11 agosto 2012

A derrota da crise (8)

 



 


Depois de uma caminhada Avenida da Liberdade abaixo, desde o São Jorge, em tarde de Verão a sério, nada melhor que ouma visita ao ministério da finanças, bem mais simpático no acolhimento da história da cerveja em Portugal, acompanhada da prova da dita, a Bohémia da casa.


 


Antes da caminhada Avenida da Liberdade acima, paragem para revigorar o espírito e a gula e lamber um delicioso gelado, a meio da Rua Augusta.


 


A crise também está na nossa cabeça. O melhor é não lhe dar confiança.


 


Segredos

 


Gosto imenso destes almoços secretos, escancarados nas páginas dos jornais.

Sabemos

 


O que mais revolta é que todos sabemos das manipulações, das guerras de informação, das recicladas ideologias e valores pretensamente morais. O apontar de responsáveis para que todos olhem numa só direcção. A enorme enchente de evidências diariamente retratadas nos media, naqueles que não se importam de ser correias de transmissão acéfalas.


 


Não podemos dizer que não sabemos. Sabemos de tudo.

06 agosto 2012

Não pessoa

 



Paula Rego 


 


Ser uma boa pessoa usada


amantíssima da existência


cumprir as tarefas da sobrevivência.


Bastar-se com a dormência


do dia a dia ocupar-se


ser uma boa pessoa.


Ser uma não pessoa.


 

Sobressalto

 



Cai Guo-Qiang


 


Até na morte procuramos o que não somos


mas quereríamos ter sido.


Incessantemente tentamos a originalidade


um sentido um qualquer desígnio que nos afaste da mole idêntica


normalizada trivialidade.


Até na morte desejamos ser únicos.


 


Talvez assim todos os dias que a vida nos traz


sempre iguais e sem qualquer fulgor


possam produzir um simulacro um travessão


um pequeno sobressalto na massa do tempo.


 


 

05 agosto 2012

Chama

 



Chris Uyehara & Stan Kolonko


 


Tudo já foi dito como os dias que sucedem


às horas que desmontam aos minutos que desgastam


tudo foi vivido como os corpos que se despem


as penumbras que afastam os desenhos que afagam


tudo mesmo tudo mesmo a misteriosa inflexão na voz que nos chama


mesmo a súbita chama


mesmo a fugaz e inútil chama.


 

01 agosto 2012

Abandono

 



Charles Umlauf


 


 


Apressada cheguei-me à Senhora que tinha uma cara de quem vai esperar horas, para a fazer entrar, com as desculpas prestes a escaparem-me da boca. Ao lado da Senhora, silencioso e muito composto, um Rapazinho pequenino, cabelo revolto, costas direitas e pés bem acima do chão, segurava um guardanapo ligeiramente avermelhado que pressionava contra o nariz, emprestado pela sua companheira de espera. Quando indiquei à Senhora o caminho para o gabinete, apercebi-me que o Rapazinho estava só. A Secretária que, entretanto, me vinha dar uns papéis para assinar, disse-me que iria passando para ver dele, pois a Mãe estava a fazer um exame.


 


Acerquei-me do Rapazinho e perguntei-lhe o nome, com a intenção de esperar com ele que a mãe regressasse. Tentei perceber o que tinha no nariz, e fiquei mais descansada ao ver uma pequenina crosta levantada, que já não sangrava. O Rapazinho murmurou o nome dentro dos seus 5 anos, muito direito e muito sisudo, com os olhos a brilharem, até que desatou a chorar, primeiro devagarinho, depois aos soluços, deixando desabar as forças de contenção que até àquele momento o tinham mantido sereno. Envolvi-o num abraço que encontrou um corpinho tão pequenino, morno e tremente, num choro manso e tão desesperado que eu própria tive vontade de chorar.


 


Assim ficou até a porta da sala se abrir, saindo de lá a Médica que, olhando para aquele quadro, lhe disse que já podia entrar. Aí foi ele, a medo, agarrar-se à Mãe, abrindo ainda um pouco mais as lágrimas, finalmente mais soltas, finamente acreditando que não tinha ficado sem ela.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...