17 setembro 2018

Das eruditas refeições

Não sei porquê, mas já há algum tempo que tinha vontade de comida indiana. Suspeito que pela quantidade de saladas, frangos, galinhas e perus, peixinhos grelhados ou cozidos, 2 a 3 esquálidas peças de fruta por dia, iogurtes magríssimos e sem pinga de açúcar, sementes de linhaça, girassol e mais que agora me escapam, para além dos treinos dignos de uma recruta, a necessidade de desbundar é avassaladora.


 


Independentemente do motivo, decidi que era altura de avançar sem medo nem culpa para o Kerala, que a pesquisa na internet me devolveu como um dos melhores restaurantes de comida indiana em Lisboa, mais precisamente em Campo de Ourique, na Rua de Infantaria 16, nº 37A.


 


Convém dizer que Campo de Ourique é um bairro de que gosto particularmente, manifestando sempre esse gosto em voz alta, de cada vez que lá vou. Convém também dizer que sou muito ignorante em imensas coisas, sendo uma delas a geografia.


 


Lá fomos muito contentes, eu e o meu companheiro de aventuras culinárias (e outras), rezando para encontrar lugar de estacionamento, o que até nem foi difícil. Esperava-nos uma sala espaçosa, rectangular, com as mesas dispostas dos lados maiores, ao fundo a zona técnica, sobriamente decorada, com as cores habituais e alguns quadros nas paredes, também do tipo habitual. Comemos muito bem.


 


restaurante kerala.jpg


 


Embora estas incursões na culinária possam estar associadas a acontecimentos insólitos que já não me deviam espantar, a verdade é que continuam a fazê-lo. Bem me lembro de um restaurante brasileiro em que o meu companheiro resolveu discutir com o empregado não só a sua naturalidade nesse imenso Brasil, como o conhecimento do hino brasileiro. Conversa puxa conversa e a certa altura estava o pobre empregado a cantarolar o hino para provar que o conhecia. De outra vez, a mesma excêntrica companhia levou para o almoço, num restaurante chinês a que íamos frequentemente, um livro que andava a ler para perguntar, indicando o nome numa página, como se pronunciava em chinês Chiang Kai-shek. A dona do restaurante, que falava muito mal o português, ficou embasbacada e muito divertida, apontando os seus 2 indicadores simetricamente para a sua testa, não sei bem se a louvar a curiosidade de quem perguntava se a chamar-lhe louco, ou se apenas a rir da pronúncia dele.


chiang-kai-shek.jpg


Enfim, e para encurtar a história, no meio do caril de peixe, depois de uma famosa chamuça de vegetais, fiquei a saber que Kerala é um dos 28 estados da Índia, por sinal o mais alfabetizado, com melhores níveis de saúde e de cultura, que a língua lá falada é o malaiala, e que as religiões se distribuem entre 55% Hinduísmo, 26% Islamismo e 18% Cristianismo. Fiquei ainda a saber que os donos, de estatura baixa, eram de Kerala e que estavam cá há poucos meses, tendo aberto o restaurante em Março.


 


kerala.jpg


 


Pode ser pela minha falta de conhecimentos em tanta coisa, mas fico sempre espantada com alguém que parece passar os dias a ler enciclopédias. Por isso quando, à noite, ao vermos um excelente documentário na Netflix sobre 5 realizadores de cinema importantíssimos durante a II Guerra Mundial – “Five Came Back” (John Ford, John Huston, George Stevens, Frank Capra e William Wyler), e se contava como John Huston tinha sido enviado às ilhas mais longínquas dos EUA, ao ouvir à minha direita “Pois, as ilhas Aleutas”, fartei-me de rir, causando o embaraço envergonhado do dito erudito.


 


A verdade é que ainda fiquei a saber que a capital de Kerala é uma cidade de nome impronunciável (Thiruvananthapuram), e que os naturais de Kerala comem arroz a todas, mas todas, as refeições.


