21 julho 2018

Coisas simples

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Thomas Dambo


 


A água que escorre pelos dedos


um corpo abandonado sobre os lençóis


o cheiro da manhã


uma voz que acorda e reclama.


 


Como o suspiro de uma asa


o olhar aguçado do futuro


pousado ao de leve


em todas as esquinas de uma casa.

Da Mediania

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Warren King


 


 


Na verdade, só agora percebeu a bênção que é não se inteirar de nada. O mundo deixou de lhe interessar. Tanto que a sua arrogância tinha para dizer, tudo o que pensava precisar de partilhar, pensamentos, sugestões, indignações, espantos, comoções, palavras, textos, poemas, notícias dissecadas, treino de costela detectivesca, desprezos, confianças, juras de fidelidade e dores de traições, nada mais lhe interessava.


 


A vida facilitou-se enormemente com o afastamento da mundana necessidade de estar a par dos acontecimentos. Vagueia mole e sonolentamente pelas redes sociais, observa com um olho meio fechado os títulos dos jornais, ouve de vez em quando os locutores dos canais de notícias, com aquele jeito de estar sempre a anunciar o apocalipse, os comentadores a perorar sobre as últimas colheitas e a próxima guerra intergaláctica.


 


O mundo não precisava da sua atenção, nem das suas análises. Pode concentrar-se na perpétua e menor actividade de passar um dia após o outro entre as paredes da sua realidade, com pedras e flores mais ou menos aleatórias. A comezinha tarefa de viver, comer, dormir, trabalhar, rir, chorar, ver séries de televisão à desfilada, ouvir música, muita música, acordar para a ginástica, discutir e planear concertos, teatro, livros, sonhar as viagens que há-de curtr.


 


A mediania que nasce connosco e não se encomenda, mas que se recomenda.

16 julho 2018

O Oráculo de Jamais

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É dos livros mais extraordinários que li até hoje, há já muitos anos. Comovente, lindíssimo. De Altino do Tojal.

15 julho 2018

Pombos de guerra

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Cher Ami


 


 


Na era das comunicações digitais, globais e internáuticas, em que a comunicação é instantânea e os segredos deixaram praticamente de existir, causa-nos uma enorme estranheza a utilização de pombos como mensageiros, ainda por cima em tempo de guerra, em que as informações são extremamente sensíveis.


 


E, no entanto, os pombos (especificamente uma determinada raça, os homing pigeons) foram importantíssimos para o esforço de guerra, em todos os lados do conflito, pela capacidade única de conseguirem regressar a um local de onde partiram (homing) por aquilo a que se chama magnetorecepção (capacidade de detectar um campo magnético para estabelecer coordenadas de altitude, direcção e localização). Há registos da utilização dos pombos como mensageiros militares desde o império romano.


 


Nas I Guerra Mundial um pombo (o Cher Ami) foi condecorado com a Croix de Guerre, pelos valorosos serviços prestados na Batalha de Verdun. Na II Guerra Mundial a Dickin Medal foi atribuída a 32 pombos.


 


Mesmo neste século ainda há notícias de pombos usados em comunicações militares. É extraordinária a capacidade do Homem em colocar a natureza ao seu serviço, transformando os animais em extensões das suas necessidades.

14 julho 2018

Ecos

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Crescent


Thomas Joynes


 


 


Os teus olhos as tuas mãos


as vozes no rumor do começo.


Onde estou agora? Por onde


passaram os dias que me espreitam


de longe? Ecos de uma vida


que já não reconheço.

Erbarme dich, mein Gott


 Anne Sofie von Otter


J. S. Bach - Matthäus-Passion

Redoma

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Papoilas de cerâmica


Lincoln Castle


 


Da janela enfrento as nuvens dentro da redoma do esquecimento.


Espero o vagar do sono os gestos do descanso a que me obrigo


aplicadamente para suster a respiração. As bandeiras


deixaram a cor empalidecer e os hinos estão calados. Amanhã


acordarei a alma por eles.

Galos na Praça da Fruta

Ontem, depois do concerto, caminhei calmamente de regresso ao hotel passando pela Praça da Fruta, àquela hora já ao lusco-fusco, ainda com v...