18 agosto 2012

Novo amor


Maria Rita



A luz apaga porque já raiou o dia
E a fantasia vai voltar pro barracão
Outra ilusão desaparece quarta-feira
Queira ou não queira terminou o carnaval.


Mas não faz mal, não é o fim da batucada
E a madrugada vem trazer meu novo amor
Bate o tambor, chora a cuíca e o pandeiro
Come o couro no terreiro porque o choro começou.




A gente ri
A gente chora
E joga fora o que passou
A gente ri
A gente chora
E comemora o novo amor.




15 agosto 2012

Doze sardinhas

 


Olhou para a travessa com doze sardinhas. Um exagero e um desperdício. Deveriam ter pedido uma dose para os dois. Dava e sobrava. Bem, sempre poderiam levar as que sobrassem para casa. Com um molho qualquer de cebolada dava uma refeição para um deles.


 


Deu-se conta de uma figura meio amarfanhada, uma sombra à sua frente. Um Homem um tanto curvado, de estatura média, a nadar dentro de uma camisa acinzentada e de umas calças puídas. Salmodiou algo incompreensível, num eslavo mesclado de sons portugueses, com gesto brando apontou para as sardinhas. Tinha fome.


 


Indicaram-lhe a cadeira ao lado e acenaram-lhe que se sentasse. Deram-lhe a salada e as sardinhas que restavam. O Empregado pôs-lhe na mesa um prato, um garfo e uma faca, aqueceu-lhe as sardinhas e encheu-lhe a travessa de batatas.


 


Levantou-se e agradeceu-lhes da mesma forma ininteligível. Deixou o prato totalmente limpo, apenas com os restos das cabeças das sardinhas. Encostados às ombreiras da porta, os Empregados comentavam que já há algum tempo que não aparecia e que, por vezes, era muito mal-educado. Mas desta vez, não tinha sido.

A crise no feminino

 



Chiara Bigatti


 


Elas deitam-se a fazer contas, dormem a sonhar com números e acordam a dividir.


Elas dividem-se entre a frutaria, o talho, os mercados, as marcas brancas.


Elas despedem as empregadas domésticas e impregnam-se do ser doméstico.


Elas aprendem a fazer pão, a demolhar feijão, a planear a refeição.


Elas inventam receitas, repartem a comida, enchem as lancheiras.


Elas desistem do cabeleireiro, do verniz das unhas, das águas-de-colónia.


Elas reciclam a roupa, lavam a roupa, passam a roupa.


Elas fazem bolos, compotas e carinho.


Elas transpiram, conspiram e suspiram.


Elas revoltam-se e resignam-se, resignam-se e revoltam-se.


Elas não têm trabalho e fartam-se de trabalhar.


Elas não têm salário nem direitos a reivindicar.


Elas deitam-se derrotadas e levantam-se esperançadas.


Elas perdem o que tinham e dão o que têm.


Elas deprimem-se, calam-se, entristecem.


Elas desenfeitam-se e enfeiam.


Elas desintegram-se.


 

14 agosto 2012

Preparativos para a época de Outono

 



 


Paulo Portas já começou a preparar a época pós férias da política nacional. Os dados do INE de hoje vão alimentando os sinais de crise governamental e da coligação, pois é cada vez mais evidente que os objectivos traçados por Passos Coelho e Vítor Gaspar, apesar da imposta austeridade, não serão atingidos. Pelo contrário, agravaram-se as condições, já de si bastante precárias, da população.


 


O Ministro dos Negócios Estrangeiros vai promovendo contactos (pouco) secretos com o líder da (inexistente) oposição. Virá aí (mais uma vez) um governo de salvação nacional/ bloco central?


 

13 agosto 2012

Lava

 



 


 


Sabemos das verdades que incomodam


mesmo sem consciência.


Impõem-se com uma perna amputada.


Podemos revolver a carne da alma


soterrar o fel e a lama


que elas permanecem


como a lava de um vulcão adormecido.


 

12 agosto 2012

Dar a cara

 



João Vasconcelos


Os objetivos foram atingidos, embora o sr. primeiro-ministro, na prática, tenho tido a mesma atitude que o sr. Presidente da República, ontem à noite, porque não quis dar a cara


 


Multiplicam-se estas manifestações totalmente injustificáveis em democracia. A intimidação seja de quem for, nomeadamente dos governantes, impedindo-lhes uma vida privada em segurança, como o que, nos últimos anos, tem acontecido, é uma afronta. Não se pode aceitar que, de cada vez que o Presidente, Passos Coelho ou qualquer outro ministro aflorem a rua, sejam vaiados, enxovalhados e ameaçados por gangs de pseudo activistas políticos, obviamente pertencentes a partidos de raiz e de práticas antidemocráticas.


 


Os cidadãos têm o mesmo direito de se manifestarem em liberdade que os governantes têm de se deslocarem na via pública, em paz e sossego. Quando são chamados a julgar os seus representantes, muitos dos que se calam agora e que murmuram bem-feito esquecem-se de ir votar, ou pura e simplesmente não se dão ao trabalho de o fazer.


 


A direita que nos governa deverá ser responsabilizada pelas opções e pelas medidas a que temos assistido, pela destruição do estado social, pelo empobrecimento do país, pelo aumento das desigualdades e pela recessão, mas nas urnas, de forma adulta, firme e inapelável.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...