 


De facto, adoro!

14 setembro 2018

Indigente

Ron-Mueck.jpg


Ron Mueck


 


Recolho os dedos e o pranto


fecho as janelas e o mundo


atenho-me ao morno descanso


empurro-me para o fundo.


 


A voz que se repetia


nesta roufenha memória


preparava a melodia


de uma demissão sem glória.


 


Só me falta o arvoredo


como sombra permanente


que abrigará o segredo


da minha morte indigente.


 

13 setembro 2018

12 setembro 2018

Caricaturas

serena williams.jpgMark Knight


 


A triste cena de que Serena Williams foi protagonista, no Grand Slam, em que perdeu para Naomi Osaka, já foi objecto de acesas discussões de sexismo e racismo. E aquilo que deveria ter sido a grande notícia, precisamente uma tenista de 23 anos ter derrotado a grande Serena Williams, foi abafado por tanto disparate.


 


Até o autor da caricatura foi criticado e acusado de racismo, pela acentuação dos traços fisionómicos de Serena Williams. E eu que pensava que as caricaturas faziam precisamente isso!

Dinossauro

Mário Nogueira pode orgulhar-se do seu poder. Durante anos e anos tem mantido os professores na crista da onda, chantageando todos os tipos de governo, sejam eles de direita, esquerda ou do centro, e transformando os professores numa poderosíssima corporação dentro da função pública.


 


Ele manifesta, ele confronta, ele determina, ele interrompe, ele exige.


 


E António Costa, pela forma como se deixou levar para a discussão de rua, desautorizando o seu Ministro da Educação que também não parece importar-se com a sua evidente incapacidade e inutilidade políticas, reconheceu a Mário Nogueira, esse dinossauro do sindicalismo, o seu poder.

Aldrabices

Retrato_oficial_Assuncao_Cristas.jpg


Ministra da Agricultura e do Mar


XIX e XX Governos


 


Os membros dos governos deixaram a linguagem pomposa e formal para adoptarem uma postura que roça o grosseiro. Confesso a minha veia reaccionária ao não gostar desta pseudo democratização da linguagem. Não gosto de grosserias de ninguém e não me parece que ajudem a imagem dos nossos representantes.


 


Assunção Cristas, nesta nova elegante moda, disse que os professores foram aldrabados pelo governo. Não vale a pena os desmentidos já feitos pelos responsáveis governamentais. Não interessa se é verdade ou mentira, conceitos que deixaram de fazer sentido nesta nossa era de factos alternativos. Mas igualando a Presidente do CDS/PP, convém lembrar as aldrabices de Assunção Cristas, que se tem revelado uma bela aldrabona, sendo a maior delas a capacidade que tem de desdizer tudo o que defendeu e fez o governo de que ela fez parte, tal como outros membros do seu partido.


 


O CDS/PP fez parte integrante do XIX governo (que nos desgovernou entre 2011 e 2015). E eu ainda não me esqueci das aldrabices com que alcançaram e pretendiam manter o poder, desde a promessa de não cortar o subsídio de Natal à devolução da sobretaxa pré-eleitoral. 

10 setembro 2018

Um dia como os outros (186)

UmDiaComoOsOutros.jpeg


(...) Daí que sejam socializados para existir por direito próprio, para viver o corpo como seu, para olharem em vez de serem olhados, para desejar em vez de serem desejados, para agir em vez de serem "agidos". Ao contrário, as mulheres são-no para depender da apreciação e valorização de outrem, sentindo sempre sobre si, em perpétua vigilância, um olhar que julga. Um olhar enxertado no seu: desde crianças, aprendem a existir como corpo sitiado, expropriado por regras e vontades alheias - que ocupam mas lhes não pertence. (...)


 


Fernanda Câncio

Galos na Praça da Fruta

Ontem, depois do concerto, caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela hora já ao lusco-fusco, ainda com v...