10 junho 2010

Pátria


Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. O que será que significa para quem proferiu os discursos solenes, para quem condecorou personalidades, para quem repetiu muitas vezes a palavra pátria?


 


Ninguém é dono das palavras, muito menos do que elas significam. Portugal e patriotismo não são ferretes nem emblemas, bandeiras desfraldadas para ferir. Portugal é uma mescla de sons e de cores, de sentimentos e de poesia, muita, verde, amarela ou castanha, de olhos azuis ou negros, de cabelos ruivos ou de carapinha.


 


Onde estão aqueles que de Portugal fizeram pátria, quem homenageou os imigrantes, os novos cultores da língua, os pais e mães de novos filhos, os que misturam e e fazem evoluir o canto, a melodia, a significado de ser português?


 


Vivemos em Portugal, com as nossas vitórias e as nossas misérias, com uma bipolaridade singular, que nos entristece e nos impulsiona para mais longe. Portugueses somos todos os que ainda não desistimos dele e de nós. Somos todos que o queremos ser, sem paternalismos nem novos moralistas.


 

Em favor do ensino da História


 


Ainda a propósito das tentativas de apagamento da História e de silenciamento de projectos e opiniões livres, divulgo uma petição de que tive conhecimento através da caixa de comentários do meu último post (Olga Magalhães):


 


(...) Quando encaradas de forma objectivante, as disciplinas de história podem, igualmente, contribuir para a formação e a consolidação de uma consciência social aberta, democrática e participativa. Fazem-no contextualizando fenómenos complexos; viabilizando posturas menos alienantes face às problemáticas da multiculturalidade e das identidades (locais, regionais, nacionais e globais; sexuais e etárias, socioeconómicas e socioculturais, político-ideológicas e étnico-religiosas); treinando-nos para lidar com as diferenças e as semelhanças, as mudanças e as permanências, a cooperação e a conflitualidade, as situações de crise ou estagnação e de progresso; tornando conjecturável o relacionamento entre o passado, o presente e eventuais cenários futuros. (...)


 


Petição Em favor do ensino da História - não apaguem a memória.


 

08 junho 2010

Buracos negros


 


Gostaria que me explicassem como é que se recriam episódios da história recente de Portugal, nomeadamente dos últimos 100 anos, esquecendo a existência do Estado Novo e das organizações que o integraram.


 


Gostaria de entender qual é o problema de um agrupamento de escolas de Aveiro decidir comemorar o centenário da República teatralizando vários episódios, inclusive a forma como se vestiam as crianças da Mocidade Portuguesa, realidade que mais de três décadas de crianças viveram obrigatoriamente (1936 a 1971 – correspondendo a 35% desses 100 anos).


 


Infelizmente durante os anos da Mocidade Portuguesa o poder político instrumentalizou o conhecimento da História de Portugal, esquecendo uns episódios e enaltecendo outros, distorcendo a informação que era veiculada nas escolas, nos livros, nos discursos, nos teatros, em todas as manifestações sociais e culturais.


 


Tantos anos após o 25 de Abril ainda há quem tenha dificuldade em lidar com o próprio passado. Em democracia e em liberdade não podem existir buracos negros. Apelidar de fascistas os professores que organizaram os eventos e que estimularam os seus alunos a estudar e a preparar essas comemorações é, antes de mais, um exercício inaceitável de censura.

06 junho 2010

Sem desculpas

 


É claro que o esforço de Sócrates e do governo em diversificar as hipóteses de trocas comerciais com países de África e da América só pode ser a demonstração de que temos um caixeiro-viajante como Primeiro-ministro (O turismo de Sócrates - Vasco Pulido Valente).


 


Assim como a decisão de fechar escolas com menos de 21 alunos só se compreende na lógica puramente economicista do Ministério da Educação, cujo objectivo nunca será dar maior e melhor oferta escolar, melhores condições físicas e de aprendizagem, com a ajuda das autarquias nos transportes e na alimentação. No tempo das Professoras Clotildes é que se aprendia e em escolas bem apetrechadas, que servem muito bem para os dias de hoje. Não eram precisos aquecimentos no Inverno nem ares condicionados no Verão, pavilhões de desportos, computadores, impressoras, internet, acessos para deficientes físicos, preocupações ambientais e de redução de custos, os tais custos que a oposição reclama que devem ser reduzidos mas que quando o governo o tenta é sempre inadmissível.


