15 dezembro 2020

Quadras de Natal (7)

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Ao Menino quero dar


Um bocadinho de céu


Uma lua de brincar


Um cantinho que é só meu


 


Ao Menino quero dar


As estrelas que hão-de vir


Uma cama de embalar


Uma manta pro cobrir


 


Ao Menino quero dar


Um colinho pra dormir


Uma fada de encantar


Uma rosa pra florir


 


Ao Menino quero dar


O nascer da madrugada


Uma vida pra lutar


Uma pena e uma espada


 


Ao Menino quero dar


O meu peito bem aberto


Para que possa enganar


Um destino mais que certo


 


Ao Menino quero dar


Os meus braços no final


Para que o possa ninar


Nesta noite de Natal

13 dezembro 2020

Da renovação dos clássicos

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Eu hoje decidi que a canja de galinha tinha de ser renovada. Tal como me dizem as jovens que trabalham comigo, com muita pena, eu não consigo fazer a mesma coisa sempre da mesma maneira. É mais forte do que eu. Todas as boas resoluções de uniformidades e pré textos são rapidamente ultrapassadas e sublimadas em inúmeras novas versões de manuais e procedimentos.


Por isso hoje chegou a vez da canja. Não sem antes fazer uma pesquisa internáutica sobre a ancestralidade das receitas, para me inspirar. Mas a verdade é que eram todas mais ou menos unânimes não só nos ingredientes como também na forma de os cozinhar.


Aproveitei a ideia da cebola e da cenoura, que nunca tinha utilizado, mas dando-lhe um toque diferente.


Peguei em 2 chalotas médias e cortei-a em rodelinhas fininhas para dentro da panela. Fiz o mesmo a uma cenoura, juntei um molhinho de coentros, 2 folhas de louro, um fiozinho de azeite e a perna completa do frango (o membro inferior), limpa de peles e gorduras. Coloquei ao lume e deixei amolecer os legumes, com tempero de sal grosso e o sumo de metade de 1 limão.


Depois enchi a panela de água e deixei cozer o frango durante cerca de 1 hora, até a carne largar o osso. Desfiei a carne do frango, retirei as folhas de louro, coloquei massa em cotovelo e cozi 2 ovos à parte.


Mal a massa se aprontou, parti os ovos aos bocadinhos e misturei tudo. Rectifiquei o sal e pronto.


Uma delícia.

11 dezembro 2020

Da nossa vergonha

"(....) Mas a triste sorte de Ihor Homeniuk não mereceu até agora nem a indignação geral nem sequer o interesse específico da Provedora de Justiça, que tanto tem denunciado as condições inaceitáveis dos CIT, aos quais chamou "terras de ninguém" e espaços de "não direito". Não mereceu a exigência de que o SEF seja mudado de cima a baixo - ou extinto. Não mereceu praticamente nada a não ser a obsessão de poucos jornalistas, entre os quais me incluo.


E no entanto pouco houve nos últimos anos que merecesse mais o nosso clamor. Porque se é isto uma polícia portuguesa do século XXI, se é assim que tratamos pessoas completamente desprotegidas, que país somos? Se não chega a diretora do SEF assumir que um homem foi torturado sob a sua guarda, a do Estado português - a nossa - para que lhe indemnizem a família, que falta? Que nos falta?"


É uma vergonha colectiva. Com raras excepções, como a de Fernanda Câncio (21/11/2020), calamos um inqualificável e gravíssimo atropelo a tudo o que tem a ver com leis, Direitos Humanos, decência.


Nem Cristina Gatões, nem Eduardo Cabrita, nem António Costa, em Marcelo Rebelo de Sousa, nem nós, cidadãos, que tantas indignações diárias temos por ninharias e tanto nos calamos por aquilo que de facto importa.


Sobrado

OWL - Simon Hempsell.jpg


Owl


Simon Hempsell


 


Arrumei o meu sapato


Procurei-lhe pelo par


Escondeu-se o ingrato


E eu saio a coxear


 


Tenho uma meia já posta


A outra por descobrir


Bem chamo mas a resposta


É que não se faz ouvir


 


Tivesse a roupa cem dedos


E o caminho cem luas


Inventava mil enredos


Com saias grandes e nuas


 


Tanta palavra que sobra


No sobrado da cabeça


Mesmo com tanta manobra


Não há verso que apeteça


 

07 dezembro 2020

Patria

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O livro de Fernando Aramburu é avassalador. Muitíssimo bem escrito, narra a vida de duas famílias, e com elas a vida dos bascos, durante a luta pela independência. De um lado os defensores da luta armada do outro as vítimas dessa luta.


O terrível rasgar das relações de amizade, de convívio, de respeito, a separação entre os que dão a vida pela causa e os que são assassinados pela utopia, a pobreza, as complicadas relações humanas atravessadas pela pobreza, pelas diferenças de classes que são como um rio lamacento que vai inundando as consciências.


Uma mãe que fala com Santo Inácio de Loyola, uma esposa que fala com a túmulo do marido, tudo de pedra, tudo frio, a fé que se desmonta e soçobra, o medo, a superação, a resistência e a perda de todas as ilusões.


Um livro tão bom como duro, que remexe nas feridas para as curar.


É raro que a adaptação cinematográfica faça justiça à literatura. Não é este o caso. A série da HBO é fiel ao relato de Fernando Aramburu e dá tons à rigidez da realidade, à crueza das feições torturadas, dos sentimentos afundados, das lágrimas bem fechadas.


Não percam nem um nem outro. À sua maneira é uma história de Natal.

06 dezembro 2020

Entre - Lugar


Prenda de Natal: Manuel de Oliveira

De palavras me alimento

misterious books sculptures.jpg


Scottish book sculptures


 


De palavras me alimento


Secas pobres resignadas


Ato-as nas bordas do vento


Sopro-lhes gumes de espadas


 


Orações de pão e vinho


Solitária companhia


Atapetam-me o caminho


De tristeza e alegria


 


Escolho pedras são sinais


Das esquinas que encontramos


Pelos mundos desiguais


Pelos sonhos que encerramos


 


Com palavras me renovo


Em silêncios incontidos


É no amor que me devolvo


É nos gestos dissolvidos


 


Conto os dias que me faltam


Escrevo versos ressequidos


Que as palavras já não voltam


Aos meus dedos esquecidos


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...