01 agosto 2014

Universos paralelos


Marte 


 


É engraçado como às vezes se completa um círculo ou um ciclo que nem sabíamos que estava por fechar. As recordações são assim. Reacendem-se por uma cor, um cheiro, um movimento. Repentinamente e por alguns milésimos de segundo, aquela sensação única de um determinado instante regressa e, atónitos, reconhecemo-la.


 


As noites no Alentejo são de um negrume limpo e intenso, com miríades de estrelas que, para um incauto e ignorante observador, se assemelham umas às outras variando apenas a dimensão e a intensidade do brilho. Sempre admirei a capacidade que algumas pessoas têm de identificar as constelações, de procurarem determinados planetas, de conhecerem as profundezas e os mistérios cósmicos.


 


Há uns dias aproveitámos a oportunidade de observar algumas destas maravilhas. Numa pequeníssima sala circular, com tecto em abóbada giratória aberta em fragmentos que mostravam retalhos do céu, à volta de um telescópio e de um computador, espreitávamos para o Universo com o objectivo de observar um ou outro planeta mais acessível. Um deles era Marte.


 


Ao olhar pela ocular vi uma figura grosseiramente circular, pequena e mal definida, alaranjada, que se ia deslocando no campo de visão e tremelicava como se fosse feito de matéria líquida fluindo com os movimentos de uma dança celeste, apenas conhecida por alguns iniciados. E foi então que me senti transportada para a sala de ecografia do Hospital da Ordem Terceira, onde fiz a primeira ecografia aquando da minha primeira gravidez. Nessa altura era efectuada entre as 10 e as 12 semanas e, pelo menos para mim, foi uma autêntica revelação. Alguma coisa, muito pequena, esbranquiçada e mal definida num fundo cinzento-escuro dançava incessantemente, como se rodopiasse num baloiço invisível, as imagens focando-se e desfocando-se num ambiente meio etéreo.


 


De alguma forma incompreensível os meus neurónios associaram as duas imagens e devolveram-me um pouco da inexcedível sensação daqueles momentos em que acreditei verdadeiramente que seria mãe. A sonda da ecografia não foi mais que a ocular de um telescópio perscrutando um universo tão misterioso e deslumbrante como o céu que diariamente nos comove, quando temos algum tempo para o apreciar.


 

ÔÔptimo


 


Não fomos até à outra banda mas a esta, do Largo de Camões ao Terreiro do Paço, passando pelo Kaffeehaus, onde deglutimos o almoço. Na verdade este restaurante é óptimo e vale a pena comer as variedades de salsichas com batatas "Wedges" com especiarias, a Apfelstrudel e a Himbeer-Apfel-Tarte mit Mandelhobel, mas a Linzer-Schnitte não é nada de especial, assim como o Wienerschnitzel mit Erdäpfelsalat e o "Habsburger" mit Erdäpfelspalten. Ao nosso lado estavam duas senhoras, uma delas em que o gesticular alargado, o alinhar perfeito dos dentes frontais superiores, mais especificamente os incisivos e os caninos, a voz alta e condescendente (em relação à sua companheira de refeição), as sílabas modeladas com as vogais bem abertas e com uma acentuação típica (ÔÔptimo), para além da multiplicação e repetição do adjectivo ÔÔptimo, a colocava no topo do grupo de pessoas que-são-tão-giras-e-tão-magras-e-tão-sofisticadas-e-tão-ôôptimas, que conhecem de côr as saladas todas e que dividem sempre os magros pratos e as sobremesas, que nunca lhes apetece mais - de tôôdo - fazendo inveja a quem tem uma enorme tendência para o anafanso e adora batatas fritas e bolos de chocolate, para além da estupenda cerveja, dispensando os chás-verdes-gelados-com-gengibre e semelhantes.


 


A ideia era mesmo andar um pouco por Lisboa, essa eterna cidade desconhecida de quem cá mora. Lisboa é uma cidade lindíssima. Deambular pela Baixa Pombalina, misturar-me com a gente que formiga, a luz e a cor de Lisboa e do Tejo, agora que o podemos ver por entre as colunas do cais, devolvem-me sempre alguma da paz que busco nos dias de férias.


 


E é tão perto, Lisboa. Depois de estacionar no Camões, descemos a Rua Nova do Almada entrando e saindo das lojas, à procura de flores e de aguarelas que retratem a pureza de alguns instantes de felicidade. Devagar chegámos ao Terreiro do Paço. Subimos ao Arco da Rua Augusta, por umas escadinhas em caracol. Lá em cima o deslumbre: a toda a volta Lisboa - os telhados, as casas, a ruas, as lojas, as pessoas, o Castelo, a Sé, o Carmo, a abóbada da Câmara, a ponte 25 de Abril, o Tejo, o Tejo, o Tejo… e a outra margem, com as letras da Lisnave bem visíveis.


 


Foi ÔÔÔÔptimo!!!