 


Tão inadmissível como o execrável facilitismo de permitir que alunos com idades superiores a 15 anos, se reprovarem no 8º ano, possam propor-se a exame nacional de Português e Matemática do 9º ano, o mesmo que todos os alunos do 9º ano terão que ultrapassar, e caso consigam passar nesses exames e nas provas das outras disciplinas, se permita a passagem para o 10º ano. Facilitismo e inaceitável desigualdade de oportunidades para as crianças.


 


Tal como a alteração do regime de comparticipação nos medicamentos, em que o Estado incentiva fortemente a utilização de genéricos, acautelando a comparticipação de 100% no regime especial para pensionistas. Está obviamente errado, não se sabe exactamente porquê, mas está errado.


 


Não nos podemos esquecer dos crimes contra a saúde pública e individual que foi o fecho de maternidades e dos SAP por esse país fora, que levou à demissão de Correia de Campos, aquele que estudou a reorganização dos serviços de urgência, que tentou a sustentabilidade financeira do SNS. aquele destruidor do SNS, que agora é que está a salvo da ruína, preparado para ser desmantelado.


 

Discurso directo


 


Li com muita atenção a entrevista de Fernando Nobre ao DN e ouvi a mesma entrevista na TSF.


 


Mantenho as minhas dúvidas. Apesar de ser verdade que os actos falam pelo seu posicionamento político, que as suas ideias se podem situar na área do centro-esquerda, tenho sempre alguma desconfiança de quem se apresenta contra o sistema.


 


Por um lado eu entendo, e é verdade, que Fernando Nobre não tem responsabilidades na governação do país e que, portanto, pode apresentar-se como uma pessoa que vem de novo, de fora do bloco central de interesses, como cidadão suprapartidário movido por imperativos de cidadania. Neste aspecto tem enormes semelhanças com a primeira candidatura presidencial de Manuel Alegre, apoiada por um movimento de cidadãos, independentemente dos partidos a que pertenciam. Com a vantagem de Fernando Nobre ser, de facto, alguém que vem da sociedade civil e não das estruturas partidárias.


 


Por outro lado o sistema de que Fernando Nobre fala é o regime democrático. Os partidos políticos não podem ser encarados como um mal menor da democracia, sob pena de começarmos a pensar que são descartáveis. Tenho sempre muita desconfiança no discurso populista de quem se encontra virginalmente fora do combate político.


 


No geral penso que foi uma boa entrevista. Gostei de ouvir Fernando Nobre falar das suas diferentes opções das alterações fiscais, da sua preocupação expressa pelos mais desfavorecidos, da sua defesa do estado social e da necessidade de uma melhor e maior regulação financeira, assim com as críticas a Manuel Alegre e a Cavaco Silva. Não sei é se o cargo para que se candidata lhe dá possibilidade de ser um interventor activo sem que interfira na governação, que lhe está obviamente vedada.


 

Ruído


O ruído está a tornar-se uma constante em todo o lado.


 


Nos cafés ouvem-se as vozes estridentes das donas de casa que contam as dores nas costas, os almoços de galinha de cabidela e a má educação dos netos para todos os comensais desprevenidos, que tentam, no seu canto, saborear a meia torrada e passar os olhos pelo jornal.


 


Entram crianças pequenas que gritam desenfreadamente sem que os queridos papás e mamãs os façam calar. Instalou-se na sociedade a noção de que as crianças não podem ser contrariadas, pelo que pulula a selvajaria e a prepotência dos pequenos ditadores, com o embasbacamento dos adultos demitidos das suas funções.


 


Os adolescentes e jovens adultos usam algumas palavras-chave para comunicarem, para além de alguns sons ininteligíveis, mas sempre a um volume exageradíssimo, talvez porque têm os orifícios auriculares ocluídos pelos auscultadores de um qualquer acessório musical.


 


Os ajuntamentos de claques futebolísticas, agora com a iminência do mundial de futebol, estão inundados daquelas horrorosas e ensurdecedoras imitações de instrumento musical, com um som absolutamente assustador.


 


Ainda não percebi se a quantidade de ruído serve para não ouvirmos os nossos próprios pensamentos, por depressivos, ou para não nos deprimirmos pela total ausência de pensamento. Qualquer das hipóteses é deprimente.

Skoda - o carro musical

Christine Tenho um carro possuidor de autonomia e vontade próprias. Ligado ou desligado. Sem perceber como nem porquê, este meu carro reso...