26 dezembro 2018

Dos endo e exo-recheios

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Tenho um problema com o rechear do peru ou, mais precisamente, de qualquer tipo de carne. Já há uns anos tentei um rolo de carne que saiu horrível, com a carne dura e rígida, qual cesto de madeira, com as cenouras e o ovo a escaparem indecentemente do abraço apertado das ataduras.


 


Mas não sou de desistir facilmente. A perna de peru já estava desossada pelo talhante, para receber o maravilhoso recheio que fiz: cebola, alho, salsa, pimento amarelo, cenoura, cogumelos, bacon, tâmaras, azeitonas, filetes de anchova (a ordem dos factores é arbitrária), tudo muito picadinho, regado com um fiozinho de azeite, vinho tinto e vinho do Porto, temperado com pimenta, cominhos e muito escasso sal, tudo envolvido numa alheira, (à qual tirei a pele, essa sim, só no fim).


 


Estava mesmo uma especialidade mas, quando tentei colocar o dito a meio do membro da grande ave galinácea, dobrando a perna sobre si mesma com a ajuda de uns fios próprios para o efeito (que, miraculosamente, estavam na dispensa), foi um desastre. Se atava uma ponta, o recheio fugia pela outra, se apertava a ponta oposta, o recheio fluía pelos lados.


 


Acabei por rodar a carne peru 180 graus, fazendo do recheio um colchão. Espalhei umas cebolinhas pequeninas no tabuleiro, umas castanhas congeladas, massajei o peru com massa de alho e de pimentão, um pouco de sal, um pouco de azeite, vinho e rodelas de laranja, para além de louro, cobri com papel de alumínio e assei durante cerca de duas horas. A meio da assadura virei o peru, para cozinhar dos dois lados.


 


Devo dizer que estava fantástico, com o exo-recheio misturado no molho, nas castanhas e nas cebolinhas. O esparregado (daqueles congelados já pré-cozinhados) serviu de acompanhamento saudável e vegetariano, enfim, uma perfeição.


 


Mesmo tendo saído vitoriosa desta provação, o problema do recheio mantém-se irresolúvel. Talvez para o ano já tenha inventado uma nova fórmula para o fazer. Os doces, os licores e o café remataram a refeição, tendo todos os comensais, após interrogação personalizada e universal (o que foi muito mal interpretado como bulling culinário) acenado e emitido vários ruídos com óbvio significado aprovador.


 

25 dezembro 2018

A força de outros tempos

(...) Muito se perde, e muito fica; embora
Não tenhamos a força que, outros tempos,
Tudo movia – quanto somos, somos:
Uma igual têmpera do peito heróico,
Ao tempo e fado frágil, mas bem forte
Para buscar, achar, e não perder.


Ulisses, de Tennyson, tradução de Jorge de Sena


 


Obrigada a quem me mostrou este poema dito por Helen Mirren.

Igualdade

Manhã de Natal, ocupada a ganhar forças para preparar o jantar de Natal.


 


Passeio pela Internet, olhos as notícias dos jornais e ouço a TV que tenho aos pés da cama. De vez em quando levanto os olhos. Há uns minutos dei com uma cena de um filme no canal Cinemundo - O Espaço que nos Une (2017) - que se passa no futuro, e vejo um homem que, aparentemente, está a trabalhar em frente a um computador. Mostra-se apreensivo e ausente, enquanto uma mulher lhe dá um café, com ar deferente, preocupado, quase maternal. Era obviamente a sua secretária.


 


É assim que projectamos o futuro, com secretárias mulheres a oferecerem cafés aos seus superiores hierárquicos, homens. Por isso, quando leio esta notícia sobre o tempo que levará a ser atingida a igualdade entre géneros, em termos salariais - 202 anos - acho que, se calhar, os seus autores estão a ser optimistas.

24 dezembro 2018

Está tudo com bom aspecto militar!

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O lema deste Natal é ser alternativo. Aliás os meus Natais são todos alternativos – aqui respira-se a tradição.


 


Na verdade comecei o dia com uma que comecei há cerca de ano e meio – um maravilhoso e revigorante treino, em prevenção para aumento de massas gordas, coisa terrífica e de muito difícil terapêutica.


 


Mas logo a seguir continuaram as actividades natalícias, que isto são turnos contínuos e sem remuneração adicional. Tenho que ponderar uma greve com coletes verdes e encarnados, a condizer com a quadra.


 


A calda de açúcar já está pronta. Água (500 ml) com açúcar (650 gr) casca de limão e paus de canela ao lume fazem verdadeiros milagres. Então se, ao levantar fervura, lhe juntarmos um bom cálice de vinho do Porto, deixando depois fervilhar durante 12 minutos, é a receita mais alternativamente tradicional que podemos ter para regar os sonhos (e as rabanadas).


