20 novembro 2010

Empregos precários e vitalícios

 



Alev Ozkaynak: Birds


 


A crise internacional tem alterado as relações entre os cidadãos e o poder político, entre o Estado, a definição das suas funções e a sociedade civil, entre os trabalhadores e o patronato.


 


O direito ao trabalho deixou de estar na agenda política dos partidos que se dizem de esquerda. O trabalho é, hoje em dia, um privilégio e uma sorte de poucos e o desespero de muitos. Quando se fala de legislação laboral há algumas frases feitas que perderam o seu significado, mas que continuam a ser repetidas, por sindicatos e associações patronais, como se o tempo e a realidade não se tivessem interposto.


 


Chegamos sempre a limites, a extremos, de que não sabemos como sair. Enquanto existem hordas de jovens qualificados à espera de uma oportunidade para iniciarem a sua vida adulta, para darem o seu contributo à sociedade, em termos de criatividade, produtividade e plenitude, todos os dias nos confrontamos com pessoas entrincheiradas nos seus inamovíveis direitos, que são sempre o descanso, a possibilidade de não progredirem, de não se esforçarem, de gozarem as pausas, as folgas, as férias, as dores de barriga, os estremecimentos dos adolescentes, os cigarros e os cafés acompanhantes.


 


Os postos de trabalho estão preenchidos por inúmeras pessoas que não estudam, que não se preocupam, que não se realizam, que não se responsabilizam. Enquanto isso os jovens aceitam estágios voluntários, remunerações ridículas, horas de transportes públicos, madrugadas e noitadas, formações várias, exigências e incompreensões, trabalho quantas vezes de escravo, a incerteza de meses, anos, décadas se preciso for, para assegurarem um cantinho de luz.


 


Dia 24 de Novembro teremos uma greve geral contra a crise, contra a austeridade, contra a redução de ordenados. Gostaria de ouvir os sindicatos contra os empregos vitalícios para quem não quer nem nunca quererá entender o trabalho como um direito e um dever e reivindicarem esses empregos para quem tem vontade de construir qualquer coisa.


 

14 novembro 2010

Swing Time









Fred Astaire & Ginger Rogers

Da salvação nacional

 


Os repetidos pedidos para a formação de um governo de salvação nacional é a uma forma encapotada de fazer um golpe palaciano, revertendo e desvirtuando o resultado de eleições democráticas.


 


O PS, com José Sócrates eleito como secretário-geral do partido, ganhou as eleições legislativas e, portanto, o direito constitucional de formar governo. A formação de um governo minoritário foi uma escolha dele e do PS. Só se compreende a possibilidade de um novo governo, dentro deste quadro parlamentar, se este for demitido através de uma moção de censura parlamentar ou se pedir a demissão.


 


Caso essa hipótese se verificar, o Presidente chamará o líder do PS para formar novo governo, no caso José Sócrates. Ou então o Presidente dissolverá a Assembleia e marcará eleições antecipadas. Se o PS entretanto mudar de secretário-geral, será então o novo secretário-geral a concorrer às eleições.


 


Portanto a formação de um novo governo está prevista nas normas constitucionais, pelo que o pedido para um governo de coligação, com o CDS ou com qualquer outro partido, é um exercício de jogo político para agitar a opinião pública. A chamada à unanimidade de ideias, posições e políticas, a “salvação nacional”, é uma manifestação bolorenta e antidemocrática.


 


Portugal precisa de ideias, diferentes e fortes, de pessoas que tenham a coragem das convicções, não de generalidades de comentaristas, analistas, economistas e outros istas, que não fazem qualquer ideia, nem me parecem interessados na salvação seja do que for.


 

13 novembro 2010

O lapidar da Pedra

 


Quem tornou possível o livro:


 



Carlos Lopes - Edita-Me


 


 


e quem o fez brilhar:


 



Tiago Taron


 



Maria Celeste Pereira


 



 Manuel D'Oliveira


 

Outra explicação da Pedra

 



 


E ao terceiro livro fez-se "pedra". O ciclo de pedra não é o da oculta filosofia: Água, Terra, Fogo e Ar. Nem tão pouco dos humores da medicina aiurvédica: vento, fogo e terra.


 


Da luz e da sombra, para utilizar expressões dos dois primeiros livros de poesia de Maria Sofia Magalhães somos transportados para a "pedra".


