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos


O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
      (assim assim)
escriturários
      (muitos)
intelectuais
      (o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles


Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados


Ah o medo vai ter tudo
tudo


(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)


              *


O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos


Sim
a ratos


Alexandre O´Neill


 

15 dezembro 2020

Quadras de Natal (7)

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Ao Menino quero dar


Um bocadinho de céu


Uma lua de brincar


Um cantinho que é só meu


 


Ao Menino quero dar


As estrelas que hão-de vir


Uma cama de embalar


Uma manta pro cobrir


 


Ao Menino quero dar


Um colinho pra dormir


Uma fada de encantar


Uma rosa pra florir


 


Ao Menino quero dar


O nascer da madrugada


Uma vida pra lutar


Uma pena e uma espada


 


Ao Menino quero dar


O meu peito bem aberto


Para que possa enganar


Um destino mais que certo


 


Ao Menino quero dar


Os meus braços no final


Para que o possa ninar


Nesta noite de Natal

13 dezembro 2020

Da renovação dos clássicos

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Eu hoje decidi que a canja de galinha tinha de ser renovada. Tal como me dizem as jovens que trabalham comigo, com muita pena, eu não consigo fazer a mesma coisa sempre da mesma maneira. É mais forte do que eu. Todas as boas resoluções de uniformidades e pré textos são rapidamente ultrapassadas e sublimadas em inúmeras novas versões de manuais e procedimentos.


Por isso hoje chegou a vez da canja. Não sem antes fazer uma pesquisa internáutica sobre a ancestralidade das receitas, para me inspirar. Mas a verdade é que eram todas mais ou menos unânimes não só nos ingredientes como também na forma de os cozinhar.


Aproveitei a ideia da cebola e da cenoura, que nunca tinha utilizado, mas dando-lhe um toque diferente.


Peguei em 2 chalotas médias e cortei-a em rodelinhas fininhas para dentro da panela. Fiz o mesmo a uma cenoura, juntei um molhinho de coentros, 2 folhas de louro, um fiozinho de azeite e a perna completa do frango (o membro inferior), limpa de peles e gorduras. Coloquei ao lume e deixei amolecer os legumes, com tempero de sal grosso e o sumo de metade de 1 limão.


Depois enchi a panela de água e deixei cozer o frango durante cerca de 1 hora, até a carne largar o osso. Desfiei a carne do frango, retirei as folhas de louro, coloquei massa em cotovelo e cozi 2 ovos à parte.


Mal a massa se aprontou, parti os ovos aos bocadinhos e misturei tudo. Rectifiquei o sal e pronto.


Uma delícia.

11 dezembro 2020

Da nossa vergonha

"(....) Mas a triste sorte de Ihor Homeniuk não mereceu até agora nem a indignação geral nem sequer o interesse específico da Provedora de Justiça, que tanto tem denunciado as condições inaceitáveis dos CIT, aos quais chamou "terras de ninguém" e espaços de "não direito". Não mereceu a exigência de que o SEF seja mudado de cima a baixo - ou extinto. Não mereceu praticamente nada a não ser a obsessão de poucos jornalistas, entre os quais me incluo.


E no entanto pouco houve nos últimos anos que merecesse mais o nosso clamor. Porque se é isto uma polícia portuguesa do século XXI, se é assim que tratamos pessoas completamente desprotegidas, que país somos? Se não chega a diretora do SEF assumir que um homem foi torturado sob a sua guarda, a do Estado português - a nossa - para que lhe indemnizem a família, que falta? Que nos falta?"


É uma vergonha colectiva. Com raras excepções, como a de Fernanda Câncio (21/11/2020), calamos um inqualificável e gravíssimo atropelo a tudo o que tem a ver com leis, Direitos Humanos, decência.


Nem Cristina Gatões, nem Eduardo Cabrita, nem António Costa, em Marcelo Rebelo de Sousa, nem nós, cidadãos, que tantas indignações diárias temos por ninharias e tanto nos calamos por aquilo que de facto importa.


Sobrado

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Owl


Simon Hempsell


 


Arrumei o meu sapato


Procurei-lhe pelo par


Escondeu-se o ingrato


E eu saio a coxear


 


Tenho uma meia já posta


A outra por descobrir


Bem chamo mas a resposta


É que não se faz ouvir


 


Tivesse a roupa cem dedos


E o caminho cem luas


Inventava mil enredos


Com saias grandes e nuas


 


Tanta palavra que sobra


No sobrado da cabeça


Mesmo com tanta manobra


Não há verso que apeteça


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...