24 março 2013

Sócrates - o regresso

 



 


A reacção à notícia da contratação de Sócrates pela RTP pertence ao domínio da patologia social. Ou ao domínio do pavor irracional. Ou ao domínio da mediocridade acéfala. Ou ao domínio da incapacidade de sentir a democracia.


 


Ao fim de dois anos há um enorme vazio de liderança no PS, onde António José Seguro continua a protagonizar a ausência de alternativa à política desastrosa do governo e da maioria PSD/CDS. Por outro lado, toda a propaganda feita durante os últimos meses do governo anterior, comandada pelo Presidente da República, em que diariamente se demonstrava a necessidade absoluta de mudar de governo pela exorbitância dos sacrifícios que se estavam a impor aos portugueses, com a implementação dos sucessivos PECs negociados com a Europa, em que diariamente se propalava a obrigatoriedade de recorrer ao resgate do país, culpando-se Sócrates de ser teimoso e de negar essa assistência financeira, em que diariamente todos os comentadores e economistas faziam eco da bondade e inevitabilidade das medidas de austeridade que iriam salvar o país, se esboroou e escancarou todo o embuste que venderam.


 


Imediatamente após o assalto ao poder, esta maioria fez exactamente o contrário do que prometeu, a troco de exactamente nada, ou mais precisamente, a troco de um retrocesso não só económico como social. O trabalho não vale nada, os direitos sociais transformaram-se num luxo só para alguns, a ideologia reinante regressou ao miserabilismo e à corrente da minoria que tudo tem e da imensa maioria que se deve contentar e agradecer o pouco que pode.


 


Não tenho quaisquer dúvidas de que o regresso de Sócrates significa que ele quererá regressar à política activa. E já teve algum resultado, como a moção de censura que António José Seguro resolveu anunciar. De repente o PS quer dizer que está vivo. Por outro lado lêem-se artigos que defendem o resgate da área do comentarismo político para os jornalistas, quando estes apenas fazem propaganda mascarados de imparciais observadores da realidade. Aguardo ainda os sinais da Presidência. Calculo o desconforto causado pela ideia de ter José Sócrates a falar de algumas nebulosas acontecidas durante os seus governos.


 


Na verdade estamos todos à espera da entrevista agendada para 4ª feira. Se foi Miguel Relvas o autor de tão estrondosa ideia, como se diz por aí, não percebo muito bem o alcance da mesma. Para Sócrates até pode ser uma péssima aposta. O desgaste mediático de uma permanência semanal à frente das câmaras e o teor do género de programa não permitem distanciamento e convidam ao imediatismo e superficialidade das análises. Basta comparar com o que se passa com Marcelo Rebelo de Sousa, cuja hipótese de candidatura presidencial me parece cada vez menos credível, pois está transformado no Professor Zandinga da política. De qualquer das formas, odiado por uns, aplaudido por outros, já mexeu um pouco estas águas paradas.


 

18 março 2013

Até quando

 



Jochen Hein: see II 


 


Levantamos o corpo numa penitência diária


de quem ignora ao que regressa


não sabemos parar este irremediável aperto


do tempo esta camisa de ferro a que nos comprometemos


obrigações que só a nós amarrámos mas


que outros sentem secretamente.


Levantamos os olhos da terra para onde


queremos mergulhar mítico lugar de alimento


e paz onde o deserto das casas e das ruas não assusta


mas comove. Recolhemos a vontade aonde ela já não existe


reinventamos em cada segundo a energia que move


músculos e engole a funda tristeza da desesperança.


Até quando.


 

17 março 2013

Aproxima-se uma tempestade de silêncio

 



Ulla Gmeiner:


rauschende stille/roaring silence


Poema de: Porfírio Silva


 


Aproxima-se uma tempestade de silêncio.


As palavras e as bocas desencontraram-se


na poeira do mundo. A única aresta do tempo


onde passados e futuros se encontram,


a tua carne, arde. Essa linha arde, desde esta tarde,


na recusa da tua memória. Há uma terra


repleta, há uma terra deserta


e entre uma e outra um oceano de bocas


fervilham pelo mundo sem que nada aconteça.


Aproxima-se uma tempestade:


sobre esta colina onde vivo abate-se um alvoroçado


silêncio. Palavras e bocas tresmalhadas


tapam o sol e a lua:


chegou o tempo de um eclipse parecer uma promessa.


 

Um dia como os outros (126)

 



(...) Mas, convenhamos, é Gaspar o maior culpado? Obviamente que face aos resultados das suas acções não poderia ficar nem mais um segundo no Governo, mas foi ele quem disse que mesmo que não estivéssemos sujeitos a este memorando de entendimento o iríamos aplicar? Foi ele que disse que se devia ir para além da troika? É ele o maior responsável por uma política que o melhor horizonte que tem para nos apresentar é um desemprego de 18% para 2016?


Foi ele quem definiu uma meta que consiste em destruir uma inteira geração através duma austeridade sem perspectivas? Foi ele quem definiu uma política, que agora não há ninguém que não saiba, provocou que todos os sacrifícios, todos os cortes, todas as desgraças provocadas tivessem sido em vão? Foi Gaspar que condenou os nossos filhos, sobrinhos e amigos a emigrar definitivamente pois o País nada lhes terá para oferecer nas próximas décadas?


Não, não foi ele. Foi o primeiro-ministro. E existisse sentido de Estado, conhecesse Passos Coelho o verdadeiro estado do País, entendesse a enormidade das suas opções e o primeiro-ministro pediria uma audiência ao Presidente da República e faria também o evidente: apresentaria a sua imediata demissão.


A dimensão da tragédia que nos foi apresentada é demasiado brutal para que tudo fique na mesma. Nós já a conhecíamos, mas pela primeira vez o Governo deu a entender que finalmente tinha percebido. Convenhamos, era, aliás, impossível, desta vez, não perceber: os números, sobretudo os do desemprego, são demasiado estridentes.


Falhou, falhou tudo. O fracasso é completo e total. Um Governo que precisa de aqui chegar para perceber que errou não pode permanecer em funções. Um Governo que foi o primeiro agente de destruição duma geração, dum tecido económico, de ter criado uma situação social insustentável, um nível de desemprego que destrói uma comunidade, não pode agora vir dizer que vai mudar (nem essa intenção tem, claro está). Um Governo que espalhou e aplaudiu todo o napalm económico e social que vinha da Europa não tem a mais pequena capacidade de negociar uma outra política. (...)


 


Pedro Marques Lopes


 

16 março 2013

Abismos

 



 


É difícil perceber a obtusidade, a incompetência e o total desrespeito pelas pessoas e pela democracia destes líderes europeus. Vamos de abismo em abismo até...


 

Camille Claudel

 


 



 


 


 



Bruno Nuytten


 


 


 



 Bruno Dumont


 


 


Vi o primeiro filme, com umas soberbas interpretações de Isabelle Adjani e Gérard Depardieu. Fiquei fascinada com Camille Claudel e com as suas obras, a loucura, a obsessão pela terra, pelas mãos, pela criação, o amor-ódio por Rodin e a traição do irmão. Mal posso esperar por esta versão.


 

Prelúdio & Fuga Nº 5 em Ré maior BWV 850

 



 Friedrich Gulda


 


 




 

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...