 


E permitam-me uma interpretação: a pedra é o suporte onde as nossas vidas deixam um sulco gravado. Voluntário umas vezes, involuntário outras. Tal como a natureza ao longo de milhões de anos, pela água, pelo ferro, pelo magnésio, deixa registados nas pedras, riscos, cores e formas - as "scenic stones" - também a vida deixa registos, sulcos, cores e formas. O "ciclo da pedra" é o mapa sem destino que o escritor diariamente percorre (Mapa).


 


Ao terceiro livro a pedra é um Mapa. Um mapa em permanente elaboração. Mas ao terceiro livro estão lá dentro os dois anteriores. Essa luz que está dentro de nós e se esconde na procura (É quase noite) e causa a sombra que passa (Da sombra que passa) é, no fundo, a mesma que nos faz renascer todos os dias (Entardecer).


 


Porque se dia a dia nascemos, dia a dia esmorecemos, sem perceber que o último acto para morrer é viver. E quem desenha o mapa da nossa vida? O curso do acaso (Desluzido). A estrada que não acaba (Só agora). As tardes de chumbo e as noites entretidas de nada (Inevitável). As auroras de espuma que nos guiam para além dos deuses (Ondas). O voo rasante do pardal que sacode o medo (Sigo). O inevitável amanhã (Insónia). A asa do pássaro que inicia a viagem (Abstracção).


 


Ao terceiro livro a pedra é a História. Porque não há História Universal. Há apenas a História que as correntes individuais somam e reproduzem (Ciclos Perpétuos).


 


Ao terceiro livro a pedra é o Silêncio. Quando as palavras faltam fica o impalpável silêncio (Impalpável). O silêncio que se respira, imenso, sem fim (Silêncio). O silêncio que pesa pela ausência (Solidão). O silêncio que arranha (Vozes). O silêncio que está nas palavras mais saborosas (Dizemos).


 


Ao terceiro livro a pedra é o Amor. O amor que nos redime. Pelo infinito abraço (Dúvida). O que sabe atar as mãos e mantê-las apertadas (Enquanto). O que se descobre entre longos abraços de saudade (Na casa crua). O que ajuda a descobrir o muito que nos falta procurar (Juntos). O que se traduz em palavras plenas de mansidão (Mansidão). O que sobraria do espaço onde poisasse o resto da alma que resistisse (Nunca me faltaria). Pelo amor renascemos (Entardecer). Porque deveríamos olhar mais para a lua que o chão (Olhar).


 


E ao terceiro livro a pedra é a Liberdade. A liberdade que ordena mais que o calendário (Começo pelo trabalho). A liberdade que arrasta a poeira que todos os dias tolda, que sacode os ombros que todos os dias pesam, que respira o ar que todos os dias falta. A liberdade, enfim, que marca encontro para o próximo dia (Poeira).


 


Ricardo Leite Pinto


 

O Mapa da Pedra

 



 


A quem esteve, presente ou ausente, a quem gostaria de ter estado, a quem anunciou e divulgou o Ciclo da Pedra, o meu muito obrigada.


 

Explicação da Pedra


 


 


Esticamos os ramos


abraçamos os dias


esquecemo-nos que o tempo não existe


apenas o ar a terra o fogo a água


apenas a metamorfose da terra


dos rios da luz dos pássaros


apenas a transformação da dor num tecido firme


branco imóvel


na pedra.


 


Rompemos as redes as linhas


traçamos limites arestas esquinas


arquitectos da solidão num mundo de cor e gritos


na confusão dos sentidos hiper-estimulados.


Abrimos os poros


somamos enzimas


degradamos a vida


depuramos a morte.


 


Nos jardins dos silêncios que julgamos eternos


erguem-se as fontes da rigidez suprema


o vazio


o abandono.


Olhamos em volta e percebemos granitos soberbos.


Quem são?


 


Nem sempre sabemos dos ácidos reciclados


dos cristais de pureza guardados lá dentro.


Nem sempre descobrimos


a fenda fatal que corta e expõe a alma o fundo.


Nem sempre queremos a ferida o sangue


estilete que aguarda a pele desnuda.


 


No fim


se ele existe


segue a erosão permanente


nas costas nas mãos nas dobras da vida


na concha na pérola.


Areias mais grossas areias finíssimas


povoam as praias povoam os ventos.


Somos nós que descremos na posse na carne


sementes e pedras acasos em ciclos perpétuos


que unem aquilo que sempre e teimosamente desprezamos.

Mudanças

  Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...