
Anjos com fome
Vários andares, níveis de consciência, capacidade em estar atento. Vários espelhos onde se vê e revê a memória, o passado, o corpo, onde se encontra o próprio ou a imagem que se projecta para fora do próprio.
Vários sons, aflitos, suaves, assustadores, arrepiantes, calmos, ondulantes. Poucas vozes as dos poemas, poucos os poemas nesse poema inteiro. Poucas as palavras ouvidas em tom de confidência. Vários os tons de branco e castanho velado, de dourados secos e velhos, de vermelho e ocre. Várias as texturas dos tecidos, das pedras, das madeiras, da água, da poeira.
Várias as portas e as chaves que se abrem e fecham, que escondem e mostram, que começam e acabam, por onde se entra e se sai. Vários os movimentos de dança e desespero, de poder e submissão, de amor e de ódio, de recolha, de manipulação, de despojamento. Vários os momentos de partilha e solidão, de crueldade e sedução.
Caóticos e loucos, calados e gritantes, desconexos e pueris, inacabados e em fragmentos, de risos e viagens, sonhos de mulheres que são, que fizeram, que tiveram, que deram, que quiseram, que desejaram, que fugiram, que romperam. Tantos os sapatos que podemos calçar, que nos ensinam a calçar e que nos fazem meninas e velhas, monstros e anjos. Impossíveis as palavras para este espectáculo, defini-lo ou contá-lo, explicá-lo ou senti-lo. Surpreendente, impensável, lindíssimo e provocador.
Mais uma vez parabéns ao Teatro Meridional e a todos os colaboradores, que fazem de cada trabalho uma experiência imperdível. Destaque para as extraordinárias actuações das actrizes Ana Lúcia Palminha, Carla Galvão e Susana Madeira.