27 abril 2011

O voto dos portugueses

 


A noção de democracia de alguns dos nossos representantes partidários é estranha. Não entendo como é possível dizer-se com quem vai e com quem não vai negociar antes de conhecer os resultados das eleições.


 


Quem for a votos terá, obrigatoriamente, de respeitar o resultado das eleições, quer as ganhe quer as perca.


 

26 abril 2011

Onde está?

 



 


As notícias que dão como provável o pagamento dos 13º e 14º mês em títulos do tesouro (manobra de desinformação?) não são surpresa, mas são mais uma certeza de que os salários vão continuar a reduzir-se, que temos que saber olhar para prioridades nos gastos, nos investimentos, nos valores e naquilo que consideramos profundamente importante e necessário.


 


Começa a ser intolerável assistir à vergonha de acusações, propaganda, cartas escritas a representantes políticos que são enviadas à comunicação social, grandiloquências retrógradas, justificações disparatadas e oportunismos vários da parte de quem, por obrigação de função e moral, deveria ter respeito por aqueles que votaram.


 


A personalização das frustrações, das incapacidades e dos erros, em vez da discussão de verdadeiras opções políticas apenas aumenta a impossibilidade da resolução dos problemas. As figuras que representam os partidos e as várias facções políticas são importantes, como é óbvio, mas não são donas dos partidos nem dos votos de quem os elege. É absolutamente indispensável, tanto como a participação maciça dos cidadãos nas próximas eleições, que Sócrates e Passos Coelho entendam que não são os seus egos, as suas vitórias e as suas derrotas que importam. É imperioso que as principais figuras do Estado se respeitem. A linguagem da taberna é para a taberna, não para a Assembleia da República.


 


Não é admissível que se chame foleiro ao Presidente da República, ter na lista de candidatos a deputados pessoas que roubam microfones aos jornalistas, ministros que usam a televisão para enviar recados a outros, cartas e mensagens de políticos uns aos outros na comunicação social, que o Primeiro-ministro e o líder o principal partido da oposição não se cumprimentem em cerimónias públicas.


 


Basta da falta de decoro generalizada, da inenarrável má educação, grosseria e incompetência na resolução dos problemas que todos temos que resolver. Quero votar em gente que tenha como principal preocupação o país. Onde está?


 

25 abril 2011

Milonga de Abril

 



Tenho a dizer-te que tudo me incomoda. A roupa demasiado justa por sobre o corpo molhado, sempre a enrolar-se de um calor súbito e preciso, distribuído pela ansiedade de quem personifica a revolta contra o tempo. O peso que já não se reparte pelas várias zonas que ocupa, mas que se fixa inexoravelmente no apoio que falta. O cansaço mole dos movimentos presos, das noites em claro, dos pensamentos em círculos contínuos e fechados.


 


Tenho a dizer-te que a Primavera não está apenas nos perfumes que se misturam, nas ervas que crescem, no azul e verde que desponta a cada manhã. Não está ainda no caminho que faço junto ao mar, nas mãos que vou apertando e sentindo frias, nas portas teimosamente entreabertas. Sempre um biombo invisível.


 


Tenho a dizer-te que tardam os sinais da mudança, que desmaia o vermelho das flores, que se calam os filhos, que desistem os velhos, que se entulham as vontades, que se somam os silêncios, que arrefecem as bandeiras.


 


Tenho a dizer-te que Abril está mas não chegou, que Abril ainda não chega, que Abril congela nos abraços adiados, que Abril semeou mas não colheu, fartura de esperança sem Maio à vista.


 


em Revista-Me nº 01


 

Raízes

 



 


 



1.


Se olhares por fora


dissecares os hábitos de quem vive


neste pequeno centro sem cor,


se olhares para o negro


que afunda de maré vaza


as nossas praias


se olhares de dentro


fechas definitivamente a fronteira.


 


 



2.


Raízes de sal e algas sem terra firme


construímos as pontes do mundo.


Barcos e cruzes devotos de horizontes


Misturas e raças que nos entranham


sempre em busca do que não temos.


Em frente ao mar o desespero não tem lei.


 

24 abril 2011

Um dia como os outros (84)

 



(...) Amanhã, gostava de regressar à Avenida da Liberdade. De levar os meus filhos e com eles me sentir próximo de gente - estarão poucos ou nenhum - que ainda se lembra dos verdadeiros valores de Abril. Sobretudo da tal sensação de tudo ser possível, de sermos capazes, do futuro ser nosso. Não me lembro doutra ocasião, em trinta e sete anos, em que fosse tão necessário relembrarmos o que sentimos no dia 25 de Abril de 1974.


 


Pedro Marques Lopes


 


(...) Talvez tenha precisado de 37 anos inteirinhos para perceber que é meu dever lá estar, que não chega saber para comigo que foi um dos melhores, maiores dias da minha vida, mesmo se tinha só 10 anos, mesmo se o que vi da revolução ao vivo foram soldados na ponte Marechal Carmona (que ainda se chama assim, já agora), e que o que sou, como o que somos, as escolhas que pudemos e podemos fazer, o que podemos e pudemos sonhar e rejeitar, se fundou aí, se iniciou aí, se ancora aí. Que é altura de engrossar o número dos que celebram e não capitular na entrega disto a seja quem for, e muito menos ao olvido. Coincidência que seja este o ano em que se tornou comum, banal, quase normal ouvir e ler que “antes era melhor” ou que “não valeu a pena”. Coincidência que seja este o ano em que a Assembleia da República não festeja. Coincidência, sem dúvida, mas feliz, digo eu: é agora que é mais preciso, e é agora que faz mais falta. Fazer a marcha do orgulho do 25 de Abril. Embora.


 


Fernanda Câncio


 

Farófias e bel-canto

 



 


As farófias tomam conta da vida política. Por um lado, ficamos mais leves e mais doces. Tal como as farófias, as ideias derretem-se e é como se nunca tivessem existido. Ocupam o lugar do ar batido entre as claras, fofas, leves, como espuma.


 


Ao lado das farófias só o canto, o bel-canto, para ser mais precisa, a voz funda e vibrante, a postura da boca e das cordas vocais, os olhos que sonham o horizonte, enquanto o som treinado de uma laringe educada se faz ouvir aos ouvidos das gentes simples. Lá lá lá lá lá lá…


 


Ao lado das farófias e do bel-canto soa a família, a que se tem e a que se queria ter, os filhos, os cães, os periquitos, as tartarugas, os beijos, as mãos dadas, o eu amo-o profundamente, o ser brincalhão, os romances e os pastéis de nata.


 


E assim vamos nós, das farófias para o bel-canto, da mensagem pascal para as cadelas, do cor-de-rosa para o cor-de-laranja, do que não interessa nada para o que não tem interesse nenhum.


 

Inclinação

 

Cheryl H. Hahn: Incline

 


A tarde com as mãos na terra


ervas e aromas acalmam o dia.


Lá fora os ruídos do mundo sem chão


e as palavras sem rega nem regras


sem perdão.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...