29 julho 2014

Nem só de Baleizão...


Minas de Riotinto


 


... se bebe um belo vinho, mais branco que tinto o de Catarina, mais tinto que branco o de Mértola, Herdade da Bombeira, com rótulo a condizer com o lombo de bacalhau assado com pimentos.


 


Durante o dia, por terras de Andaluzia iguais às do Alentejo, com oliveiras e um sem fim de terra seca e amarelada, passámos por parques eólicos onde poderia imaginar inúmeros e gigantescos moinhos de vento, e por campos de painéis solares, num deserto de casas e de gente, igual ao do Alentejo.


 


Como igual a paisagem das Minas de Riotinto, apenas mais esmagadora na sua dimensão. O escuro da água no fundo da albufeira dos cortes, da cor do cobre, uma irmandade ibérica em tudo o que na paisagem nos mostra uma forma de viver. Mesmo assim diferentes, na língua e na pacatez da hora da sesta que não existe assim em Portugal.


 


Por ver ficou o rio que deu nome ao lugar, o Rio Tinto pela existência do minério, mesmo ali ao pé, mas fora da nossa rota. Como também o artesão de Vila Verde de Ficalho onde as casas brancas não nos revelaram a sua oficina.


 

28 julho 2014

Papagaio de papel


 


Ter alguém que me indique o norte, que me mostre a estrela polar e a ursa maior, num céu negro e de tal maneira estrelado que nos faz desequilibrar, ter alguém que nos indica que a cor tinta de um rio se deve à cor do cobre que o solo detém, ter alguém que a propósito da sericaia que se come ao jantar nos ensina que uma das batalhas da restauração foi a do Ameixial, ter alguém que escolhe um vinho de Baleizão - Paço do Conde - e que discorre sobre Catarina Eufémia e a religiosidade associada à sua figura, é algo de raro e de maravilhoso que não me canso de agradecer... e amar.

Ontem à noite


 


Soavam como patos a grasnar, bandos deles por cima da albufeira. Mas se calhar eram gralhas de nuca cinzenta, que gralham alto, em bandos.

Mina de São Domingos


 


Se fosse historiadora, o que nunca poderia ser pela incapacidade memorial inata que tenho, gostaria de estudar a vida quotidiana das populações. Não sei se o que penso é a realidade - que a maior parte da História é feita com base nos documentos deixados pela minoria minoritária que pertencia às camadas sociais que detém o poder. Eu interesso-me particularmente pela massa anónima da população que se organiza numa comunidade e que se enforma numa identidade cultural.


 


A Mina de São Domingos é uma povoação que cresceu à volta da exploração mineira e da extracção de minérios, entre os quais o cobre, a prata e o ouro, que remonta à época romana e é redescoberta no séc. XIX.


 


Ao pé de Mértola, bem para dentro do Alentejo e junto à fronteira espanhola, o que facilitava bastante as rotas de contrabandistas, pode encontrar-se um enorme lago de águas ácidas e tintas, que cobrem a área correspondente à extracção de minérios a céu aberto. A cor da terra é indicativa da maior ou menor abundância em cobre.


 


Um dos antigos palácios dos ingleses está transformado numa estalagem, muito interessante e com muito bom gosto e num local privilegiado, junto a uma praia fluvial (praia da albufeira da Tapada Grande). O restaurante tem uma esplanada muito agradável e serve pratos regionais. O que experimentei ontem - uma sopa de cação - estava verdadeiramente divinal.


 


A povoação está organizada como que por arruamentos concêntricos, com ruas estreitíssimas entre as colunas de habitações. As casas dos mineiros são idênticas às casas de outros locais de exploração mineira, como em Inglaterra, por exemplo.


 


A 2ª feira não é um bom dia de visita por estas bandas. Tanto na Mina de São Domingos como em Mértola, está tudo fechado. O castelo está fechado, a casa museu está fechada, os restaurantes estão fechados. Subindo e descendo as íngremes ruelas de Mértola, sob um sol inclemente, acabámos por ir ter a um restaurante que se chama O Repuxo. Comi achigã grelhado, que estava uma delícia, não antes de ter provado a tentação de queijo e chouriço que nos colocaram na mesa. O melão com que terminámos a refeição era doce e fresco.


 


Não sei muito bem o que faz ali um outro restaurante onde entrámos, à procura de uma sombra, que se chama Terra Utópica, com uma vista deslumbrante sobre o Guadiana, mas em que a sala de comida é interior, com uma carta composta por pastas, bifes panados e semelhantes, em várias línguas, com uma fandangada num volume insuportável. Não me espanta que estivesse vazio, estado a que regressou quando fugimos a sete pés.


 


Alentejo profundo, simpático, vagaroso e afável. As indicações na voz cantada e em gerúndio, tendo aprendido hoje a enrolar em vez de virar, são dadas com um sorriso e uma boa vontade contagiantes. Começaram bem, estes poucos dias de descanso.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...