26 agosto 2012

À porta

 



Ai Weiwei


 


Ficar à porta sempre à porta.


Vislumbrar contornos sombras


ouvir sons indistintos familiares


o morno em coisas conhecidas seguras


perfumes vagos de conforto.


Ficar à porta como ladrão faminto


ansiando por migalhas de carinho.

Que não se nos apague a memória

 



Salvador Dali 


 


Na próxima semana o governo será de novo avaliado pela Troika quanto ao cumprimento da última versão do memorando de entendimento.


 


Tendo em conta que a Troika é co-responsável pela situação em que estamos e que Portugal é a última oportunidade para que esta política se justifique, a avaliação, por muito que todos saibamos que é negativíssima, será positiva.


 


Convém que não nos esqueçamos da instabilidade política que levou à queda do governo de Sócrates, eleito em 2009, empurrado por toda a oposição, que tinha a receita milagrosa para o crescente desemprego, a depressão económica, enfim, a resposta para a crise instaurada por Sócrates.


 


Da extrema-esquerda à direita mais reaccionária, de tudo se usou para assassinar as políticas entretanto defendidas pelo PS. A irresponsabilidade do BE e do PCP, que continuam a defender o paraíso na terra, sem que para isso se sintam obrigados a explicar a forma de o atingir, para além das promessas de ataque ao capital que explora os indefesos trabalhadores, assim como a irresponsabilidade do PSD e do CDS, cuja ideia de sociedade não inclui o serviço público, o estado como garante da igualdade de oportunidades, os direitos dos cidadãos à saúde e à educação, fizeram aprofundar o binómio crime / castigo para quem ousou aspirar à ascensão social e aos bens materiais, disponíveis apenas para quem tem berço.


 


Convém não nos esquecermos de todas as promessas desfiadas na campanha eleitoral, em que a mais emblemática foi a desvergonha da negação de redução dos rendimentos das famílias. Mas também convém lembrar o que foi dito que se faria e que está a ser feito por esta maioria, como a destruição do estado social, da escola e da saúde públicas, o esvaziamento das funções do estado, o empobrecimento da população mais carenciada e da classe média, a alienação de tudo o que pode ser privatizado, o assalto aos cargos públicos, o desrespeito pelo papel fulcral que uma informação liberta dos interesses económicos representa para o regime democrático.


 


Convém lembrar que a estabilidade política é, de facto, um bem, que a demissão deste governo e deste ministro das finanças não traria melhores soluções, pois não há alternativas. O PS de António José Seguro está mais preocupado em negar, mesmo que pela omissão, a existência de um passado recente, do que em demarcar as diferenças. Foi o PS que negociou, como governo demissionário e com os partidos desta maioria, o memorando de entendimento com a troika. Está obrigado a honrar esse compromisso e a apoiar as medidas que constam desse memorando ou das que são indispensáveis para que se cumpra. Mas o PS deve pugnar porque a sua voz, para além da troika, se oponha a tudo o que tem vindo a ser feito, a reboque da crise, da austeridade e da sua auto flagelação.


 


Convém lembrar que esta maioria foi votada em liberdade, para constituir governo e salvar Portugal, nas inspiradas palavras do nosso herói mais recente. Tem quatro anos para o fazer e nós todos, os eleitores, deveremos somar os prejuízos para apresentar a nossa conta, na tentativa de saldar a imensa dívida de que já somos credores.


 


É bom que não nos permitamos esquecer.


 

19 agosto 2012

Do viço da esquerda

 



 


Requisitos mínimos para se pertencer à esquerda enérgica: 


Nunca usar gravata


Falar sempre com as sílabas muito abertas e bem soletradas


Abrir muito os olhos


Dizer sempre companheiras e companheiros, homens e mulheres, pessoos e pessoas


Utilizar sempre superlativos de quantidade


Acentuar BANca, BANQUEIros, capiTAL, eNORme, esQUERda


Ter muitos dentes na boca


Induzir envelhecimento precoce a quem ouvir a militância

À beira da sublevação

O verdadeiro desastre nacional, pelo qual a sublevação popular é certa, está na hipótese de cessarem os jogos de futebol todos os santos domingos.


 


Ignomínia desta jamais se admitirá. E logo após a torpe cena de mau teatro, protagonizada pelo árbitro do jogo entre o Benfica e o Dusseldorf, insinuando maldosamente uma agressão da parte de um jogador que apenas mostrou a sua indignação inocente e mansa, tal como o Presidente do mesmo clube, herói que não deixa que se ataque tão respeitador e desportivo homem.


 


Que se acautele o governo. Não há nada pior que o povo ficar com tempo para pensar.

Esquerda transbordante

 



 


A esquerda grande, enérgica e presente, a tal que tem como objetivo um governo de esquerda, tem uma visão de democracia interna peculiar, visto que até indica sucessores e formas de sucessão.


 


Mas parece qua há algumas companheiras da esquerda enorme, que não estão assim tão confortáveis com esta solução da esquerda gigante.


 


18 agosto 2012

Novo amor


Maria Rita



A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval.


Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou.




A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor.




15 agosto 2012

Doze sardinhas

 


Olhou para a travessa com doze sardinhas. Um exagero e um desperdício. Deveriam ter pedido uma dose para os dois. Dava e sobrava. Bem, sempre poderiam levar as que sobrassem para casa. Com um molho qualquer de cebolada dava uma refeição para um deles.


 


Deu-se conta de uma figura meio amarfanhada, uma sombra à sua frente. Um Homem um tanto curvado, de estatura média, a nadar dentro de uma camisa acinzentada e de umas calças puídas. Salmodiou algo incompreensível, num eslavo mesclado de sons portugueses, com gesto brando apontou para as sardinhas. Tinha fome.


 


Indicaram-lhe a cadeira ao lado e acenaram-lhe que se sentasse. Deram-lhe a salada e as sardinhas que restavam. O Empregado pôs-lhe na mesa um prato, um garfo e uma faca, aqueceu-lhe as sardinhas e encheu-lhe a travessa de batatas.


 


Levantou-se e agradeceu-lhes da mesma forma ininteligível. Deixou o prato totalmente limpo, apenas com os restos das cabeças das sardinhas. Encostados às ombreiras da porta, os Empregados comentavam que já há algum tempo que não aparecia e que, por vezes, era muito mal-educado. Mas desta vez, não tinha sido.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...