14 outubro 2018

Asfalto

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Retirantes


Portinari


 


 


As palavras decapitadas pingam no asfalto


seguem gritos de pena e balas


morros de terra abatidos navios de prata


que abrem a serenidade do esquecimento.


Sangram as palavras derretidas no asfalto


da morte tatuada nas almas dementes.


 

Do que nos assombra

O circo à volta do assalto de Tancos e da pretensa devolução das armas roubadas, com as suas cumplicidades escondidas ou escancaradas nas cartas anónimas e nos memorandos de militares, tudo inqualificável, risível e grotesco, já levou à demissão do Ministro da Defesa, mas sem qualquer assomo de assumpção de responsabilidades de qualquer das chefias militares, o que é assombroso.


 


Mas convém que não nos esqueçamos do cerne da questão – alguém roubou armas (ou não?), alguém conspirou para as devolver (porquê, como e a que propósito?) e é essencial que se descubra o que, de facto, aconteceu. É tudo muito mau, pequenino, mesquinho e idiota.


 


No entanto a remodelação governamental resultante foi boa, e uma forma de António Costa fugir um pouco da pressão político-mediática que se tinha instalado. Aguardemos os próximos capítulos deste romance de cordel.


 

O inenarrável

O próximo Presidente brasileiro será uma criatura inenarrável, que defende a tortura, a violação das mulheres, o esterilização dos pobres, o assassinato de "corruptos", incluindo o antigo Presidente Fernando Henrique Cardoso, que é homofóbico, etc., etc., etc.


 


E isso acontecerá porque a maioria dos brasileiros que votam, em liberdade, vão escolher essa criatura inenarrável. Chegamos à conclusão de que a maioria dos brasileiros, que votam em liberdade, ou são inenarráveis ou querem ter um Presidente inenarrável. Também nos EUA e noutros países da Europa tem havido escolhas semelhantes.


 


É assustador, mas é a realidade.


 

06 outubro 2018

A (falta de) Justiça

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Alfredo Ceschiatti


 


 


Temos uma remodelação institucional, de valores e de práticas. A presunção de inocência e a Justiça são conceitos que, neste momento, não têm qualquer significado.


 


Cristiano Ronaldo foi e é acusado de violação. As reacções nas redes sociais e nos restantes media ditarão o seu futuro e o da acusadora. Não serão os tribunais, o apuramento dos factos ou as eventuais confissões de qualquer das partes. Cristiano Ronaldo, culpado ou inocente, vai ser mastigado pela opinião pública porque é muito mais importante à Juventus, à Nike e à EA desportos, que têm com ele relações profissionais, projectarem uma imagem de moralidade do que esperarem os mais vagarosos trâmites da justiça.


 


Em relação a Kathryn Mayorga também não interessa se foi ou não violada. Em Portugal os amantes de futebol e de Cristiano Ronaldo já decidiram que ela é uma devoradora de dinheiro e que, mesmo que tenha sido violada, já sabia ao que ia ao aceitar subir ao quarto de Cristiano Ronaldo. A tese dos homens predadores e da culpa das mulheres provocadoras, velha como o mundo, é um dos sustentáculos da sociedade machista que continuamos a ser.


 


Estamos a criar uma sociedade cruel e sem regras. As discussões sobre qualquer assunto ganham de imediato contornos de guerras assassinas, sem que as Instituições tenham capacidade para seguir o percurso das investigações e do apuramento de responsabilidades. As barragens são de tal ordem que se esquecem os núcleos para se ficar com as pontas, lançando-se véus sobre tudo e misturando tudo na mesma impunidade.


 


No caso de Tancos, o Expresso, conhecido por criar factos políticos, lançou já o mote para a culpabilização do Ministro da Defesa, com a suspeita de envolvimento do mesmo pelos responsáveis na encenação da descoberta das armas roubadas. Claro que a palavra destes oficiais já foi elevada à dos homens de honra, enquanto os desmentidos do Ministro são olhadas como desculpas de um malfeitor. Entretanto o facto em si – o roubo das armas e o seu encobrimento – deixa de ser importante. É claro que o Ministro da Defesa tem sido um desastre, mas daí até ser conivente com uma farsa deste tipo, é um grande salto. Em relação aos responsáveis hierárquicos na cadeia de comando das Forças Armadas, ninguém assume responsabilidades.


 


O mais grave de tudo isto é que não sabemos em quem confiar nem em quem acreditar – se no Ministro, se nos militares encobridores, se nos eventuais violadores, se nas eventuais violadas. Não há limites nem fronteiras, tudo se mistura perigosamente.


 


Nota: vale a pena ler Ferreira Fernandes

03 outubro 2018

Don't let anyone tell you how to drink your whisky

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Edimburgo é uma cidade muito agradável, elegante, com gente simpática, de aspecto próspero. Está muito frio e muito húmido, as cores escuras dos prédios, das igrejas, do Castelo, contrastam com as cores vivas do quadriculado dos tartans. Muitos restaurantes e bares, com várias ofertas bio, orgânica, vegan e tradicional, stew, cerveja e whisky.


 


 


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A prova do whisky é uma obrigação turística mas que não me custou nada a cumprir. Depois de uma subida acentuada até ao Edinburgh Castle, nada melhor que retemperar as forças no Ambar Whisky Bar.


 


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Serviram-me, por ordem de prova, acompanhados de uma tábua de queijos, uvas, salada de alfaces, chutney, pão e bolachas:



  1. Auchentoshan American Oak Lowlands Single Malt Scotch Whisky

  2. anCnoc 2002 Highlands Single Malt Whisky

  3. Dailuaine 16 Year Old Speyside Single Malt Scotch Whisky

  4. Lagavulin Distillers Edition Islay Malt Whisky


O barman, um rapaz bastante escocês e muito simpático, disse-me que provasse os whiskies plain e se visse necessidade, juntasse uma dash of water.


 


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Depois percorri mais uns quilómetros, pela Royal Mile, descendo até à Princess Street e subindo de novo até à Morrison Street. Eu, que me perco em qualquer lugar, sempre de mapa em punho nunca me enganei. Deve ter sido do whisky.


 


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23 setembro 2018

Um dia

 


 


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The Immortal Pyre


Jason deCaires Taylor


 


Um dia serei água


antes que me afogue serei fogo


antes que me queime serei terra


antes que anoiteça.


 


Um dia serei como o mar


antes que me perca onda de azul


e penumbra migalha de luz e de vida


antes que pereça.


 

Descrédito a expensas próprias - actualização

Ao contrário do que afirmei ainda agora, o Expresso pediu desculpa aos leitores.


 


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As minhas desculpas ao Expresso. Procurei pela internet, mas não encontrei. Cheguei lá através do facebook.


 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...