16 agosto 2018

"Os jornalistas não são o inimigo"

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Os ataques de Trump à imprensa e, de um modo geral, a todos os meios de comunicação livres, mostram que, até na (quase) indestrutível democracia americana, o autoritarismo e as tendências ditatoriais fazem o seu caminho. A era Trump colocou a nu aquilo de que já se falava e que já se sabia há algum tempo: que as pessoas eram cada vez mais manipuladas pelo que se lê nas redes sociais, que há fábricas de invenção de notícias e que a ignorância e a má-fé imperam.


 


É claro que, para quem joga um jogo viciado, como Trump, ter uma imprensa livre é uma péssima notícia. Daí o ataque constante e violento a todos os que o confrontam, tal como aos seus apoiantes, com as mentiras e as inenarráveis declarações diárias a que nos habituou.


 


O grito da imprensa norte americana de hoje, com cerca de 300 jornais a assinarem editoriais em que escreve que Os jornalistas não são o inimigo deveria ser repetido e ecoado por todo o lado, nomeadamente em Portugal. A democracia é um hábito que morre rapidamente, se todos os dias não a experimentamos.


 


Mas é importante que os jornalistas, da imprensa escrita e das restantes formas de comunicação, olhem para si próprios e percebam que também são vítimas de si próprios. Desde o momento em que se constituem actores políticos e entram no jogo da manipulação dos factos, realçando o que pode comprometer uma certa orientação política, esquecendo ou deturpando o que a favorece, quando usam acriticamente as redes sociais, fazendo de caixa de ressonância aos mais aberrantes (pseudo) factos, sem qualquer investigação das fontes e da veracidade dos mesmos, estão a hipotecar a sua isenção e credibilidade informativas. Quando pescam comentários e causas estapafúrdias, com a miragem das audiências e da visibilidade que desejam, quando publicam artigos mal traduzidos e mal escritos, sem qualquer enquadramento histórico e/ ou científico, acabam por se comparar com o lixo pseudo informativo que pulula pela internet.


 


E é importante que nós próprios, cidadãos, olhemos para a nossa incapacidade de perceber que a imprensa livre não sobrevive sem dinheiro, que a independência económica é uma das mais importantes chaves para o rigor e a exigência, e um dos mais eficazes antídotos contra a corrupção. Se os jornais em papel se pagam também se devem pagar os jornais digitais. Por outro lado a formação, a honestidade e a competência dos jornalistas é semelhante às das outras profissões, não sendo eles super heróis nem párias sociais.


 


O verdadeiro inimigo é, de facto, a ignorância. É o ingrediente mais fértil para a intolerância, a estupidez, o desprezo pelos outros, o fanatismo. Combater a ignorância é um dever de toda a sociedade, sendo a informação livre um dos seus mais importantes instrumentos.

15 agosto 2018

Um dia como os outros (184)

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(…) Estas notícias têm mais proximidade aos interesses económicos, históricos e sociológicos dos portugueses do que qualquer tweet inconsequente de Donald Trump.


Estas notícias dizem mais ao coração de centenas de milhares (milhões?) de imigrantes desses países que residem em Portugal, potenciais leitores de órgãos de comunicação social portugueses, do que qualquer manifestação contra imigrantes num país do centro da Europa.


Estas notícias cumprem todas a regras editoriais que o jornalismo determina, porém, inexplicavelmente, nós, jornalistas, ignoramos ou reduzimos a sua importância à expressão mínima. Preferimos debater, com paixão anacrónica, o nome de um museu sobre a formação do império colonial português.


Durante anos colaborei, alegremente, neste virar de costas do jornalismo português ao mundo da lusofonia. Agora sou obrigado a ver como fui tão burro e como é, desculpem, tão burro o jornalismo português.


Pedro Tadeu

Um dia como os outros (183)

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(…) Le Pen não vem a Lisboa no quadro de uma delegação da Assembleia Nacional francesa ou do seu grupo de extrema-direita no Parlamento Europeu, como seria seu direito legal. Vem para a Websummit. Ora, não façamos de conta que a Websummit não é um evento político pago e apoiado por todos nós para promover uma determinada imagem de Portugal. Foi-o quando Fernando Medina mandou pôr cartazes, no dia a seguir à vitória de Trump, dizendo (e bem) que Lisboa era “uma cidade de pontes e não de muros”. Foi-o quando António Costa lá foi falar como primeiro-ministro ou quando Marcelo, como presidente, elogiou o evento. E se-lo-á, de uma maneira ou de outra, tanto se Marine Le Pen lá for falar (no mesmo palco que usou Costa) como se vier entretanto a ser desconvidada. Cabe-nos a nós a escolha de lhe dar palco ou de deixar bem claro que lhe recusamos palco. Não há nenhuma escolha não-política. (…)


(…) Ou então o país que sabe que valores são os seus, e que está pronto para dizer: Le Pen representa o contrário daquilo que Portugal é, o contrário da nossa posição na Europa e no mundo, e não a consideramos bem-vinda num evento apoiado pelo nosso governo para promover o pais que somos e queremos ser.


