05 maio 2017

Do problema das retenções

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Não, não é da retenção de IRS, mas sim de fluidos. Ao contrário do que aprendi no curso de Medicina, por certo já muito desactualizado, agora todas as pessoas, mais as mulheres, claro, fazem retenção de líquidos, mesmo que não tenham qualquer tipo de insuficiência cardio-vascular, qualquer estado de mal absorção e/ ou hipoproteinémia, qualquer tipo de insuficiência renal.


 


A retenção de fluidos, conforme tenho aprendido nos últimos tempos, é qualquer coisa também ela muito fluida que nos faz aumentar de peso e que passa com a ingestão obsessiva de drenantes, outra palavra que começou a fazer parte do meu léxico. Portanto temos chás drenantes e líquidos drenantes, tudo para reter a retenção de fluidos, sejam eles quais forem. Também é preciso beber litradas de água que, paradoxalmente, acelera a drenagem dos ditos.


 


Para além das várias intolerâncias da humanidade, onde se destacam as recentíssimas intolerâncias ao glúten e à lactose, temos agora que ingerir chás de hibisco, alcachofra, gengibre e dente-de-leão, sumos detox com estranhas misturas de ervas e frutos, banir para todo o sempre o açúcar, deliciando-nos com doces que não têm doce, sobremesas sem açúcar e comendo muita gelatina, daquela dietética, queijo magro, manteiga que não é manteiga, pão das mais diversas farinhas, nomeadamente de farelo (lembro-me sempre que o meu avô compunha a comida dos porcos com farelo), com excepção absoluta do trigo, esquecer a existência da batata (a não ser que seja batata-doce, o novo milagre que cura todos os males do corpo), da massa e do arroz.


 


Portanto, para além de todas as culpas ancestrais que carregamos, as culpas da educação judaico-cristã, as culpas do escasso tempo livre que temos para a família e os amigos, soma-se agora a culpa de comer, porque não sabemos e porque estamos viciados em açúcar. Substituímos o silício pelos complicados e restritos menus a que nos obrigamos, tudo para acabar com a retenção de gordura, de açúcar e, principalmente, dos tais famigerados líquidos que teimam em acumular-se nos nossos martirizados organismos, mesmo depois de uma extremamente saudável sopa de couve-flor com orégãos e de uma saciante beringela gratinada com cogumelos.

03 maio 2017

Das declarações de princípios

Não sei se o facto de Mélenchon não apelar ao voto em Macron tem ou não influência nas pessoas que votaram nele na 1ª volta das presidenciais francesas. Também não sei se, caso ele apelasse ao voto em Macron, houvesse alguma diferença na votação dos seus eleitores.


 


Mas isso não me impede de considerar um erro histórico o facto de Mélenchon não fazer tudo o que é possível para derrotar Marine Le Pen, para que a expressão eleitoral dela seja a menor possível, para mobilizar todos os eleitores a votar na 2ª volta das presidenciais. E isso só se consegue votando em Macron.


 


É uma questão de princípios e de prioridades, da essência da escolha. Acho um tremendo erro. E espero sinceramente que o seu calculismo político não o venha fazer arrepender-se desta posição.

30 abril 2017

It seemed the better way

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It seemed the better way


When first I heard him speak


But now it’s much too late


To turn the other cheek


 


It sounded like the truth


It seemed the better way


You’d have to be a fool


To choose the meek today


 


I wonder what it was


I wonder what it meant


He seemed to touch on love


But then he touch on death


 


Better hold my tongue


Better learn my place


Lift my glass of blood


Try to say the Grace


 


25 abril 2017

Dos que morreram pelos cravos

Guerra colonial: 1961 - 1974 (13 anos)



  • cerca de 10% da população portuguesa e mais de 90% dos mancebos foi envolvida na guerra;

  • terão morrido 8.831 militares portugueses, 4.027 em combate

  • embora de difícil contabilização, mais de 140 mil portugueses terão sido afectados psicologicamente


 


Mãe, a guerra


O capitão que quase enganou a tristeza


 



Manuel Alegre & Adriano Correia de Oliveira


 


 


Já lá vai Pedro Soldado


Num barco da nossa armada


E leva um nome bordado


Num saco cheio de nada


Triste vai Pedro Soldado


 


Branda rola não faz ninho


Nas agulhas do pinheiro


Não é Pedro Marinheiro


Nem no mar é seu caminho


 


Nem anda a branca gaivota


Pescando peixes em terra


Nem é de Pedro essa rota


Dos barcos que vão à guerra


 


Onde não anda ceifando


Já o campo se faz verde


E em cada hora se perde


Cada hora que demora


Pedro no mar navegando


 


Não é Pedro pescador


Nem no mar vindimador


Nem soldado vindimando


Verde vinha vindimada


Triste vai Pedro Soldado


 


Já lá vai Pedro Soldado


Num barco da nossa armada


Deixa um nome bordado


E era Pedro Soldado


 


Branda rola não faz ninho


Nas agulhas do pinheiro


Não é Pedro Marinheiro


Nem no mar é seu caminho


 


Deixa um nome bordado


E era Pedro Soldado


E era Pedro Soldado

A música dos cravos


Manuel Alegre & António Portugal & António Correia de Oliveira


 


 


Quem poderá domar os cavalos do vento


quem poderá domar este tropel


do pensamento


à flor da pele?


