11 novembro 2018

100 anos depois

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11 de Novembro de 1918


Assinatura do Armistício em Compiègne


 


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 Imperial War Museum


 


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11 de Novembro de 2018


 


 


Levantados da lama


do fragor dos corpos


da explosão do mundo


levantados do inferno


que tão bem costuramos


e sofremos vamos


acumulando chuvas


e ventos desleixando


rios e cantos


refazendo cautelosamente


o lodaçal para que


nos enterremos


de novo na lama.


 

10 novembro 2018

Um dia como os outros (188)

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 (…) Mas estes homens têm uma corte, porque o poder autocrático tem uma capacidade enorme de atrair a degenerescência da virtude, de poder ser usado para comprar e vender interesses e para dar aos pequenos da mesma espécie a ilusão de que também são grandes, porque estão à sombra dos gigantes. Aqueles a quem tenho chamado os nossos bolsonarinhos e trumpinhos desdenham Bolsonaro e Trump e não quereriam ver-se em sua companhia à mesa. (E daí não sei... Talvez, depende, não é impossível, podia ser, e se for uma selfie, não ficava mal, para pôr na mesa de cabeceira...) Por isso juram a pés juntos que não gostam deles. MAS GOSTAM DO QUE ELES ESTÃO A FAZER. Vai em maiúsculas por que é isso mesmo. (…)


 


(…) E não se iludam com as aparentes reticências e com as explicações rebuscadas, que não “reticenciam” nada, nem “explicam” nada, porque lhes falta o sentimento de nojo. E o nojo é o sentimento exacto. Eu vi a conferência de imprensa de Trump, em que ele disse que se os democratas investigarem os seus impostos, ele vinga-se investigando os democratas, coisa que ele diz que faz muito melhor. Senti nojo. Ponto.


 


Pacheco Pereira

06 novembro 2018

A tentação do abismo

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André Carrilho


 


 


Andamos numa vertigem de fabricação e exploração de casos, sem distinguir a sua gravidade e importância e sem cuidar de preservar as Instituições. O caso do desaparecimento/ reaparecimento das armas de Tancos é disso um exemplo. Na corrida para a visibilidade e para o protagonismo, mastigam-se os actores políticos e as Instituições. Responsáveis partidários, comentadores e jornalistas, na ânsia de se fazerem notados, baralham e envolvem ministros, militares, polícias e, como já é pouco, também o Primeiro-.ministro e o Presidente da República.


 


Cada vez é mais difícil tentar perceber o que se passou e o que se está a passar - houve ou não roubo? Se sim quem foram os ladrões, onde estavam e onde estão as armas que faltam? Vendidas, traficadas, destruídas, emprestadas? Se não, qual o objectivo da farsa? Quem a criou e com que fim? A sua restituição foi negociada para encobrir os criminosos ou não? Se sim, porquê? Quem é que se quis encobrir? Se não, porque se falou em encobrimento? A sensação que tenho é que nada disto é real e que tudo é uma manobra de diversão para distrair do foco principal - e qual é o foco principal? Voltamos ao princípio - houve ou não roubo?


 


O que mais destrói a confiança dos cidadãos no regime democrático são estas graves palhaçadas, em que a corrida para alcançar a fama vai destruindo e atropelando tudo o que aparece. As pessoas vêm-se perdidas, sem perceberem o que se passa, e cansam-se da repetição até à náusea das mesmas coisas. O novo mote, lançado por Marques Mendes, é o atrito entre António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, que se vai repetindo por todos os media.


 


No dia em que há eleições nos EUA, país que tem como Presidente uma criatura inominável que apela aos nossos piores instintos, deveríamos pensar bem no perigo do descrédito das Instituições que, por acção ou omissão, estamos a incentivar.

05 novembro 2018

Dos anos que passam

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Dei-me conta, quase sem querer, de que hoje este blogue faz 13 anos de vida.


 


Mudei muito, nestes 13 anos. Estou mais velha, mais amarga, mais silenciosa. Muito me desiludi das ilusões que tinha (e algumas ainda tenho). Nessa altura confiava na Justiça, tinha das nossas sociedades ocidentais uma onírica e ingénua visão, achava que a globalização do acesso fácil e barato à informação iria tornar os cidadãos mais exigentes, mais maduros e mais democráticos, porque mais conhecedores de factos, porque mais estimulados, porque menos ignorantes e preconceituosos.


 


Fui perdendo a ingenuidade e as esperanças, fui desacreditando das pessoas e dos sistemas políticos. Percebi que as minhas angústias e pensamentos não interessavam a ninguém e perdi a suprema arrogância de tentar mudar alguma coisa. À minha volta vejo muitos que, como eu, estão mais empalidecidos e menos certos das certezas que nos amparavam. Cheguei à conclusão que deixei de perceber o mundo, se é que alguma vez o percebi.


