05 julho 2012

Fim de tarde

 



Jacqueline Rush Lee


 


 


Espalhavam-se pelo recinto, em pequenos grupos, habitualmente centralizados por alguma figura pública rodeada por outras que aspiravam à publicidade, do qual ressaltavam, por vezes, vozes exuberantes e risos de estalo. A roupagem era cuidadosamente casual, os olhares abrangendo a assembleia, atentos a quem chegava e a quem partia, trocando-se murmúrios de reconhecimento e identificação.


 


Arrastava-se a hora marcada muito para além do aceitável como é de bom tom em eventos literários, vernissages e afins, em que o fazer-se esperar a audiência apenas tem como objectivo ver e ser-se visto.


 


Autores sentados, apresentador a preceito, voz profunda e texto em folhas A4 frente e verso dactilografadas, letra arial 12 a espaço e meio, perante a assistência já preparada para os pequenos sons guturais de apreciação e aplauso, pequenos risos entremeados, acenos de cúmplices entendimentos. E de uma assentada, aquilo que se antevia como horas de prazer despretensioso, na mente de calções e pés descalços, areias macias e fins de tarde gloriosos, transformaram-se num manancial de profundos pensamentos, abundantes citações, indagações da vida e filosofias de antanho.


 


Muitos terão definitivamente decidido em que canto da prateleira iriam arrumar o pesado causador do evento, depois de uns dias estrategicamente colocado à vista dos visitantes. Muitos terão definitivamente decidido do imenso tédio de tal leitura, aposta pouco profícua para as horas de lazer. Poucos os que tentaram ver, atrás dos semblantes compungidos e seráficos dos autores, o susto de terem produzido tal imensidão de alindados pedregulhos, de tão espantosas metáforas, de tão deleitosas capacidades de projecção de consagrados autores literários.


 

04 julho 2012

Jornalismo político

 


Há muito que o jornalismo deixou de ter como objectivo a informação. E talvez este nunca tenha sido o único, mas apenas aquele que servia de cartão-de-visita para determinados posicionamentos políticos e ideológicos. Mas arrogar-se de um distanciamento científico e patriótico para servir uma determinada agenda, é menorizar a inteligência de quem ainda lê jornais.


 


No editorial de hoje o Diário Económico online, do alto da sua cátedra, discorre sobre o prejuízo para o país que será consequência das greves que se avizinham, misturando a dos pilotos da TAP com a dos médicos, a da Rodoviária de Lisboa e a da CP. Diz o editorialista (não identificado, por sinal), que o país precisa de trabalho, em vez disso assistindo ao regresso da política pura e dura, subentendendo-se como o regresso de todos os males.


 


Só que o próprio editorial é uma intervenção política, mascarada de análise, em que só falta dizer tudo pela Nação, nada contra a Nação, deixemos a política que só nos divide. A lavagem cerebral contínua que este tipo de artigos e comentários tentam, é bem a prova de que não existe jornalismo independente. Nada tenho contra, desde que estes interventores políticos se assumam como tal.

03 julho 2012

Mato

 



T.A.G: The room


 


 


O que foi que nos atrasou neste tempo


de searas verdes de vinhas cansadas de mato em sangue?


O que foi que nos leram em infâncias


relembradas nos vagarosos lumes de anteriores Outonos?


Nem sempre os lamentos nos consolam


nem as rugas se prestam ao lento remar da melancolia.


 

Tanto mar

 


Pedro Adão e Silva é dos comentadores que mais gosto de ouvir. Também gosto das suas escolhas, na TSF. Quanto ao João Catarino, os seus traços são muito interessantes. Penso que não será só um bom livro de férias e para férias, mas um cheirinho de mar para todos os dias do ano. Vou tentar lá estar.


 



 

02 julho 2012

O livro do sapateiro (14.)

 



Pedro Tamen: O livro do sapateiro


 


A mão. É esta mão que percorre


a pele curtida por anos,


por anos de livres passos,


por ares de bosques e serras,


e vem aqui aninhar-se


entre estes dedos nodosos,


doridos, desajeitados,


que cumprem o seu dever


para nela pôr o ser


de uma nova liberdade.

Propaganda a funcionar

 


Se o valor de referência é 10€/hora, porque é que a ARSLVT negoceia com empresas e não diretamente com os profissionais?

Títulos alternativos (2)

 


Dívidas do Estado aumentam o buraco dos Hospitais


 


As despesas são responsabilidade da gestão de cada hospital. As receitas dos hospitais são provenientes do Estado, que tem que lhes pagar aquilo que contratualizou.


 


(...) As despesas até diminuíram em 207,1 milhões (-5,9%) até Maio. O problema é que as receitas caíram ainda mais: 337,6 milhões (-9,7%). (...)

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...