É simples. Não se trata de limitar a liberdade de alguém a quem não faltam canais (nem rublos) para se exprimir. Trata-se de dar uma mensagem política perante um assunto político. É para isto que os estados têm a prerrogativa de declarar alguém persona non grata(informação útil: mantém-se consagrada no direito europeu relativo à liberdade de circulação). Use-se. Sim, Marine Le Pen fará uma birra. Respondam-lhe que é a soberania nacional.


Rui Tavares

Liberdade de expressão

A liberdade de expressão é um valor inestimável e sem o qual não há democracia. Mesmo que alguém defenda o contrário do que eu defendo, mesmo que o considere desprezível, tem o direito de o defender. Mas o que está em causa na reacção negativa ao convite a Marine Le Pen como oradora na Web Summit nada tem a ver com o respeito pela liberdade de expressão.


 


O governo português abriu os braços à Web Summit e apoiou a sua realização em Lisboa. A Web Summit pretende ser uma plataforma de encontro da vanguarda da tecnologia, por isso Lisboa e Portugal terão interesse em que a visibilidade se faça a partir destas conferências, que chamam gente, turismo e, quem sabe, investimento e emprego.


 


O que percebemos agora é que, a coberto da atenção mediática, está a ser infiltrada e aporveitada como plataforma para diulgação de ideologia de extrema direita, o que não deixa de ser contraditório com tudo o que a apologia da nova tecnlogia sem fronteiras representa.


 


Por isso nada de ingenuidade da parte do governo ou de quem representa o Estado. Acho muito bem que se demarquem deste convite e do que ele significa, mesmo que a consequência seja perder a Web Summit 2019. A coerência e a decência podem ter que pagar um preço, que é sempre menor do que o do oportunismo e o do cinismo político. Marine le Pen terá com certeza oportunidade de dizer o que pensa em eventos organizados por entidades privadas, sejam elas quais forem, sem apoios públicos. E só irá ouvi-la quem quiser.

06 agosto 2018

Manhãs

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Trevor Leat


 


 


 


1.


Será a manhã inteira nos meus passos


tão suaves e decididos como carícias


será o dia morno de arvoredo


sussurrante e melodioso como pássaros


será feito de novo o meu dia


transformando medo em poesia.


 


2.


Tanto que juntamos as mãos


como se a pertença nos chegasse


tanto que olhamos o céu


como se a imensidão nos acalmasse


tanto que usamos o corpo


como se a juventude nos sobrasse


tanto que apertamos a vida


como se a eternidade nos faltasse.


 


3.


Gasto a vida sem que saber como se usam


as inesperadas manhãs em que se misturam


sonhos e actos numa consumada


ligação incestuosa.


 

31 julho 2018

De uma essência

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O protocolo permitia apenas um escasso número de pessoas a acompanhar cada agraciado. Atentamente e com os murmurinhos das antecipações cerimoniais, fez-se silêncio à entrada do Presidente da República.


 


Marcelo Rebelo de Sousa foi conciso, agradecendo em nome de Portugal (da Pátria, palavra em desuso e mal amada, mas razão de ser de qualquer militar) aos nove agraciados que deram de si o melhor pelo País.


 


O nome foi chamado alta e claramente, pronunciado de forma a percebermos todas as sílabas. O meu pai deu dois passos em frente e recebeu, das mãos do Presidente, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, colocada com cuidado, respeito e carinho. As fotografias da praxe. E ele, com um aprumo que faz parte da sua essência, da sua mais funda memória de militar, perfilou-se.


 


Tão pouco que somos. E tanto que alguns de nós são. Aquela figura frágil, quase etérea, perfilada e orgulhosa, segura pelo núcleo da sua vida, de frente para o destino.


 


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Galos na Praça da Fruta

Ontem, depois do concerto, caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela hora já ao lusco-fusco, ainda com v...