 


Quem poderá calar a voz do sino triste


que diz por dentro do que não se diz


a fúria em riste


do meu país?


 


Quem poderá proibir estas letras de chuva


que gota a gota escrevem nas vidraças


pátria viúva


a dor que passa?


 


Quem poderá prender os dedos farpas


que dentro da canção fazem das brisas


as armas harpas


que são precisas?


 


 


 



Sérgio Godinho


 


 


Viemos com o peso do passado e da semente


Esperar tantos anos torna tudo mais urgente


e a sede de uma espera só se estanca na torrente


e a sede de uma espera só se estanca na torrente


Vivemos tantos anos a falar pela calada


Só se pode querer tudo quando não se teve nada


Só quer a vida cheia quem teve a vida parada


Só quer a vida cheia quem teve a vida parada


Só há liberdade a sério quando houver


A paz, o pão


habitação


saúde, educação


Só há liberdade a sério quando houver


Liberdade de mudar e decidir


quando pertencer ao povo o que o povo produzir


quando pertencer ao povo o que o povo produzir


 


 


 



Zeca Afonso


 


Vejam bem


Que não há


Só gaivotas


Em terra


Quando um homem


Se põe


A pensar


 


Quem lá vem


Dorme à noite


Ao relento


Na areia


Dorme à noite


Ao relento


Do mar


 


E se houver


Uma praça


De gente


Madura


E uma estátua


De febre


A arder


Anda alguém


Pela noite


À procura


E não há


Quem lhe queira


Valer


 


 


Vejam bem


Daquele homem


A fraca


Figura


Desbravando


Os caminhos


Do pão


 


E se houver


Uma praça


De gente


Madura


Ninguém vai


Levantá-lo


Do chão


 


Vejam bem


Que não há


Só gaivotas


Em terra


Quando um homem


Se põe


A pensar


 


Quem lá vem


Dorme à noite


Ao relento de areia


Dorme à noite


ao relento do mar

Da revolução dos cravos

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Salvador Dali


 


Aquilo que move e embala o colectivo (nós - o povo), aquilo que nos faz sentir unidos e em marcha, é a partilha de um objectivo comum que nasce de um valor universal, algo que nos seja exterior e interior, que se ancore naquilo que podemos fazer pelos outros, pela comunidade, logo por nós próprios.


 


Somos capazes dos maiores sacrifícios se os entendermos necessários a um bem maior. Por isso prescindimos até da vida - seja por amor à liberdade ou aos filhos. Essas emoções são muito bem aproveitadas por todos os totalitarismos e também, mais raramente, pelos regimes democráticos, em épocas especiais e que se revelam revolucionárias, pelas consequências nas organizações e prioridades das sociedades em que nos inserimos.


 


Estamos a precisar de algumas ideias libertadoras, que nos unam e nos inspirem como comunidade, tal como aconteceu a 25 de Abril de 1974. Nessa altura a esperança e a mobilização pelos ideais de liberdade, democracia e desenvolvimento foram o cimento que nos uniu, com muitas dores mas com muita paixão e alegria.


 


Estou convencida de que precisamos de um novo contrato social, de uma nova organização laboral, de uma nova relação com a natureza, de uma nova realização na maternidade e na paternidades, de uma nova relação entre o individual e o colectivo. Precisamos de nos renovar e de nos inovar, reaprender a essência e redistribuir os excedentes. Precisamos de políticas que subordinem a economia ao bem público e aos cidadãos, que repense o território, que invista na criatividade e na cultura, que incentive o auto conhecimento e a solidariedade, que mobilize a generosidade, que semeie a igualdade de oportunidades, que saiba gerir as capacidades e que seja inclusivo.


 


Parecem palavras vagas e ocas. Mas convinha que lhes déssemos o seu verdadeiro significado e lhes retribuíssemos o seu verdadeiro valor. Às vezes são as coisas mais simples as que geram maior felicidade. Não vejo melhor forma de reafirmar a revolução dos cravos.


 

Da emoção dos cravos

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Todos os anos, por muito que já as conheça de cor, as imagens do dia 25 de Abril de 1974, as ruas apinhadas de gente e esperança, os soldados, as espingardas, o megafone de Salgueiro Maia, as senhas musicais na madrugada,  Posto de Comando do MFA, a alegria dos locutores, o frenesim de quem queria explicar o que se passava, a calma dos protagonistas, todos os anos me emociono.


 


Não há cerimónias dispensáveis para a celebração de um tempo novo que diariamente se reinventa. O esquecimento e a banalização da liberdade são, simultaneamente, a celebração da mesma e o maior perigo para a sua preservação.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...