 


Mudei em muitos aspectos, pessoais e profissionais. Mudei de locais de trabalho, mudei de funções, tive algumas belas e estimulantes pequenas vitórias, outras tristes e estrondosas derrotas, aprendi muito com ambas, mas mais com as últimas. Conheci gente fantástica com quem tive oportunidade de trabalhar e que considero, para além disso, minha amiga, pude experimentar ideias que tinha e que me deram um enorme prazer implementar. Conheci também gente inqualificável, que me transtornou e me entristeceu, que não merece ser sequer mencionada. Creio que, apesar de tudo, consegui fazer o meu trabalho, com dedicação e empenho, catalisando, de algum modo, o despertar do melhor que há em nós.


 


Publiquei 4 livros de poesia, contando com algumas editoras que foram acreditando minimamente na qualidade do que escrevo. Deram-me muito gozo e, independentemente das apreciações que possam ser feitas por quem entende destes misteres, orgulho-me de todos eles, agradecendo a quem os ajudou a concretizarem-se. Por outro lado, descobri música, teatro, cinema e exposições, partilhei viagens, receitas e estados de alma, troquei impressões com pessoas que nunca encontraria se não fosse esta aventura blogueira.


 


Não sei por quanto tempo ainda manterei o blogue. Os desenvolvimentos políticos e sociais a que assistimos, com a ascensão de uma turbamulta autoritária, racista, xenófoba, intolerante, que apela ao ódio e à violência, deixa-me atarantada e sem saber bem como reagir. A forma como se discutem os textos, retirando do contexto frases e expressões, crucificando as pessoas que se expõem, inventando factos e transformando insignificâncias em dramas e motores de transformações estranhas, não são bons augúrios.


 


O caminho faz-se caminhando, dia a dia, mês a mês, e este continuará a ser um espaço de reflexão, pois a possibilidade de expressar o que temos dentro de nós é um exercício de liberdade que não devemos descurar. Até porque a Liberdade é frágil e fugidia, se não a cuidarmos. O meu quadrado, o nosso quadrado, pode sempre contar comigo.


 

28 outubro 2018

Escolher a democracia

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Alastra a onda de neofascismo, radicalização dos valores de direita ditatorial, xenófoba, racista, com desprezo e marginalização das minorias, pela liberdade de expressão e pela democracia. Não só nos EUA, como no Brasil, também em Portugal, quando ouvimos e lemos que há pessoas que têm menos direitos que outras, devemos perceber que a democracia não é uma conquista eterna.


 


Ao contrário do que se pensava, a globalização e democratização do acesso à informação, a facilidade de divulgar ideias e pensamentos, não nos fez mais cultos e mais críticos, apenas aumentou exponencialmente a nossa capacidade de nos entrincheirarmos e de multiplicarmos preconceitos, raiva e medos, desaparecendo o pudor e a vergonha de explorar e expor os nossos mais escuros pensamentos. O que era indizível passou a ser bandeira.


 


Sempre fui contra o politicamente correcto, no que isso significa de patrulha autoritária de comportamentos e no que isso leva a bulling social. Fui ultrapassada pelos que, aproveitando esse posicionamento ideológico, o reverteram e travestiram de ataques de ódio e de raiva, apelos ao racismo e à xenofobia, com discursos de incitamento à violência.


 


A eleição de Trump parece ter aberto uma caixa de Pandora, apesar de não ter sido a primeira nesta onda de extremismo de direita. Mas de alguma forma destapou-se uma nuvem de pragas para que muitos de nós não estavam preparados. E não podemos ignorar o que isso diz de nós próprios, como a mole humana que aceita e elege estas criaturas como representantes e motores das nossas sociedades.


 


Os meios de comunicação tradicional têm, neste momento (como ouvi alguém dizer na RTP3), uma oportunidade para recuperarem da quase extinção, se souberem ser o esteio da informação rigorosa, se souberem fugir à facilidade e mediocridade do recurso às redes sociais e semelhantes, sem confirmação de fontes fidedignas, sem manipulação de factos inventados, para que os cidadãos possam ter a possibilidade de fazer escolhas informadas.


 


A mais que provável eleição de Bolsonaro é um susto e uma tragédia. Não consigo compreender como é que entre o alinhamento dos horrores, as pessoas elejam a corrupção, por muito destrutiva que seja, como um mal pior que o assassínio e a tortura, defendidos por aquele personagem. Resta-nos trabalhar para que tudo mude, todos os dias e incansavelmente, denunciando mentiras e manipulações, discutindo ideias, confrontando o que é diferente, apurando factos verdadeiros e não alternativos, percebendo que apenas o conhecimento e a luta contra os preconceitos, filhos dilectos da ignorância, nos liberta dos monstros em que todos nos podemos transformar. E nunca nos demitirmos nem alhearmos, nunca sermos silenciosos apoiantes do que nos destrói.


 


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21 outubro 2018

Destino partido

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Yuichi-Ikehata


 


 


Parti o destino em tantas partes


que não o consigo cumprir.


Pés para um lado cabeça para outro


dedos dispersos numa outra direcção


nada se reencontra nem cola.


 


E eu de tanto me desdobrar


acabei por desaparecer e descobrir


que não sei por onde me procurar.


 

Galos na Praça da Fruta

Ontem, depois do concerto, caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela hora já ao lusco-fusco, ainda com v...