Tara Donovan: Transplanted (detail)
Barriquei os olhos contra os riscos de água
que perfuram as janelas. As sombras
das folhas isoladas e batidas
num complemento perfeito do murmúrio
sem voz.
Da despedida.
Faze que a tua vida seja o que te nega./ A luta é tua: fá-la./ Agora, os sonhos em farrapos, melhor é a luta que pensá-la.// Ergue com o vigor do teu pulso;/ solda-o em aço./ E da tua obra afirma:/ – Sou o que faço. [João José Cochofel]
Tara Donovan: Transplanted (detail)
Barriquei os olhos contra os riscos de água
que perfuram as janelas. As sombras
das folhas isoladas e batidas
num complemento perfeito do murmúrio
sem voz.
Da despedida.
As medidas de austeridade, tantas vezes pedidas como indispensáveis, inadiáveis, estão agora a ser trucidadas como duríssimas, feitas tarde demais, curtas, ainda não suficientes, etc.
Aconteceu o mesmo com as reformas, as tais que nenhum governo se atreveu a protagonizar, com excepção do anterior governo PS, mas que foram vilipendiadas e boicotadas por todos os que as defendiam.
Interessante ainda perceber que, para muitos, quem defendeu e defende o governo socialista não pode, está proibido, sob pena de ser considerado anormal e traidor, criticar o mesmo governo ou medidas com que não concorda, ou posturas e atitudes políticas que considera inaceitáveis. Traidor por quem de forma acéfala defende o mestre, traidor para quem sempre atacou de forma acéfala o PS, o governo, Sócrates e outros ministros, porque agora é tarde.
Tarde? Será que fechámos a porta, o país, o mundo, a nossa cabeça? E a quem entregar a confiança? Aos nossos esquerdistas, da esquerda plural e verdadeira, que nunca contribuirão para uma solução governativa credível, partidos onde impera a irresponsabilidade, o populismo e a demagogia? Ao PSD, que se afunda no seu próprio descrédito, que nem sequer sabe o que defende, ontem as privatizações, nomeadamente a da Caixa Geral de Depósitos, a alteração da Constituição e a ameaça de deixar o país sem Orçamento de Estado de 2011, quando nele estão inscritas as medidas que pediu?
Continua, portanto, a ópera bufa. Enfim, agora temos a chuva e as inundações para nos entretermos. E os U2.
Já percebemos que, faça o país o que fizer, seja qual for o governo que tiver, quem decide as políticas financeiras são os mercados, imbuídos de uma ideologia liberal desenfreada. A prova está no facto de a Moodys ter baixado o rating da Espanha, apesar da excelente execução orçamental, apesar dos cortes todos que fizeram e que tanto agradaram a todos os nossos mediáticos e compenetrados economistas, agora porque há perspectiva de fraco crescimento. Na Irlanda, aquele farol dos exemplos, quando cresce e quando decresce, os cortes não diminuíram o défice e há uma nova recessão económica. Como acontecerá em Portugal.
Já percebemos que este anúncio foi de imediato aproveitado para não aumentar o ordenado mínimo para 500€, um número verdadeiramente astronómico e que permite aforrar a miséria. Já percebemos que estão todos de mãos atadas, a não ser que a fome de poder do PSD seja tão grande que se arrisque a não aprovar o orçamento para 2011.
O que não se consegue perceber, pelo menos eu não percebo, é como é que José Sócrates afirma, depois de todas as previsões erradas, desde a campanha eleitoral, de todos os programas não cumpridos, de todos os investimentos que avançavam mas não avançam, da inexistência de política de saúde, dos impostos que aumentaram apesar das juras em contrário, como é que José Sócrates diz a todos os cidadãos, mais uma vez, que não haverá mais medidas de austeridade? Como é que ele tem a audácia de afirmar isso?
Pode haver motivos e justificações para tudo, mas para a total desfaçatez perante o defraude contínuo de todos quantos tentam perceber o que se esá a passar, que vêm a sua desilusão e apreensão crescerem, para isso não há perdão. José Sócrates e Teixeira dos Santos, desbaratam o capital de confiança que, apesar de tudo, se lhes foi dando.
É compreensível a crise mas não a mistificação. Nem a de Passos Coelho, nos cortes da despesa do estado não concretizáveis, nem a do Primeiro-ministro, na negação do óbvio.
(...) O primeiro, e talvez principal problema da proposta de orçamento para 2011 é... 2010, mais um abalo na credibilidade de Teixeira dos Santos. Por outras palavras, o barco orçamental afundou nos últimos quatro meses de forma incompreensível, que os dois submarinos, obviamente, não explicam, o que obrigou a uma operação extraordinária, o fundo de pensões da PT. A ver vamos como se vai concretizar para garantir um défice de 7,3%. (...)
Aí está ela, a austeridade, os cortes de salários, os congelamentos, os impostos, mais aperto ao consumo, mais desemprego, a recessão.
Aí está o falhanço deste governo, desta Europa, deste sistema. Aí está a repetição da receita da crise e dos mercados que pedem mais, cada vez mais.
O que vai fazer o PS do seu programa político? O que vai fazer o PSD das suas ameaças contra o OE de 2011?
O que vamos nós fazer ao percebermos que, votemos o que votarmos quem decide são os mercados, aqueles em quem ninguém vota mas que são os donos e senhores do mundo?
Quase no final de Setembro há alguém que procura uma casa para morar. A short story está com as folhas de Outono, junto de gente bem viva, a quem agradeço o desafio.
Las manos Eduardo Kingman Aos poucos vou mudando a casa, vou adaptando o espaço à minha pessoa. Reduzir coisas e coisas e coisas. Clarear,...