 


Claro que, no entretanto, embrulhei mais umas garrafitas de licor. Este ano adoptei uma nova moda – nada de fita-cola nem dobras simétricas. Pega-se num papel, envolve-se o objecto a embrulhar, amarrota-se artisticamente, de modo a cobrir todas as superfícies, e ata-se o sobrante de papel com uma fita colorida e flamejante. E pronto, nem faço de conta que embrulho.


 


O bacalhau aguarda a sua vez de cozer, tal como as batatas, o grão e a couve – desta vez optei por couve coração, porque não me apeteceu estar 3 horas a arranjar e lavar uma enormíssima quantidade de couve tão portuguesa quanto cansativa, que mirra assustadoramente no tacho. A perna de perú para amanhã também já está de molho em água, tomilho, pimenta, louro e rodelas de limão e laranja. O recheio será uma inspiração de momento, mas já estou a imaginar algo que inclua cebola, bacon, tâmaras, alheira, pimentos, cogumelos, azeitonas e anchovas. Enfim, imaginação nunca me faltou.


 


Por agora gozo os prazeres da preguiça, mas tenho a certeza de que logo à noite, rodeada por gente que adoro e pelos vapores tradicionalmente alternativos da Consoada, ouvirei cá dentro uma voz poderosa a dizer:


 


Está tudo com bom aspecto militar!


 

23 dezembro 2018

Alteração de planos

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Mourejar, sim, trabalhos forçados, também, mas não se procedeu à operação filhoses mas sim à operação rabanadas.


 


Todos os anos fazemos rabanadas, é mesmo o tiro de partida para a Consoada. Mas este ano, eu que tanto me apetecia fazer filhoses, acordei muito esmorecida, e só a ante-visão da farinha para amassar, retirou-me qualquer ambição doméstica de índole natalícia.


 


Mas as rabanadas estão com um aspecto fantástico. Já temos uma prática quase ancestral, uma linha de montagem perfeita, entre molhar as fatias de pão no leite, passá-las no ovo batido, fritá-las e polvilhá-las de açúcar e canela, que nem uma verdadeira pastelaria em hora de ponta.


 


Hoje, se tudo correr conforme planeio, ainda farei a calda para sonhos e rabanadas.


 


Amanhã será a a vez da aletria e do bacalhau, cozido com couves, mais tradicional é mesmo impossível. E eu, que tenho uma PT que parece uma assombração, e que me promete mundos de horríficos treinos para recuperar as graminhas que ganhar durante esta quadra, vou bebericando chá para resistir à tentação e ouvindo cantos celestiais, enquanto congemino as melhores formas de prevaricar sem dar muito nas vistas...


 



Anne-Sophie von Otter


Koppangen (Holy Night)


música de Per-Erik Moraeus


letra de Py Bäkman

22 dezembro 2018

Preparemo-nos...

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.... para os trabalhos forçados dos próximos dias.


 


Na cozinha perfilam-se a farinha, os ovos, as laranjas, o chá e o leite, à espera do desencadear das hostilidades. O dia será de filhoses.


 


Hoje, em amena cavaqueira, enchi diversos frascos com diversos licores parecidos uns com os outros, o que levou a várias provas para rigorosa e científica identificação e colagem de rótulos.


 


Seguiu-se a confecção de uma prodigiosa novidade, indecentemente roubada a uma pessoa altamente preocupada com o meu peso e a sua redução, que consiste no derreter de chocolate com uma pitada de óleo de coco, mistura de sementes diversas, espalhanço do preparado num tabuleiro forrado com papel vegetal e esperança de que tudo se transforme em pequeníssimas bolachinhas para juntar aos parcos e esquálidos cabazes.


 


Enfim, it's beginning to look a lot like Christmas...

21 dezembro 2018

Quadras de Natal (5)

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Salvador Dali -1960


 


Viro o Natal do avesso


examino-lhe as costuras


corto estrelas em excesso


aconchego nas suturas.


 


Fui ao mato buscar lenha


para acender a lareira


sem amor que me sustenha


arde a alma na fogueira.


 


Abri a porta da casa


ao Menino que nasceu


há um mundo que extravasa


a tristeza que há no meu.


 


Parti o pão que me deste


bebi da água e do vinho


meu Menino que nasceste


rodeado de azevinho.


 


Viro o Natal do direito


e penteio-lhe a nervura


verde lindo e sem defeito


polvilhado de ternura.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...