05 fevereiro 2011

Hipertensão arterial


 


É oficial: abriu a idade pesada, a meia-idade, a fase descendente, o início da decrepitude, da velhice, do depauperamento. Cabeça de chumbo, forma compacta, andar bamboleante, subir escadas a arfar, palpitações, trabalho, trabalho, trabalho, o corpo em forma de assento, óculos para ver ao longe, óculos para ver ao perto, enfim, todos os ingredientes para ter que assumir que já não chega a automedicação.


 


E lá está – a hipertensão arterial. Imagina as artérias a estreitarem-se e a enrijarem, com as elásticas interna e externa a perderem a elasticidade, o coração a aumentar para conseguir bombear a mesma quantidade de sangue, para todas as ínfimas partes de um corpo cuja superfície vai alastrando.


 


É preciso andar a pé, faça chuva ou faça sol, cedo ou tarde, com frio ou com calor. É preciso comer mais vezes durante o dia, fruta e fibras, yogurts e água. É preciso ver os açúcares, as gorduras, o estado do fígado, dos rins, dos vasos. São precisas análises e ecografias e electrocardiogramas. É preciso render-se ao comprimido diário.


 


Podia ser pior. Podia ter joanetes, hemorróidas, pés de galinha e próteses dentárias. Podia ter que comprar sapatos Dr. Scholl e usar super corega.


Perímetro de segurança.

 


Pesquisei através do Google e fui ao site do PS para tentar ler ou ouvir a totalidade da proposta de Jorge Lacão, pois a única coisa que as televisões, jornais e blogues comentam é a sua obsessão em reduzir deputados. Como de costume, já as vozes de José Lello e Vitalino Canas mataram qualquer hipótese de discutir seriamente quaisquer ideias sobre constituição da Assembleia da República, alteração dos círculos eleitorais, representatividade dos cidadãos, etc.


 


Aguardo também a clarificação política (ideológica) no PS, a que apela José Sócrates. De clareza o PS anda muito afastado, tendo a crise chegado à vontade de arriscar, ao assumir das divergências e ao genuíno combate democrático. Ana Gomes, António José Seguro, Sérgio Sousa Pinto, Helena Roseta, Manuel Maria Carrilho tiveram muitas e graves discordâncias com esta equipa dirigente. Será que vão corporizar alguma alternativa à liderança de José Sócrates?


 

31 janeiro 2011

Em falta

 



 João Jacinto


 


Cortaram os ramos da árvore


em frente à minha janela.


Sei que apenas eu a via


filtrando luz e vento


estendendo folhas e pássaros.


 


Terei que desenhar verdes e troncos


usar os dedos como moldes


semear a imagem que falta


em frente da minha janela.


29 janeiro 2011

Holocausto

 











 

 


Já não são corpos já não são gente


bonecos desarticulados em posições angulosas


sem cabelos dentes carne.


São ossos que nos furam a alma


palhaços tristes trapos imundos


daqueles que se erguem como máquinas


impenetráveis aos nossos olhos


daqueles para quem a morte se engole


com o pão de todos os dias.


 


Já não são corpos já não são gente


são vozes que de todos os cantos do mundo


gritam e choram para sempre.


 

Com que voz









Luís de Camões & Alain Oulmain


Amália Rodrigues


 

 

Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura paixão me sepultou.
Que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado.

Mas chorar não estima neste estado
aonde suspirar nunca aproveitou.
Triste quero viver, poi se mudou
em tisteza a alegria do passado.

Assim a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima ao pé que a sofre e sente.

De tanto mal, a causa é amor puro,
devido a quem de mim tenho ausente,
por quem a vida e bens dele aventuro.


 

 

Do apuramento de responsabilidades

 


Passou uma semana desde o dia das eleições presidenciais. A demissão de Rui Pereira tem sido pedida todos os dias, com aumento de tom e de intensidade.


 


Como disse no próprio dia das eleições, considero lamentável que tenha havido pessoas, muitas ou poucas, que tenham tido dificuldade em votar por incúria dos respectivos departamentos estatais, seja por problemas técnicos, seja por não terem previsto e acautelado a situação, seja por não terem efectuado o que se lhes tinha determinado. Como é óbvio, é urgente que se apurem responsabilidades para que se possa actuar em conformidade.


 


Quando se fala de responsáveis tem que falar-se no Ministro da Administração Interna, responsável por tudo o que acontece sob a alçada do seu ministério, de bom e de mau. Mas acho estranho que, para além do CDS que pediu de imediato a sua demissão, o PSD tenha vindo, primeiro sugerindo depois exigindo a mesma demissão.


 


Em primeiro lugar seria importante saber se houve pessoas verdadeiramente impedidas de votar, e quantas, ou se houve dificuldade em votar, sentindo-se as pessoas dissuadidas por não quererem o desconforto da espera, etc. Não só porque é diferente, mesmo em termos de legalidade do acto eleitoral, como pelo possível significado em termos de resultados eleitorais. Já ouvi falar Paulo Rangel de dezenas de milhar de eleitores impedidos de votar. Se assim foi ainda mais me espanta que os partidos políticos não peçam a repetição do acto eleitoral. Porque se houve pessoas impedidas de votar, para além de tornar a eleição inválida é um problema gravíssimo que, aí sim, exigiria a demissão imediata do Ministro.


 


No entanto, se o caso foi o desconforto da espera e da confusão, levando as pessoas a desistirem de votar, embora o pudessem ter feito, apesar de grave e lamentável, não me parece que seja obrigatória a demissão do Ministro. É obrigatória a urgente conclusão do inquérito (e todos desconfiamos das urgências dos inquéritos) para que, posteriormente, o Ministro Rui Pereira analise a melhor forma de assumir a sua responsabilidade política.


 

Flexi-segurança

 


Em tempo de elevado desemprego, predominantemente de gente nova e qualificada, apercebemo-nos de que são necessárias alterações à forma como entendemos a segurança no trabalho, a produtividade, a formação, a avaliação de desempenho. É incompreensível que se sacrifique a possibilidade de ter pessoas empenhadas, trabalhadores qualificados e motivados, a uma noção de emprego vitalício independente da prestação de quem o detém, tão caro ao nosso sindicalismo.


 


No entanto não consigo perceber o objectivo de reduzir as indemnizações aos trabalhadores despedidos, em número de dias pagos por mês de trabalho e no máximo de meses pagos (12). Da parte dos empregadores mantém-se o paradigma de pagar pouco, cada vez menos, investir pouco, cada vez menos, reivindicar os apoios do estado, apelidando-o de gastador e demasiado interventor, reivindicar redução de impostos e, por fim, poder despedir pessoas com muitos anos de casa com uma indemnização simbólica.


 


Não entendo como é possível dinamizar assim o mercado laboral. Deve ser uma redundância da flexi e um downgrade da segurança.


 

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...