01 setembro 2011

Teia

 




Antony Gormley: Firmament II


 


1.


Sempre passa o momento de ter sido.


Aguardo o momento em que serei


momentos em que nunca sou


mas sempre fui.



 


2.


Enroupamos a tristeza com malhas de brandos gestos


para que ninguém ouse sequer romper a teia


da nossa armadilha. Mesmo assim carecemos de gelo


para que possamos derreter qualquer fragmento


de luz que encandeie os arroubos de ternura


que se atrevam a cruzar a aridez do caminho.

Da história deste governo

 


Este governo continua a sua caminhada para a História, disso não temos dúvidas. Ficará na História o embuste que levou à dissolução da Assembleia da República, a enorme falsidade com que Passos Coelho justificou a não aprovação do famoso PEC IV. Ficará na História o assalto aos contribuintes que este governo continuamente realiza, a total falta de vergonha com que faz exactamente o contrário do que anunciou que nunca faria, e que tomou como razões para mostrar ao eleitorado a justeza da precipitação de uma crise política que, tal como foi reconhecido pela troika, contribuiu para o agravamento do défice.


 


Além do agravamento fiscal para os rendimentos do trabalho, sem quaisquer medidas para os rendimentos do capital, ressuscitou-se o conceito do estado assistencialista e da estigmatização de grupos sociais. As recentes medidas de aumento do número de vagas nas creches e infantários apenas à custa de um aumento de crianças por sala, sem se perceber se essas alterações põem ou não em risco a segurança e o bem-estar das mesmas, para além do aumento de alunos por turma no primeiro ciclo, aumentando a dificuldade de um ensino mais individualizado, demonstram a visão que este governo tem do que é um serviço público de educação.


 


Em termos de saúde, todos estamos de acordo em que é necessário rentabilizar recursos. Mas o que se tem assistido diariamente é à produção de despachos ministeriais que obrigam a reduções percentuais de custos, no geral, sem se perceber como é que estes custos podem ser reduzidos. Chegará o o momento do governo, mais especificamente o Ministério da Saúde, explicar aos Hospitais e Centros de Saúde como é possível continuar a assegurar a mesma prestação de serviços - consultas, cirurgias, medicamentos, urgências, etc. - com a mesma qualidade. Por outro lado, o acabar com as deduções fiscais (em sede de IRS) que dizem respeito a despesas de saúde (e educação), vai haver cada vez menor possibilidade da população recorrer a prestadores privados.


 


Os cortes na despesa do estado estão a ser feitos à custa de uma aumento do desemprego (prometida redução de 10.000 funcionários públicos por ano) e a uma redução salarial (ordenados e progressões congeladas durante, pelo menos, mais 2 anos).


 


Estamos a reiniciar o calendário escolar, muitos dos cidadãos regressam hoje ao trabalho. A sensação de injustiça e de propaganda fraudulenta alastra, mesmo entre os defensores da maioria que nos governa. Na verdade, o que os movia era apenas o assalto ao poder, pois o que de diferente se está a fazer é o exagero colossal do que já se fazia, para além do regresso à vida comezinha, à falta de investimento (nomeadamente na ciência), ao desaproveitamento do que de positivo se fez nas anteriores legislaturas e, predominantemente, à total falta de visão e de estratégia para o futuro.

31 agosto 2011

Espartilho


 


Nos tempos que correm é difícil discutir outros assuntos que não se prendam com o receio do futuro, a capacidade de lutar pela sobrevivência. O dia a dia das pessoas é cada vez mais difícil, o emprego é cada vez mais escasso, os impostos são cada vez mais altos, os rendimentos são cada vez mais reduzidos. A vida afunila-se com a praça, os sapatos, a carne, os transportes, a chuva, o acordar a fazer contas, o deitar a fazer contas, olhos abertos fixados lá na frente sem se ver nada para lá do dinheiro, ou da falta dele, e da certeza de que se piora todos os dias.


 


Como se pode pensar noutras coisas, ler livros, assistir a colóquios, conversar sobre pintura, cinema, viagens, personagens históricas, personagens de romance, distanciamentos, religião, escritores, músicos, concertos, passeios? Como se poderá alterar as prioridades da existência? Estas preocupações, quase obscuras, quase obscenas para quem tem obrigatoriamente as comezinhas mas indispensáveis tarefas de angariar fundos para se manter, para levar uma vida com um mínimo de segurança, estas preocupações fazem parte da essência da liberdade.


 


Que liberdade numa sociedade que se espartilha entre o somatório dos débitos e dos défices e das crises? Onde está o indivíduo e o seu espaço de procurar, comparar, conhecer, escolher? A mentalidade da servidão alimenta todas as ditaduras. Mas como se pode sacudir o sentimento de impotência, a dependência das migalhas diárias com que temos de nos contentar?


As vozes dos outros (2)

 



(...) e penso que o hábito precoce da solidão é um bem infinito. Ensina-nos, apenas em parte, a não precisar das pessoas. Ensina-nos também a amar mais os seres. Além disso, há um fundo de indiferença na criança que muito raramente é descrito. Não sei se as pessoas se sentem embaraçadas com o sentimento dessa indiferença, mas fico impressionada quando observo as crianças: vivem num mundo muito próprio. (...) Creio que os escritores, nas sua maioria, mesmo os "sérios", que falam da infância, se enganam sempre. Vêem a criança do seu ponto de vista de adultos, ou fazem um esforço enorme para se colocar no lugar do que imaginam ser uma criança. Tudo isto é demasiado sistemático, está demasiado próximo das nossas próprias convenções. Julgo que a criança se orienta na vida de forma muito vaga, com a surpresa do animal jovem, que vê ou encontra qualquer coisa pela primeira vez. As pessoas grandes que a rodeiam, cuja identidade nem sempre é muito clara - uma dizem-lhe ser, ao que parece, o pai, que se chama "papá" (mas o que é para ela um pai?), outra a mãe, e a terceira a criada, a cozinheira ou o carteiro - são todas "pessoas grandes", que têm uma certa importância mas, ao mesmo tempo, não estão muito ligadas à criança nem à sua vida própria, aliás impenetrável para aquelas pessoas. (...)


 


 


De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar - Conversas com Matthieu Galley


Relógio D'Água Editores, Junho de 2011

O tempo dos burlões

 


Há pessoas cujas atitudes são difíceis de perceber e revelam nem eu mesma sei o quê, mas algo de muito estúpido.


 


A minha solidariedade para o Vítor Dias. Continuarei a visitar o tempo das cerejas 2.

28 agosto 2011

Coisas simples

 



 


Ignacio Canales Aracil 


 


 


 


Ainda as coisas simples e seguras


como as mãos que temos juntas


o sal do começo a água que nos limpa


ainda a terra plena que nos sustenta


a massa o pão as cinzas


o amor que nos alimenta.

As vozes do outros (1)


 



(...) Quando falamos de amor pelo passado é preciso ter atenção, pois é do amor à vida que se trata. A vida está muito mais no passado do que no presente. O presente é um momento sempre curto, mesmo quando a sua plenitude o faz parecer eterno. Quando se ama a vida, ama-se o passado, porque é o presente tal como sobreviveu na memória humana. O que não significa que o passado seja uma memória de oiro: tal como o presente, é ao mesmo tempo atroz, soberbo ou brutal, ou apenas vulgar. (...)


 


 


De Olhos Abertos - Marguerite Yourcenar - Conversas com Matthieu Galley


Relógio D'Água Editores, Junho de 2011


 


Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...