04 abril 2011

(Não) Somos todos Iguais


 


Há alguns dias, em acesa discussão com uma amiga, à volta de um jantar que tentava apagar a exaustão que nos acabrunhava, afirmava eu com toda a convicção que o povo somos nós, bons, maus, corruptos, rigorosos, iguais a todos os que tanto condenamos e desprezamos. Ouvi uma resposta meio azeda meio séria, de quem se sente mal pelo que diz, mas convencida da sua razão, de que não, não somos todos iguais, que ela não se sentia parte daquele povo mal educado e vigarista, oportunista e ronceiro.


 


Hoje, ao inteirar-me da forma como o Benfica reagiu à vitória do Futebol Clube do Porto, também eu afirmo que não faço parte do povo que mandou fechar as luzes e abrir a rega, não sou igual a quem atira pedras, a quem faz da selvajaria a relação com o seu pequeno mundo. De facto, ainda bem que não somos todos iguais.


 

03 abril 2011

De passagem


 Shinpei Kusanagi: grace


 


De passagem


sem palavras nem paisagem


corre o murmúrio da terra


o barco pela margem.


 


De passagem


percorro o sentido da mensagem


desfaço  o mapa


continuo de viagem.


 

01 abril 2011

A seguir à Páscoa...


 


Flores vermelhas na rua.


 

Das notas que tomamos (3)

 


 



Coerência e sentido de estado:



  • Cavaco Silva, no discurso de posse, deu o tiro de partida para eleições antecipadas.

  • O Presidente manteve um silêncio inaceitável e politicamente sepulcral nas vésperas da anunciada demissão do governo, dando total cobertura ao chumbo do PEC IV, esquecendo o que, para amedrontar os votantes avisou da irritação dos mercados se ele não fosse eleito à 1ª volta.

  • Passos Coelho não apoiou o PEC IV porque era quadro típico de ajuda externa que tinha medidas extremamente gravosas e injustas.

  • Há uns meses Passos Coelho avisava que se o governo pedisse a intervenção externa era a prova de que tinha falhado, no que foi secundado por Cavaco Silva.

  • Neste momento Passos Coelho diz que o PSD apoiará o governo se este pedir a intervenção externa. E afirma que não apoiou o PEC IV não por irem longe de mais, mas porque não iam suficientemente longe.

  • O Presidente acha que um governo de gestão pode pedir ajuda externa.

30 março 2011

25 de Abril na rua

 



 


 


Ao que tudo indica, a Assembleia da República estará dissolvida a 25 de Abril, pelo que as cerimónias de comemoração do Dia da Liberdade não se efectuarão.


 


Estranho esta decisão e estranho a justificação. Não seria possível abrir excepcionalmente a Assembleia nesse dia, para que a Casa da Democracia se engalanasse e recebesse as justas e dignas festas de Abril?


 


Temo que os valores democráticos, de que esta situação é apenas um símbolo, estejam cada vez mais enevoados. O regime democrático deveria fazer da sua afirmação e empolgamento uma causa suprapartidária e intergeracional. Não há aquisição vitalícia de respeito pelas liberdades cívicas e individuais, nem pelas instituições do poder soberano do povo.


 


Espero que o mesmo povo saiba honrar o dia 25 de Abril como o Dia da Liberdade. Era importante que todos nos mobilizássemos para afirmar que somos livres, que queremos participar na vida do país e que, para além das permanentes queixas e das permanentes crises por que passamos, sabemos dar valor ao que conseguimos a 25 de Abril de 1974.


 


E que tal promovermos uma manifestação simbólica a favor da Liberdade e dos Militares de Abril? Eu sugiro que todos usemos cravos vermelhos, papoilas, rosas vermelhas, antúrios, sei lá, qualquer flor vermelha, bem vermelha, nesse dia. À lapela, no chapéu, como alfinete de gravata ou pregadeira, nas mãos, nos pés, no olhar e, sobretudo, no coração.


 

27 março 2011

A obrigação da esquerda

 


Sócrates foi a votos no PS vencendo os seus três opositores, numas eleições directas em que a percentagem de participação foi de 89,95%. É claro que os seus concorrentes protagonizaram uma oposição decorativa, pelo que se perdeu uma oportunidade de haver uma disputa de liderança, se tivesse havido coragem por parte de alguns dos seus mais assanhados críticos. Mas estes estarão provavelmente à espera da derrota de Sócrates nas eleições legislativas para avançarem com as alternativas que, eventualmente, representem.


 


Seria igualmente importante que houvesse uma disputa de liderança nos partidos à esquerda do PS. A responsabilidade de fazer uma coligação, ou de haver um apoio parlamentar, que pudesse viabilizar um governo de esquerda, é igualmente do BE e do PCP.


 


Não foi só José Sócrates que não fez alianças à sua esquerda. Nenhum dos líderes do PS se coligou com o PCP, antes ou depois de eleições, para formar um governo estável. Tal como com o BE. A credibilidade das posições e das atitudes de ambos os partidos apenas têm dado razão ao PS e, recentemente, a José Sócrates.


 


Tal como Daniel Oliveira disse ontem, n'O Eixo do Mal, os partidos da dita esquerda deveriam ser capazes de tornar públicas as condições mínimas para poderem viabilizar um governo do PS. Segundo a sondagem divulgada pela TVI, se as legislativas fossem hoje PSD e CDS teriam, juntos, 50,9% dos votos, o que significa que a hipótese de uma maioria de esquerda não está de parte. Com as actuais direcções do BE e do PCP isso será impossível, visto que a cultura existente é a do protesto por princípio e como fim.


 


O PS tem a obrigação histórica de reforçar e de reavivar o seu contrato de cidadania, por uma sociedade que olhe para o desemprego, para as desigualdades sociais, para o mérito, para os serviços públicos de qualidade, para a modernidade, que aposte nas tecnologias de informação, na ciência, nas energias renováveis. O PS tem a obrigação de fazer da sua diversidade e da sua tolerância uma força, de se desenvencilhar do oportunismo, do vazio mental, da orla de políticos que dizem o mesmo, com as mesmas palavras e a mesma entoação, quais bonecos de repetição. O PS tem a obrigação de se responsabilizar por aquilo que prometeu e não fez. O BE e o PCP têm uma oportunidade histórica de deixar a retórica da esquerda arcaica e anti democrática, sacudirem os discursos com toneladas de pó e de bolor e criarem condições para que o eleitorado possa confiar e vote à esquerda.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...