14 junho 2014

Cinema Ideal


 


Nunca fui ao Salão Ideal nem sabia que tal sala de cinema tinha existido, quanto mais que fora a primeira sala de exibição cinematográfica de Lisboa.


 


Hoje, ao ler o Público, apercebi-me que ia ser reinaugurado como Cinema Ideal, na Rua do Loreto, a sua localização original. Fiquei muito curiosa e com grande vontade de lá ir. A ideia de uma reconstrução que devolva aos cinemas a sua mística, que os transforme em locais de convívio e bom cinema, sem que obrigatoriamente se passem os êxitos de momento, parece-me excelente.


 


Nunca me habituei às pipocas com Coca-Cola. Esta moda importada dos EUA, tal como o dia dos namorados e o dia das bruxas não me leva mais vezes ao cinema, bem pelo contrário. Neste caso (como em muitos outros) sinto-me retrógrada e fora de época. Tenho imensa pena, por exemplo, de terem acabado os bilhetes de cinema personalizados. Havia-os para todos os gostos e cada sal de cinema e cada filme eram especiais. Cheguei a juntar alguns, tal como de teatro e de museus, numa espécie de colecção da qual desisti rapidamente. Não sou mulher de coleccionismo.


 


A emoção do bilhete na mão, o escuro e o silêncio da sala, a comunhão de gargalhadas e de susto, de tristeza e de carinho, com a mole anónima à volta, era especial e mantém-se inalterada.


 


Um dia como os outros (143)


(...) quando foi que nos habituámos a aceitar que somos impotentes? que as coisas são o que são? que as decisões dos conselhos de admnistração, como 'dos mercados', são tão inelutáveis como as forças da natureza? quando foi que ficámos tão cobardes?


 


que aconteceu às comissões de trabalhadores, às negociações entre trabalhadores e empresas, aos compromissos, aos acordos, à divisão de forças? que aconteceu à nossa voz? que aconteceu connosco?


 


colectivo, nisto, só o despedimento. é bom que pensemos nisso -- porque, na nossa hora, teremos por nós exactamente o que agora oferecemos.


 


Fernanda Câncio

10 junho 2014

Do respeito sem inho


Público


 


A deriva populista e demagógica varre toda a sociedade portuguesa. A onda de ódio antipolítica e antipolíticos é um sintoma de falta de cultura democrática tão evidente como a preocupação em censurar imagens ou em calar manifestantes.


 


Já tenho aqui dito mais de uma vez que me incomoda que haja grupos de agitação permanente à espera dos representantes políticos para os apuparem, insultarem, acusarem. Aqueles que agora compreendem o povo que se manifesta contra Cavaco Silva, ministros, deputados, autarcas, não terão a mesma tolerância quando essas manifestações forem contra eles. Passou-se com Sócrates, com Maria de Lurdes Rodrigues, com Crato, com Relvas, com Correia de Campos, com Paulo Macedo e passar-se-á com qualquer um que ocupe funções no Estado.


 


Confunde-se liberdade de expressão com insultos e gritaria, com enxovalho e humilhação. É como os comentários aos posts e as graçolas nas redes sociais. Uma tristeza, de facto.


 


Cavaco Silva deve ser combatido politicamente, e respeitado como Presidente eleito, tal como todos os outros representantes políticos, pois todos são a emanação do voto popular e têm mandato para exercerem o poder. Entendo mas não aprovo a guerrilha de tipo sindical associado ao PCP, ou de esquerda ampla associado ao BE, que irrompe por salas de reunião, conferências e comemorações oficiais, confundido gritaria com opinião maioritária, esquecendo-se que as manifestações não têm legitimidade eleitoral, por muito importantes que o sejam.


 


Talvez eu tenha uma raíz muito deferente ou muito retrógrada, ou ambas. Mas custa-me muito que, em nome da liberdade de expressão e da democracia, se achincalhe uma figura que nos representa a todos.


 


Quanto ao tipo de comemorações do dia 10 de Junho - ouço e vejo muita gente a insurgir-se contra o tédio e o piroso destas comemorações. No entanto, as populações estão presentes e gostam. Suspeito que, no dia em que muitos desses detractores fossem condecorados, estas festas passariam a ser sofisticadas e a constituirem um insubstituível acto de cultura.

Demarcação


J. B. Durão


 


Fronteiras desenhadas apenas na mente


os olhos não abarcam separações geográficas. Nem a alma


dos poetas se sente outra quando a sonoridade


dos versos a surpreende e encanta.


Demarcamos o corpo mas o sonho perde-se na lonjura do amanhã


e com estas mãos de penedos e terra escrevemos


os contornos de um lugar que não se esgota.

08 junho 2014

Exactíssimamente*


 


Tens vergonha, Camarada?


 


*(Título indecentemente roubado ao Valupi)

O toque a finados

 


António José Seguro transfigura-se. Ele ataca Costa, Sócrates e Cavaco, faz voz grossa aos jornalistas e apela aos portugueses e às portuguesas. Ele vai à Feira dos agricultores em Santarém, ao jornal da Judite e ao jornal da Ana Lourenço. Ele ataca directamente, pelo facebook, e por interposta pessoa, pelo Beleza. Ele mexe-se muito, indigna-se muito, apela muito.


 


António José Seguro esganiça-se e empina-se. É o toque a finados da sua liderança. Mas enquanto a agonia se arrasta vai-se urdindo a coligação do costume - PSD/CDS e PCP, tudo farão para que haja eleições antecipadas. O governo dramatiza o chumbo do TC às medidas orçamentais que tomou, em absoluta consciência da inconstitucionalidade das mesmas. A crise nunca foi tão desejada e Seguro corre contra o tempo.


 


Depressa, Sr. Presidente - Seguro espera ser coroado Primeiro-Ministro, mesmo que seja apenas com um voto. Passos e Portas estão convencidos da vitória, nem que seja por um voto apenas.


 


O Presidente está paralisado, preso pela rede que foi urdindo e em que se enredou. E os cidadãos, muitos suspensos e em transe até ver o recibo de pagamento do próximo mês, esperam, esperam, esperam...

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...